Lívio Abramo
1903 (Araraquara-SP)
1992 (Assunção-Paraguai)

Uma família de intelectuais

     Lívio Abramo nasceu em Araraquara, no interior de São Paulo, em 1903. Filhos de pais italianos, Lívio e seus irmãos e irmãs - Athos, Fúlvio, Beatriz, Lélia, Mário e Cláudio - cresceram em um ambiente especial e tornaram-se artistas, jornalistas e intelectuais, cujas contribuições foram importantes para o ambiente cultural brasileiro.

     Segundo a atriz Lélia Abramo, em seu livro de memórias, o ambiente familiar influenciou as opções de vida de cada um dos Abramo.

     "Nada em meu pai e minha mãe era medíocre. Ambos sensíveis às artes, carregavam toda a filharada para teatros, exposições de todos os gêneros, eventos culturais, inaugurações oficiais, etc", escreveu.

Uma vida difícil

     Mas a vida não foi fácil para Lívio, cuja ambição - "desde os tempos de ginásio - era ser arquiteto".

     "Motivos de ordem econômica impediram esse sonho, pois não pude terminar meus estudos. E a grande crise econômica que começou em 1928-1929 e que avassalou o mundo inteiro, varreu com as esperanças de milhões de jovens, entre eles, eu também. Talvez tenha sido esse o motivo que, mais tarde, tenha influído decisivamente em mim para que a arte da gravura me tivesse aparecido como uma compensação para aquela minha grande frustração".

Autodidata

     Lívio tornou-se artista por conta própria - autodidata, desenhava desde criança. Na juventude, aventurou-se na confecção de sua primeira gravura retirando sulcos de um pedaço de madeira com uma lâmina gilete.

     Mas foi por volta dos 27 anos ao deparar-se com uma exposição de gravuras dos expressionistas alemães, em São Paulo, e sentir a força de expressão das gravuras de Kathe Kollwitz e demais artistas, que decidiu: "é isso que quero fazer".

     "Em verdade, o gosto pela gravura começou a despontar em mim quando, ainda estudante, em casa de meus pais, eu admirava as vinhetas gravadas em madeira que ilustravam os poemas de um famoso poeta italiano, e de autoria de um gravador de nome De Károlis.

     "Esse foi o despertar de uma vocação - a exposição dos grandes gravadores expressionistas alemães foi a revelação", escreveu o artista, que ficou conhecido por sua maestria ao manipular o buril.

O reconhecimento

     A preocupação com a justiça social, acompanhou-o desde sempre, levou-o, ainda jovem, a militar no Partido Comunista, a interessar-se pelo Trotskismo e pelo socialismo. Nessa época colaborava fazendo ilustrações para tablóides sindicalistas. Em 1932, foi expulso do Partido Comunista, acusado de trotskismo.

     O reconhecimento artístico chegou mais tarde, aos 47 anos de idade, quando suas xilogravuras alcançaram um grau de depuração técnica e ao mesmo tempo uma riqueza impressionante de detalhes, suas xilogravuras eram extremamente precisas em todos os aspectos.

     Por isso ganhou prêmios como o de Viagem ao Exterior do Salão Nacional de Belas Artes, em 1950, com as 27 ilustrações para o livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha; e o 1º Prêmio de Gravura Nacional da 2ª Bienal de São Paulo, em 1953. Algumas honrarias, como a ordem do Rio Branco.

Quem é esse homem?

     Lélia Abramo, relatou em seu livro:

     "O maior crítico italiano de artes plásticas, o professor Lionello Venturi, por ocasião de uma mostra preparada por mim e por minha irmã em 1948, na via Marguta, quando ainda vivíamos em Roma, sem saber que eu era irmã do artista, perguntou:

     " 'Quem é esse artista cujos cavalos são dignos do Partenon?' Mais tarde vindo ao Brasil, o professor fez questão de conhecer Lívio pessoalmente".

     Homem vigoroso, de personalidade fortíssima, possuía inteligência abrangente. A força que o impelia a criar, Lívio imprimiu em seu trabalho - gravuras, desenhos, charges, design de objetos, textos críticos, aulas, curadoria de exposições.

     Energia não lhe faltava nunca. Viveu muito, 89 anos. E, apesar das angústias e dificuldades, viveu bem porque possuía integridade. Lívio era fiel às suas convicções e aos seus princípios.

