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Uma família de
intelectuais
Lívio
Abramo nasceu em Araraquara, no interior de São Paulo, em 1903. Filhos de pais
italianos, Lívio e seus irmãos e irmãs - Athos, Fúlvio, Beatriz, Lélia, Mário e
Cláudio - cresceram em um ambiente especial e tornaram-se artistas, jornalistas e
intelectuais, cujas contribuições foram importantes para o ambiente cultural brasileiro.
Segundo a atriz
Lélia Abramo, em seu livro de memórias, o ambiente familiar influenciou as opções de
vida de cada um dos Abramo.
"Nada em meu
pai e minha mãe era medíocre. Ambos sensíveis às artes, carregavam toda a filharada
para teatros, exposições de todos os gêneros, eventos culturais, inaugurações
oficiais, etc", escreveu.

Campos do Jordão, xilogravura, 9,2x13,9 cm, 1948
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Uma vida difícil
Mas a vida
não foi fácil para Lívio, cuja ambição - "desde os tempos de ginásio - era ser
arquiteto".
"Motivos de ordem
econômica impediram esse sonho, pois não pude terminar meus estudos. E a grande crise
econômica que começou em 1928-1929 e que avassalou o mundo inteiro, varreu com as
esperanças de milhões de jovens, entre eles, eu também. Talvez tenha sido esse o motivo
que, mais tarde, tenha influído decisivamente em mim para que a arte da gravura me
tivesse aparecido como uma compensação para aquela minha grande frustração".
Autodidata
Lívio tornou-se artista
por conta própria - autodidada, desenhava desde criança. Na juventude, aventurou-se na
confecção de sua primeira gravura retirando sulcos de um pedaço de madeira com uma
lâmina gilete.
Mas foi por volta dos 27
anos ao deparar-se com uma exposição de gravuras dos expressionistas alemães, em São
Paulo, e sentir a força de expressão das gravuras de Kathe Kollwitz e demais artistas,
que decidiu: "é isso que quero fazer".
"Em verdade, o gosto
pela gravura começou a despontar em mim quando, ainda estudante, em casa de meus pais, eu
admirava as vinhetas gravadas em madeira que ilustravam os poemas de um famoso poeta
italiano, e de autoria de um gravador de nome De Károlis.
"Esse foi o despertar
de uma vocação - a exposição dos grandes gravadores expressionistas alemães foi a
revelação", escreveu o artista, que ficou conhecido por sua maestria ao manipular o
buril.
O reconhecimento
A preocupação com a
justiça social, acompanhou-o desde sempre, levou-o, ainda jovem, a militar no Partido
Comunista, a interessar-se pelo Trotskismo e pelo socialismo. Nessa época colaborava
fazendo ilustrações para tablóides sindicalistas. Em 1932, foi expulso do Partido
Comunista, acusado de trotskismo.
O reconhecimento artístico
chegou mais tarde, aos 47 anos de idade, quando suas xilogravuras alcançaram um grau de
depuração técnica e ao mesmo tempo uma riqueza impressionante de detalhes, suas
xilogravuras eram extremamente precisas em todos os aspectos.
Por isso ganhou prêmios
como o de Viagem ao Exterior do Salão Nacional de Belas Artes, em 1950, com as 27
ilustrações para o livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha; e o 1º Prêmio
de Gravura Nacional da 2ª Bienal de São Paulo, em 1953. Algumas honrarias, como a ordem
do Rio Branco.
Quem é esse homem?
Lélia Abramo, relatou em
seu livro:
"O maior crítico
italiano de artes plásticas, o professor Lionello Venturi, por ocasião de uma mostra
preparada por mim e por minha irmã em 1948, na via Marguta, quando ainda vivíamos em
Roma, sem saber que eu era irmã do artista, perguntou:
" 'Quem é esse
artista cujos cavalos são dignos do Partenon?' Mais tarde vindo ao Brasil, o professor
fez questão de conhecer Lívio pessoalmente".
Homem vigoroso, de
personalidade fortíssima, possuía inteligência abrangente. A força que o impelia a
criar, Lívio imprimiu em seu trabalho - gravuras, desenhos, charges, design de objetos,
textos críticos, aulas, curadoria de exposições.
Energia não lhe faltava
nunca. Viveu muito, 89 anos. E, apesar das angústias e dificuldades, viveu bem porque
possuía integridade. Lívio era fiel às suas convicções e aos seus princípios.
