No último dia 8, o artista
plástico Aldemir Martins completou 80 anos. Hoje, seus amigos no Rio vão festejá-lo,
por conta da reunião que Nilda Araripe vai promover em sua Realidade. Das 18h às 21
horas vai rolar um "Beaujolais amigo" nos salões da galeria, onde estarão
expostas mais de 300 obras do artista, entre óleos, gravuras, desenhos, esculturas em
bronze, cerâmicas e joias. Uma riqueza para comprovar a capacidade criativa de Aldemir
que, do alto de seus oitentões, converva a fibra que sempre foi sua marca.
A fala rápida ("Temos
pressa, não há tempo a perder"), o riso fácil iluminando uma fisionomia em geral
impenetrável (herança do sangue índio de parte da mãe que era do Alto Perús) e a
vitalidade que ainda lhe permite uma longa jornada de trabalho diário, são hoje tão
parte dele como eram ao começar sua carreira e tornar-se um ícone das artes plásticas
com seus cangaceiros, suas paisagens do agreste, seus bichos e flores.
Na verdade, há muito,
Aldemir dissera ao que veio: desde os 11 anos de idade demonstrara que sua vocação era o
desenho que mais tarde - mesmo matriculado no Colégio Militar chegaria a lecionar a um
grupo que lhe fora destinado por um capitão. O pai havia sido figura decisiva para
estimulá-lo na vocação para o caminho artístico. Homem bom, reto, honesto e de
espírito avançado para a sua época, tinha sabido ser amigo e incentivador da
criatividade do filho ainda adolescente.
A história de Aldemir
demonstra que não havia como retorcer seu destino. Com 20 anos, Aldemir fundaria com
Mario Barata o grupo ARTYS e SCAP (Sociedade Cearense dos Artistas Plásticos) ao qual, um
ano mais tarde, iriam juntar-se Barbosa Leite, Antonio Bandeira e outros.
Desde então, Ademir
jogou-se de corpo e alma no mundo da arte. Depois de fazer ilustrações para jornais e
livros e participar de coletivas ou exposições individuais praticamente em todas as
grandes cidades internacionais, de colecionar prêmios (Salão Baiano de Artes Plásticas,
em 1950, Bienal de São Paulo, entre outros esteve em Santiago do Chile, em Veneza, faz
exposições em Tóquio, Genebra, Dallas, Nova York, Lugano, Estocolmo, na inauguração
do Palazo Pamphili em Roma, entre muitas outras exposições individuais. Sem jamais
permitir retrospectivas suas, como se cada vez sua criatividade renascesse ainda que
permanecessem os seus temas recorrentes.
Cidadão do mundo,
reconhecido nos quatro cantos como um dos nomes da arte brasileira, nunca deixou de
sentir-se um homem do Ceará. No Rio, desde 1950, quando a cidade fervilhava nos
"vernissages" de Bandeira, Marcelo Grassman Krajcberg, entre outros grandes
artistas. Ou em São Paulo para onde foi em 1951: "Fui para lá com um terno de
albene cor de rosa, um par de sapatos brancos e dezoito telas debaixo do braço. E lá
fiquei".
Mesmo porque para ele
"São Paulo parece uma Fortaleza bem grande porque lá também se vive na base do
círculo de amigos". Mas sempre com os olhos voltados para sua terra natal onde ainda
quer ser útil em algum projeto, como por exemplo do Museu de Arte Brasileira. Para os que
estranham ainda o fato de não mais usar o tema do cangaceiro, Aldemir explica: "Foi
um retorno à fauna e às flores brasileiras".
Mas sem preocupação de
definições, Aldemir continua com seu jeito de não rotular: "A preocupação de
querer rotular-se parece nascer do desejo de poder polemizar uns com os outros. Quanto a
ele, aos oitenta como aos vinte repete o que sempre disse: "Estou plenamente
convencido de que fui pelo caminho certo. E isso porque não ando na garupa de ninguém.
Como bom cearense, meu cavalo monto-o em pelo".