Neo-Concretismo
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NEOCONCRETISMO. Movimento artístico surgido no Rio de Janeiro em fins da década de 1950 como reação ao Concretismo ortodoxo. Lideraram-no teóricos como Ferreira Gullar e Reinaldo Jardim, no Rio de Janeiro, e Theon Spanudis, em São Paulo - onde a tendência repercutiu aliás fracamente.

Uma 1ª Exposição de Arte Neoconcreta aconteceu no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1959. Participavam, além dos três elementos citados, ainda Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Lígia Clark e Lígia Pape. No mesmo dia da abertura da mostra, 22 de março, o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (dirigido por Jardim, e que seria o órgão do movimento), estampava o Manifesto Neoconcreto, assinado pelos sete expositores. Nesse Manifesto, cuja redação final deveu-se possivelmente a Gullar, dizia-se, entre outras coisas:

- A expressão neoconcreto indica uma tomada de posição em face da arte não-figurativa "geométrica" (neoplasticismo, construtivismo, suprematismo, Escola de Ulm) e particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista (...) O neoconcreto, nascido de uma necessidade de exprimir a complexa realidade do homem moderno dentro da linguagem estrutural da nova plástica, nega a validez das atitudes cientificistas e positivistas em arte e repõe o problema da expressão, incorporando as novas dimensões "verbais" criadas pela arte não-figurativa construtiva. O racionalismo rouba à arte toda a autonomia e substitui as qualidades intransferíveis da obra de arte por noções de objetividade científica; assim os conceitos de forma, espaço, tempo, estrutura - que na linguagem das artes estão ligados a uma significação existencial, emotiva, afetiva - são confundidos com a aplicação teórica que deles faz a ciência. Não concebemos a obra de arte nem como "máquina" nem como "objeto", mas como um quase-corpus, isto é, um ser cuja realidade não se esgota nas relações exteriores de seus elementos; um ser que, decomponível em partes pela análise, só se dá plenamente à abordagem direta, fenomenológica.

Como o Neoconcretismo não se limitava apenas às artes visuais, fazem parte efetiva desse movimento experiências literárias, como os livros-poemas performances, como o Balé Neoconcreto de Lígia Pape e Reinaldo Jardim e mesmo a maquete de um Teatro Integral, devida ao último.

No mesmo ano de seu lançamento no Rio de Janeiro, o Neoconcretismo foi tema de uma exposição realizada em Salvador, no Belvedere da Sé: tomaram parte os sete elementos do grupo original e mais Aluisio Carvão, Hélio Oiticica e Willys de Castro, além dos poetas Çláudio Melo e Sousa e Fortes de Almeida. A repercussão na Bahia foi suficientemente forte para que o crítico Clarival Valladares, então no começo de sua brilhante carreira, aderisse aos postulados da poesia neoconcreta, fazendo publicar alguns poemas neles estribados.

Duas outras exposições nacionais de arte neoconcreta ocorreriam ainda: em 1960 no Ministério da Educação do Rio de Janeiro, e em 1961 no Museu de Arte Moderna de São Paulo, comparecendo pela primeira vez, na 2ª Exposição, Décio Vieira, Hércules Barsotti, Osmar Dillon e Roberto Pontual, mas verificando-se por outro lado a defecção de Weissmann e de Theon Spanudis.

Essa mostra de 1961 em São Paulo foi o canto do cisne do movimento, o qual, diga-se de passagem, nunca conseguiu impor-se totalmente fora do Rio de Janeiro, sendo acerbamente criticado pelos concretistas ortodoxos paulistas, partidários da autonomia da forma em detrimento da expressão e de qualquer implicação simbólica ou sentimental.

Fonte: CD Rom "500 Anos da Pintura Brasileira"


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São Paulo, sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

O NEOCONCRETISMO

DA REPORTAGEM LOCAL

A polêmica cizânia com os concretistas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, que em 1958 levou à publicação do "Manifesto Neoconcreto", no "Jornal do Brasil", assinado por Ferreira Gullar, entre outros, voltou à baila na fala do poeta.

Gullar lembrou que fora procurado pelo trio paulista após a publicação de "A Luta Corporal", em 1954, e disse que o movimento nasceu em parte por causa de um amigo seu, Oliveira Bastos, crítico literário.
"Ele virou para mim e disse: "Sabe o pessoal de São Paulo que fez contato contigo? Eles querem agora lançar um movimento da poesia concreta". Mas eu disse que não queria saber de movimento nenhum", disse Gullar, reputando ao encontro de Bastos com os concretistas a redescoberta do escritor maranhense Sousândrade (1833-1902), considerado uma "antecipação" modernista pela vanguarda paulista.

"Ele [Bastos] falou do Sousândrade para o Haroldo e o Augusto, que eram pessoas cultas e interessadas e que foram atrás desse poeta estranho. Se o Sousândrade se tornou atual e a sua obra foi reestudada, isso se deve a eles. Eu confesso que não gosto, acho meio chato."
Gullar, que em 1957, após participar da 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta, discordou da publicação do artigo "Da Psicologia da Composição à Matemática da Composição", dos concretistas, chegando a redigir uma resposta, "Poesia Concreta: Experiência Fenomenológica", lembrou em que divergia com a proposta do grupo:

"Augusto falava de um novo verso, e eu, de uma nova sintaxe. Eu tinha destruído a sintaxe e para mim não havia novo verso. Aí Augusto disse que minha posição era de certo modo destrutiva, da linguagem usual, enquanto a deles era construtiva". O resultado, sustentou Gullar, foi que o grupo paulistano propôs um poema a partir da pintura concreta, com o nome adotado da experiência dos artistas plásticos.

"E esta poesia é construída geometricamente, no que prevaleceu de algum modo a minha proposta, porque não se tratava de um novo verso, mas de uma nova sintaxe. Então a sintaxe escolhida é visual e não verbal."

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