"Nunca fiz
concessões", diria o artista, mais tarde. Não gostava de trabalhar em função de
uma demanda de mercado. Procurava explorar os limites da técnica e dos temas escolhidos
para representação.

Paisagem Paulista, xilogravura, 10,1x16,1 cm, 1938
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Xilografia na
redação
Em 1931, pela mão do
jornalista Paulo Torres, Abramo ingressou no jornalismo. Fora contratado pelo jornal
"Diário da Noite" para fazer desenhos comentando o fato principal de cada dia,
fazia charges.
"O comentário que lhe
brotava dos dedos não era, porém, do teor jornalístico: esse comentário nascia em
desenho e em xilogravura", descreve o jornalista Geraldo Ferraz em texto publicado
pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo.
"Eram desenho e
xilogravura as versões que produzia, de sua refração sofrida da atualidade viva da
história das jornadas do fascismo, da marcha de Hitler para o poder e para a guerra, dos
combates na China, da contra-revolução de Espanha.
Tais acontecimentos na
pauta do fato internacional, revestiam-se para ele de formas e símbolos. Durante anos
inteiros, lado a lado as nossas mesas, na mesma redação, pude acompanhar-lhe a
formação de artista, ao mesmo tempo em que íam, como que insensivelmente, diluindo as
tonalidades ásperas do militante, na troca de um por outro campo de atividade".
Ele viu a terra
se movendo
A Lívio Abramo foi
permitido além de assistir a tantas transformações, interagir não somente na realidade
cultural de seu país como também em outra realidade - a paraguaia. Lívio teve a
possibilidade de atuar metade da sua vida ativa no Brasil e a outra metade no Paraguai.
No Brasil, foi desenhista,
jornalista, gravador. Dividiu atelier com Oswaldo Goeldi, no Rio de Janeiro; e em São
Paulo, com Marcelo Grassmann e Fayga Ostrower. Com Maria Bonomi, uma de suas alunas,
fundou o Estúdio Gravura, onde também lecionava. De acordo com Lélia Abramo, o Estúdio
Gravura foi uma de suas mais importantes realizações.
No final da década de 50,
Abramo foi convidado a integrar a Missão Cultural Brasil Paraguai. O artista visitou
Assunção pela primeira vez em 1956 e apaixonou-se pela paisagem paraguaia; assumiu,
desde então, responsabilidades para com o povo paraguaio, como a de, segundo a artista e
arte-educadora paraguaia Olga Blinder, levar para a 6ª Bienal de São Paulo uma
exposição de arte hispano-guarani.
Abramo realizou o
levantamento iconográfico da região das Missões, para a Missão Cultural
Brasil-Paraguai e participou da Fundação do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico do Paraguai.
No Paraguai, para
todo sempre
Em 1961, recém aposentado
como redator do jornal o Estado de São Paulo, instala-se definitivamente em Assunção,
como responsável pelo setor de arte do Centro de Estudos Brasileiros - CEB, ligado à
Embaixada do Brasil e mantido pelo Ministério das Relações Exteriores.
Naquela cidade Lívio
continuou a desenvolver seu trabalho como gravador e desenhista além de lecionar
história da arte e gravura na Escola de Arte do CEB.
Naquele país, foi também
responsável pela promoção de intercâmbio cultural entre os dois países - promovia
cursos, levava artistas brasileiros para expor em Assunção e trazia artistas paraguaios
para expor no Brasil. Além disso, fundou a Escolinha de Arte para Crianças ligada ao
Centro de Estudos Brasileiros.
Um cidadão latino-
americano
É possível dizer que o
fato de estar em Assunção deu a Lívio uma certa mobilidade dentro do continente.
Tornou-se conhecido e respeitado no meio acadêmico e cultural Paraguaio e
latino-americano.
Lívio Abramo, realizou
várias mostras no Paraguai e em países da América do Sul - Uruguai (Montevidéu),
Bolívia (La Paz), Argentina (Buenos Aires), México (Cidade do México), entre outros.
Em abril de 1989, a mostra
retrospectiva de sua obra, realizada no México, recebeu destaque na primeira página do
jornal "Excelsior", e Lívio mereceu ver publicado o desenho em bico de pena e
aguada, o retrato de Maria, sua primeira mulher.
Humanista por excelência
Possuía uma forte e
profunda convicção no homem - humanismo confirmada por suas ações e por suas
opções artísticas.
