Anita: solidão e esquecimento
Pergunte a um estudante o que ele sabe a respeito de Anita Malfati. Provavelmente, a resposta não irá além da Exposição de 1917 e do entrevero causado pelo artigo de Monteiro Lobato, publicado no jornal «O Estado de São Paulo». O curioso é que o mesmo se passa entre pessoas que, por participarem mídia ou da cultura, teriam, por dever profissional, de estarem melhor ligadas ao assunto. Anita nasceu em 2 de dezembro de 1889 e faleceu em 6 de novembro de 1964, portanto, com 75 anos incompletos. Ao dar a notícia de seu falecimento, alguns jornais mais apressados publicaram que a pintora morreu «aos 68 anos de idade». Em 1996, o Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, comemorou o centenário do nascimento da pintora. Valeu a lembrança, só que o centenário já acontecera em 1989, mais de seis anos antes. Em 1974, o secretário de Cultura de São Paulo, pessoalmente, mandou um telegrama a Anita, convidando-a a estar presente a uma exposição em que ela seria homenageada. Anita não pode comparecer: já havia morrido há dez anos. Dois fatores contribuíram para que alguns desses deslizes ocorressem. Um, foi o exílio voluntário a que se submeteu a pintora, quando, em companhia de sua irmã, foi morar numa humilde e distante chácara em Diadema, que, naquela época, não passava de uma pequena vila, com meia dúzia de casas, ligada ao município de São Bernardo do Campo por estrada rural. Era um sumidouro, desligado do mundo. Afastada da mídia, deixou de ser notícia, tornando-se apenas uma imagem desvanecida. Outro, foi um trato mantido entre Anita e Tarsila, que consistia em, uma e outra, esconderem a idade, descontando 6 anos das respectivas certidões de nascimento. Mas o maior problema está em que o país é retardatário na divulgação de seus valores por todas as camadas sociais, espalhando cultura junto com a educação.Não é pedir muito, que a cultura seja universalizada, atingindo todos os rincões do país. A cultura geral, com a arte nela incluída, é o retrato de um povo, o seu diferencial, a sua identidade. Enquanto não for devidamente tratada, teremos um povo sem face, desconhecedor de si próprio, dos valores que fazem a amálgama entre os vários segmentos da sociedade, e que a torna um bloco uno e indivisível.
(Texto de Paulo Victorino).
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