foto.jpg (5936 bytes) Alfredo Andersen
1860-1935
 


Engenheiro ou pintor ?

     Alfredo Andersen nasceu em Christianssand, Noruega, no ano de 1860. Veio a falecer em 1935 em Curitiba, Paraná, onde passou a maior parte de sua vida.

     Pertencia à mesma geração do escritor Knut Hamsun (1859-1952, cujo retrato executou, e do pintor Edvard Munch (1863-1944).

     Aos 17 anos, matricula-se na Academia de Belas-Artes de Cristiânia (atualmente Oslo), como aluno de Krohg,vencendo as  resistências do pai, que queria vê-lo engenheiro naval.

     Entre 1879 e 1883, com uma bolsa de estudos, freqüenta a Real Academia de Belas Artes de Copenhague, da qual seria mais tarde professor de Desenho.

     Retornando da Dinamarca em 1883, no ano seguinte realiza sua primeira individual, em Cristiânia. De então, até 1890, continua expondo regularmente, realizando também pequenas viagens ao estrangeiro, sobretudo à França.

Uma volta pelo Novo Mundo

     Mas em começos da década de 1890, obedecendo, quem sabe, à mesma espécie de obsessão que exatamente na mesma época levaria Paul Gauguin ao Taiti, decide empreender longa viagem aos Trópicos, a bordo de um veleiro.

     Nesse percurso, vai ao México, toca em Barbados e chega à costa setentrional brasileira, executando inclusive, em 1892, uma bonita Vista de Cabedelo.

     Em 1893, de novo na Europa, a caminho de casa, sabe que sua cidadezinha fora praticamente destruída por um incêndio.

Conheceu o Paraná e
por ali ficou

     Decide então voltar ao Novo Mundo: embarcando com destino a Buenos Aires num veleiro que transportava ferro e carvão da Inglaterra, atinge Paranaguá, para reparos no barco.

     Por obra do destino, pisa pela primeira vez no Estado do Paraná, que não estava em seu roteiro. Simpatizando com a terra, vai-se deixando ficar no Brasil, primeiro em Paranaguá, e após 1902, em Curitiba.

     É ele quem fala de seus primeiros contatos com a capital paranaense:

     «Tive a agradável surpresa de ser logo procurado por particulares, para os aceitar como alunos. Fundei então a minha escola de desenho e pintura, que ainda funciona. Mais tarde fui instituído professor de Desenho da Escola Alemã e do Colégio Paranaense do Dr. Marins Camargo, sendo, em 1909, convidado pela diretoria da Escola de Artes e Indústrias, então de D. Maria Aguiar de Lima, para assumir a direção das aulas noturnas que a mesma escola criara.

     «A criação de um curso noturno de Desenho foi excelentemente recebida pelo público e em breve se tornou preciso reduzir a matrícula aos profissionais de ofício e indústria, excluindo-se os diletantes. Assim se conservou um total de 60 alunos, todos operários, entre 14 e 30 anos.»

Desenho, a base do
progresso industrial

     Esse aspecto da atuação de Andersen como incentivador de vocações de operários e como pioneiro da boa forma industrial ainda não foi suficientemente enfatizado.

     Na verdade, já em 1917 o pintor escandinavo dizia, na mesma entrevista, estabelecendo uma relação de causa e efeito entre a instrução e o progresso de um país:

     «Pois é isto: o ensino do Desenho, desenvolvendo o sentimento estético e, por conseguinte, o bom gosto, ensina a ver.»

A lição da Alemanha

     E prosegue Andersen:

     «Sabemos que a Alemanha era, há 40 anos, um Estado agricultor e, pelo Desenho, se fez um Estado industrial. Sabe-se também que o seu début na Exposição Industrial de Chicago foi um fiasco. Barato e ruim, assim definiram a Alemanha industrial naquele certame.

     «Ainda nesse tempo pouco remoto a Inglaterra e a França a sobrepujaram, porque, ao ensino do Desenho, nestes dois países, se tinha ligado um interesse especial.

     «A Alemanha compreendeu: estudou os métodos do ensino do Desenho na Inglaterra, onde cada escola empregava um método de conformidade com o entendimento dos seus ilustres professores.

