Aldemir Martins vai
apagar 80 velinhas
.


Valda Menezes              
Tribuna da Imprensa-RJ 
26 de novembro de 2002

     No último dia 8, o artista plástico Aldemir Martins completou 80 anos. Hoje, seus amigos no Rio vão festejá-lo, por conta da reunião que Nilda Araripe vai promover em sua Realidade. Das 18h às 21 horas vai rolar um "Beaujolais amigo" nos salões da galeria, onde estarão expostas mais de 300 obras do artista, entre óleos, gravuras, desenhos, esculturas em bronze, cerâmicas e joias. Uma riqueza para comprovar a capacidade criativa de Aldemir que, do alto de seus oitentões, converva a fibra que sempre foi sua marca.

     A fala rápida ("Temos pressa, não há tempo a perder"), o riso fácil iluminando uma fisionomia em geral impenetrável (herança do sangue índio de parte da mãe que era do Alto Perús) e a vitalidade que ainda lhe permite uma longa jornada de trabalho diário, são hoje tão parte dele como eram ao começar sua carreira e tornar-se um ícone das artes plásticas com seus cangaceiros, suas paisagens do agreste, seus bichos e flores.

     Na verdade, há muito, Aldemir dissera ao que veio: desde os 11 anos de idade demonstrara que sua vocação era o desenho que mais tarde - mesmo matriculado no Colégio Militar chegaria a lecionar a um grupo que lhe fora destinado por um capitão. O pai havia sido figura decisiva para estimulá-lo na vocação para o caminho artístico. Homem bom, reto, honesto e de espírito avançado para a sua época, tinha sabido ser amigo e incentivador da criatividade do filho ainda adolescente.

     A história de Aldemir demonstra que não havia como retorcer seu destino. Com 20 anos, Aldemir fundaria com Mario Barata o grupo ARTYS e SCAP (Sociedade Cearense dos Artistas Plásticos) ao qual, um ano mais tarde, iriam juntar-se Barbosa Leite, Antonio Bandeira e outros.

     Desde então, Ademir jogou-se de corpo e alma no mundo da arte. Depois de fazer ilustrações para jornais e livros e participar de coletivas ou exposições individuais praticamente em todas as grandes cidades internacionais, de colecionar prêmios (Salão Baiano de Artes Plásticas, em 1950, Bienal de São Paulo, entre outros esteve em Santiago do Chile, em Veneza, faz exposições em Tóquio, Genebra, Dallas, Nova York, Lugano, Estocolmo, na inauguração do Palazo Pamphili em Roma, entre muitas outras exposições individuais. Sem jamais permitir retrospectivas suas, como se cada vez sua criatividade renascesse ainda que permanecessem os seus temas recorrentes.

     Cidadão do mundo, reconhecido nos quatro cantos como um dos nomes da arte brasileira, nunca deixou de sentir-se um homem do Ceará. No Rio, desde 1950, quando a cidade fervilhava nos "vernissages" de Bandeira, Marcelo Grassman Krajcberg, entre outros grandes artistas. Ou em São Paulo para onde foi em 1951: "Fui para lá com um terno de albene cor de rosa, um par de sapatos brancos e dezoito telas debaixo do braço. E lá fiquei".

     Mesmo porque para ele "São Paulo parece uma Fortaleza bem grande porque lá também se vive na base do círculo de amigos". Mas sempre com os olhos voltados para sua terra natal onde ainda quer ser útil em algum projeto, como por exemplo do Museu de Arte Brasileira. Para os que estranham ainda o fato de não mais usar o tema do cangaceiro, Aldemir explica: "Foi um retorno à fauna e às flores brasileiras".

     Mas sem preocupação de definições, Aldemir continua com seu jeito de não rotular: "A preocupação de querer rotular-se parece nascer do desejo de poder polemizar uns com os outros. Quanto a ele, aos oitenta como aos vinte repete o que sempre disse: "Estou plenamente convencido de que fui pelo caminho certo. E isso porque não ando na garupa de ninguém. Como bom cearense, meu cavalo monto-o em pelo".


Aos 83, morre Aldemir Martins
.

Informações