     "Nunca fiz concessões", diria o artista, mais tarde. Não gostava de trabalhar em função de uma demanda de mercado. Procurava explorar os limites da técnica e dos temas escolhidos para representação.

Xilografia na redação

     Em 1931, pela mão do jornalista Paulo Torres, Abramo ingressou no jornalismo. Fora contratado pelo jornal "Diário da Noite" para fazer desenhos comentando o fato principal de cada dia, fazia charges.

     "O comentário que lhe brotava dos dedos não era, porém, do teor jornalístico: esse comentário nascia em desenho e em xilogravura", descreve o jornalista Geraldo Ferraz em texto publicado pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo.

     "Eram desenho e xilogravura as versões que produzia, de sua refração sofrida da atualidade viva da história das jornadas do fascismo, da marcha de Hitler para o poder e para a guerra, dos combates na China, da contra-revolução de Espanha.

     Tais acontecimentos na pauta do fato internacional, revestiam-se para ele de formas e símbolos. Durante anos inteiros, lado a lado as nossas mesas, na mesma redação, pude acompanhar-lhe a formação de artista, ao mesmo tempo em que íam, como que insensivelmente, diluindo as tonalidades ásperas do militante, na troca de um por outro campo de atividade".

Ele viu a terra se movendo

     A Lívio Abramo foi permitido além de assistir a tantas transformações, interagir não somente na realidade cultural de seu país como também em outra realidade - a paraguaia. Lívio teve a possibilidade de atuar metade da sua vida ativa no Brasil e a outra metade no Paraguai.

     No Brasil, foi desenhista, jornalista, gravador. Dividiu atelier com Oswaldo Goeldi, no Rio de Janeiro; e em São Paulo, com Marcelo Grassmann e Fayga Ostrower. Com Maria Bonomi, uma de suas alunas, fundou o Estúdio Gravura, onde também lecionava. De acordo com Lélia Abramo, o Estúdio Gravura foi uma de suas mais importantes realizações.

     No final da década de 50, Abramo foi convidado a integrar a Missão Cultural Brasil Paraguai. O artista visitou Assunção pela primeira vez em 1956 e apaixonou-se pela paisagem paraguaia; assumiu, desde então, responsabilidades para com o povo paraguaio, como a de, segundo a artista e arte-educadora paraguaia Olga Blinder, levar para a 6ª Bienal de São Paulo uma exposição de arte hispano-guarani.

     Abramo realizou o levantamento iconográfico da região das Missões, para a Missão Cultural Brasil-Paraguai e participou da Fundação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraguai.

No Paraguai, para todo sempre

     Em 1961, recém-aposentado como redator do jornal o Estado de São Paulo, instala-se definitivamente em Assunção, como responsável pelo setor de arte do Centro de Estudos Brasileiros - CEB, ligado à Embaixada do Brasil e mantido pelo Ministério das Relações Exteriores.

     Naquela cidade Lívio continuou a desenvolver seu trabalho como gravador e desenhista além de lecionar história da arte e gravura na Escola de Arte do CEB.

     Naquele país, foi também responsável pela promoção de intercâmbio cultural entre os dois países - promovia cursos, levava artistas brasileiros para expor em Assunção e trazia artistas paraguaios para expor no Brasil. Além disso, fundou a Escolinha de Arte para Crianças ligada ao Centro de Estudos Brasileiros.

Um cidadão latino-americano

     É possível dizer que o fato de estar em Assunção deu a Lívio uma certa mobilidade dentro do continente. Tornou-se conhecido e respeitado no meio acadêmico e cultural Paraguaio e latino-americano.

     Lívio Abramo, realizou várias mostras no Paraguai e em países da América do Sul - Uruguai (Montevidéu), Bolívia (La Paz), Argentina (Buenos Aires), México (Cidade do México), entre outros.

     Em abril de 1989, a mostra retrospectiva de sua obra, realizada no México, recebeu destaque na primeira página do jornal "Excelsior", e Lívio mereceu ver publicado o desenho em bico de pena e aguada, o retrato de Maria, sua primeira mulher.

Humanista por excelência

     Possuía uma forte e profunda convicção no homem - humanismo – confirmada por suas ações e por suas opções artísticas.