     «Reconheceu até que grau se tinha elevado nas escolas inglesas o ensino do Desenho e fez também as suas pesquisas na França, no Japão e na América do Norte, apercebendo-se então da grandeza sem par desse problema que a sua ânsia de progresso não tinha ainda resolvido e orientado no sentido das artes aplicadas.

     Preparou pois a Alemanha o seu grandioso plano do ensino do Desenho, tendo por objetivo uma educação em harmonia com o indivíduo. Daí nasceram a sua arte e as suas indústrias modernas - quer dizer - o seu imenso progresso nesses dois ramos da conquista humana.»

A primeira mostra no Brasil

     Andersen chega a antever um curso de Desenho para operários, que traria a felicidade ao Paraná, porque faria a grandeza das suas indústrias:

     «Quando chegarmos a ter pelo menos uma simples Escola de Desenho para Operários, sem falar numa Escola de Artes Aplicadas, naturalmente mais dispendiosa, teremos atingido a primeira etapa verdadeiramente real do nosso progresso.

     Pouco após se radicar em Curitiba, Andersen ali realizou uma primeira individual de 18 óleos, sendo quatro retratos, e os restantes, paisagens e figuras. O crítico do Diário da Tarde, em artigo de 20 de março de 1907, observou com acuidade:

     «Na observação da nossa natureza, o ilustre artista norueguês mostra um desenvolvimento notável, mais acentuada energia de colorido, em contraposição dos saudosos tons nevoentos que lhe eram costumados e freqüentes, auros decerto da sua visão escandinava.

      «Da mesma forma, a quente coloração de carnes, sistematicamente rubra, que, parece, trouxera da arte flamenga, se lhe tem modificado, o que naturalmente se havia de dar em um artista de tão séria e meticulosa faculdade de observação.»

     Na mesma exposição quatro alunos de Andersen  mostravam quadros, entre eles Lange de Morretes.

O «Pai da Pintura Paranaense»

     A atividade didática de Andersen, aliás, seria tão fecunda, que o crítico Carlos Rubens na monografia que lhe consagrou, chega a chamá-lo de Pai da Pintura Paranaense, reconhecendo seu papel de elemento aglutinador de tendências e características que, se já antes se tinham manifestado esporadicamente, só agora achavam quem as concatenasse, inclusive do ponto de vista técnico.

     Várias outras exposições realizaria o pintor norueguês, não só em Curitiba (1914, 1920, 1923 e 1930) como no Rio de Janeiro (1918) e em São Paulo (1921), todas com grande sucesso.

     Também participou do Salão de Belas Artes, conquistando menção honrosa no de 1916 e medalha de bronze no de 1933.

Brasileiro, de papel passado

     Apesar de tais vitórias, Andersen continuou levando existência difícil no Brasil, dado o provincianismo cultural então vigente.

     Tendo adotado a cidadania brasileira e no Brasil constituído família, jamais pensou em retornar à pátria, nem mesmo quando, em 1927, o governo da Noruega ofereceu-lhe a direção de uma Escola de Belas Artes.

     Após um ano de permanência na Escandinávia, da qual assim se despedia, Andersen regressou ao Paraná, trazendo na bagagem um punhado de telas da mocidade, inclusive o já mencionado Retrato de Knut Hamsum.

Museu conserva a
alma do pintor

     Cidadão de Curitiba em 1931, Andersen faleceu a 9 de agosto de 1935, em sua residência-ateliê curitibana, mais tarde transformada no Museu Alfredo Andersen.

     O artista praticou todos os gêneros, destacando-se como paisagista, intérprete sensível e pessoal da natureza paranaense, e como pintor de figuras.

     Em sua mocidade, tocado pelo Simbolismo, que lhe motivaria algumas de suas melhores composições, Andersen pouco a pouco deixou sua orientação original, trocando-a por agudo senso de observação e por acentuado amor à realidade.

     Espontâneo e vigoroso no pincelar, colorista sensível, sua obra é um caso único de aclimatação cultural de um artista escandinavo em terra brasileira.

Fonte: CD-Rom «500 Anos da Pintura Brasileira»


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