A identificação com os
expressionistas alemães, cujas gravuras o fizeram sentir emoção de ver representadas as
"iniludíveis angústias" do homem; foram a "revelação" de que podia
levar ao longo de sua vida essa preocupação e exprimir-se dentro dessa tendência
estética.
"Para mim não há
nada mais importante que a condição do homem e seu melhoramento (...) Voltar ao
expressionismo me parece que é a maneira melhor de falar sobre a realidade humana" ,
afirmou em entrevista ao jornal O Correio Braziliense, em janeiro de 1992.
Nos últimos anos, Lívio
Abramo continuava sua atividade artística. Com certeza foram poucos os brasileiros que
viram os desenhos de suas últimas fases "Homenagem aos Artistas da
Pré-História", e "Os Frisos do Partenon". Essa última, uma exceção,
foi mostrada na Bienal de São Paulo no final de 1991. Essa série de desenhos
expressionistas reflete essa preocupação com a condição humana e seu melhoramento.
Uma São Paulo caótica
Em visitas à São Paulo,
cidade na qual passava sempre suas férias, Lívio Abramo impressionou-se com a luta
travada pelos paulistanos para ir trabalhar. Filas de ônibus, atropelamentos e além
dessa realidade a daqueles que perderam tudo e são marginalizados pela sociedade.
Mas apesar dos desenhos
refletirem as últimas indagações do artista e a necessidade de conscientização das
pessoas, Lívio ateve-se sobre diversos assuntos e deixou registradas em cartas opiniões,
impressões, críticas e conselhos no quais transparece o homem/artista/mestre.
Lívio freqüentava, nos
dois países onde viveu, exposições, salões, reuniões e debates sobre arte e cultura
promovidos por intelectuais e artistas.
No Brasil, conheceu Oswald
de Andrade, Tarsila do Amaral, pela qual nutria enorme admiração e admitiu ter sido
influenciado intelectualmente e por sua obra.
Foi aconselhado, em início
de carreira, pelo pintor Lasar Segall. Era amigo de Portinari, Bruno Giorgi, entre outros
importantes artistas.

Paraguai-Sinfonia, xilogravura, 11x17,2 cm, 1965
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O grande mestre
Foram muitos os alunos que
passaram por ele, no Brasil, Dorothy Bastos, Maria Bonomi, Savério Castelani, Anésia
Pacheco Chaves, Ely Bueno, entre muitos outros.
No Paraguai, para citar
alguns nomes da primeira turma, destacaram-se Edith Jiménez, Maria Adela Solano López,
Lotte Schulz, Jacinto Rivero, todos gravadores de renome em Assunção e América Latina.
Abramo foi um homem que
não curvou-se diante das dificuldades e, mesmo quando a vida não lhe dava motivos para
sorrir, não deixava de acreditar na possibilidade de transformar o mundo.
Ação criadora
Sobre a grande capacidade
de Lívio Abramo, José Neistein, especialista em arte brasileira e Diretor do Centro de
Estudos Brasileiros em Washington traduz de forma sintética a ação criadora - a obra e
a atividade docente:
" Lívio
Abramo não é apenas, com Oswaldo Goeldi, um dos mestres clássicos da gravura moderna no
Brasil - com sua inquietação, sua atividade, sua inovação permanente - ele é um
verdadeiro clássico, no real sentido do termo, sempre moderno, meticuloso como o que faz
e cheio de vitalidade no seu contentamento."
"A história de sua
carreira é um paralelo estreito com a maioria dos grandes nomes do nosso tempo ou do
passado: uma vida cheia de lutas, atravessada por uma visão humana do mundo e um
conhecimento profundo dos problemas sociais; uma consciência aguda das exigências
técnicas de sua profissão; autodidata no seu aprendizado do essencial e ao mesmo tempo,
entretanto, um grande mestre quando ensina e transmite aos outros os segredos do manejo do
buril e da goiva; em uma palavra, um criador de arte e de artistas".
Fonte:
Divisão de Cooperação Educacional - DCE
Ministério das Relações Exteriores - MRE
Esplanada dos Ministérios, Bloco H, Anexo I, Sala 432
70170-900 - Brasília - DF
Tel.: (61) 411-6696 / 411-6710
Fax: (61) 322-5671
http://www.cer.mre.gov.br/
E-mail: dce@mre.gov.br
Conheça alguns irmãos de Lívio
Cláudio Abramo (1923-1987)
Lélia Abramo (1914-2004)
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