     A identificação com os expressionistas alemães, cujas gravuras o fizeram sentir emoção de ver representadas as "iniludíveis angústias" do homem; foram a "revelação" de que podia levar ao longo de sua vida essa preocupação e exprimir-se dentro dessa tendência estética.

     "Para mim não há nada mais importante que a condição do homem e seu melhoramento (...) Voltar ao expressionismo me parece que é a maneira melhor de falar sobre a realidade humana" , afirmou em entrevista ao jornal O Correio Braziliense, em janeiro de 1992.

     Nos últimos anos, Lívio Abramo continuava sua atividade artística. Com certeza foram poucos os brasileiros que viram os desenhos de suas últimas fases "Homenagem aos Artistas da Pré-História", e "Os Frisos do Partenon". Essa última, uma exceção, foi mostrada na Bienal de São Paulo no final de 1991. Essa série de desenhos expressionistas reflete essa preocupação com a condição humana e seu melhoramento.

Uma São Paulo caótica

     Em visitas à São Paulo, cidade na qual passava sempre suas férias, Lívio Abramo impressionou-se com a luta travada pelos paulistanos para ir trabalhar. Filas de ônibus, atropelamentos e além dessa realidade a daqueles que perderam tudo e são marginalizados pela sociedade.

     Mas apesar dos desenhos refletirem as últimas indagações do artista e a necessidade de conscientização das pessoas, Lívio ateve-se sobre diversos assuntos e deixou registradas em cartas opiniões, impressões, críticas e conselhos no quais transparece o homem/artista/mestre.

     Lívio frequentava, nos dois países onde viveu, exposições, salões, reuniões e debates sobre arte e cultura promovidos por intelectuais e artistas.

     No Brasil, conheceu Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, pela qual nutria enorme admiração e admitiu ter sido influenciado intelectualmente e por sua obra.

     Foi aconselhado, em início de carreira, pelo pintor Lasar Segall. Era amigo de Portinari, Bruno Giorgi, entre outros importantes artistas.

O grande mestre

     Foram muitos os alunos que passaram por ele, no Brasil, Dorothy Bastos, Maria Bonomi, Savério Castelani, Anésia Pacheco Chaves, Ely Bueno, entre muitos outros.

     No Paraguai, para citar alguns nomes da primeira turma, destacaram-se Edith Jiménez, Maria Adela Solano López, Lotte Schulz, Jacinto Rivero, todos gravadores de renome em Assunção e América Latina.

     Abramo foi um homem que não curvou-se diante das dificuldades e, mesmo quando a vida não lhe dava motivos para sorrir, não deixava de acreditar na possibilidade de transformar o mundo.

Ação criadora

     Sobre a grande capacidade de Lívio Abramo, José Neistein, especialista em arte brasileira e Diretor do Centro de Estudos Brasileiros em Washington traduz de forma sintética a ação criadora - a obra e a atividade docente:

     " Lívio Abramo não é apenas, com Oswaldo Goeldi, um dos mestres clássicos da gravura moderna no Brasil - com sua inquietação, sua atividade, sua inovação permanente - ele é um verdadeiro clássico, no real sentido do termo, sempre moderno, meticuloso como o que faz e cheio de vitalidade no seu contentamento."

     "A história de sua carreira é um paralelo estreito com a maioria dos grandes nomes do nosso tempo ou do passado: uma vida cheia de lutas, atravessada por uma visão humana do mundo e um conhecimento profundo dos problemas sociais; uma consciência aguda das exigências técnicas de sua profissão; autodidata no seu aprendizado do essencial e ao mesmo tempo, entretanto, um grande mestre quando ensina e transmite aos outros os segredos do manejo do buril e da goiva; em uma palavra, um criador de arte e de artistas".

Fonte:
Divisão de Cooperação Educacional - DCE
Ministério das Relações Exteriores - MRE
Esplanada dos Ministérios, Bloco H, Anexo I, Sala 432
70170-900 - Brasília - DF
Tel.: (61) 411-6696 / 411-6710
Fax: (61) 322-5671
http://www.cer.mre.gov.br/
E-mail: dce@mre.gov.br


Conheça alguns irmãos de Lívio

Cláudio Abramo (1923-1987)

Lélia Abramo (1914-2004)


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