Morre o pintor Enrico Bianco, principal assistente de Portinari

Trigal (1980) - Óleo sobre duratex - 20 x 29,5 cm
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Um intelectual e dois artistas
Roma,
1935. Na vasta sala do velho casarão, o som de um piano transmite ao ambiente os acordes
de um noturno de Chopin.
Sentado à mesa, um adolescente, nos seus 17 anos, mantém espalhados lápis coloridos,
tintas e folhas com esboços de desenhos. Algumas pinturas vão tomando forma sobre alguns
deles, inacabadas ainda, mas encaminhadas para a resolução, com a segurança de quem
sabe o que está fazendo.
Ao lado, um senhor de meia idade confere os rascunhos de um texto que terminara há pouco
e que espera colocar no correio antes do fim do dia.
O homem é Francesco Bianco, escritor e correspondente internacional do «Jornal do
Brasil», do Rio de Janeiro. A pianista, sua mulher, é Maria Bianco-Lanzi que, além da
virtuosidade e familiaridade com o teclado, é dotada de uma cultura invulgar.
O moço envolvido com as tintas é o filho dos dois, Enrico Bianco que, desde os seis anos
de idade, incentivado pelos pais, vinha estudando desenho e pintura, tendo arrolados entre
seus mestres alguns nomes conhecidos da arte italiana, como Deoclécio Redig de Campos,
que chegou a diretor do Museu do Vaticano.
Agora, recebia aulas Dante Ricci, outrora professor da família real, não tão famoso,
mas igualmente capaz e severo, passando ao aluno não só as técnicas mas sobretudo um
conceito de rígida disciplina, necessária para quem deseje levar avante qualquer
trabalho artístico.
O pai levanta-se e vai ao correio levar seu trabalho. O moço, que treinava pelo menos
seis horas ao dia, fica imerso em seus afazeres. E o som do piano prossegue, iluminando o
ambiente e inspirando o artista.
Adio,Italia mia
Então,
certa vez, o piano se calou. Silenciou para sempre. A família Bianco vivia naquele
momento seus piores dias. Além da tragédia que se abateu sobre eles, com a dolorosa
perda da esposa e mãe, os problemas se acumulavam, sem perspectiva de solução.
Francesco Bianco fora outrora um deputado pela democracia cristã e, com a ascensão do
fascismo na Itália, caiu em desgraça. O «Jornal do Brasil», vivendo a crise dos anos
30 e sentindo os efeitos do fechamento do regime também no Brasil, após a posse de
Getúlio Vargas, demitiu-o da posição de seu correspondente na Itália.
Com toda sua erudição e bom relacionamento na Itália, Francesco bem que poderia arrumar
novo emprego mas, para trabalhar na imprensa ou em qualquer órgão de comunicação,
precisaria ter a carteira de fascista, que nem ele queria tirar, nem lhe seria dada, por
seus antecedentes políticos.
Havia outra saída possível, que era viajar para o Brasil, onde já estivera em 1920.
Ali, tinha até uma promessa de emprego na Italcable, um serviço telegráfico por cabos
submarinos que concorria com a Western americana. Mas para isso eram necessários os
passaportes e estes lhe foram negados, por ser considerado um inimigo do governo,
indesejável quando perto e incontrolável quando longe.
Avanti tutti
Sentindo as dificuldades emergentes, o médico da família, que era também cardiologista
de Mussolini, propôs-se a buscar uma solução e, durante uma consulta de rotina ao
ditador, arriscou uma frase: «A mulher de Bianco morreu».
«Eu sei», respondeu o Duce. A resposta era fria, mas não inamistosa ou ostensiva. O
médico arriscou outra investida: «Ele quer três passaportes, para ele e as duas
crianças.»
Um novo e prolongado silêncio e, então, Mussolini responde, firmemente: «Pois que
preencha os papéis, que eu autorizo a emissão.»
E foi assim que, no ano de 1937, conduzido pelas forças do destino, Enrico Bianco chegou
ao Rio de Janeiro, acompanhado do pai e da irmã, estabelecendo-se para sempre no Brasil.
Meses após a chegada, teve um encontro que marcou-o pelo resto da vida.

Enrico Bianco, em entrevista à Rede Globo, falando de
Portinari e do painel "
Guerra e Paz", doado à ONU, e que retornou ao Brasil para restauro
A mão do
garimpeiro
Havia seis meses que Bianco estava no Brasil quando o pintor Paulo Rossi lhe sugeriu
visitar uma obra que Portinari estava preparando na sede do Ministério da Educação. Ele
foi, mas só encontrou lá três ajudantes: Burle Marx (1909-1994), Inês e Ruben Cassa
(1905).
Percebendo as dificuldades que os três estavam tendo com a ampliação, em afresco, da
mão de um garimpeiro, pediu que o deixassem tentar e, contando com o assentimento, pintou
sozinho aquele detalhe.
Pouco depois chega Portinari e, com intuição de mestre, percebeu a interferência,
perguntando com irritação: «Quem é que fez aquela mão ali?» Os discípulos apontaram
para Bianco, encolhido a um canto, a quem o mestre, aparentemente, deu pouca ou nenhuma
atenção.
Bianco, se soubesse, nem teria ido lá mas, já que estava, deixou-se ficar, apreciando o
desenvolvimento da obra. Pela hora do almoço, decidiu voltar à casa, despedindo-se de
Portinari, que lhe perguntou, com a energia de sempre: «Mas, aonde vai?» «Vou para
casa», respondeu Bianco.
O mestre estendeu-lhe a mão, com a mesma cara de zangado e lhe perguntou: «Mas amanhã
você volta, não volta?»
Foi assim que, aos poucos, o jovem pintor foi se integrando à equipe de Portinari,
tornando-se, por muitos e muitos anos, um valoroso colaborador.
A «mão do garimpeiro», a primeira intervenção de Bianco na pintura do mestre,
continua lá, onde foi pintada. E a influência de Portinari em Bianco é visível em
muitos de seus quadros. O pintor cresceu, ganhou vida própria, mas nunca se afastou do
estilo que assimilou e aprendeu a respeitar.

Painel do MEC-RIO, em construção. Ao centro, Cândido
Portinari; à direita, Enrico Bianco; à esquerda,
supostamente, os pintores Inês e Ruben Cassa, além de outro não identificado.
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Barrado
no baile
A
aproximação entre Bianco e Portinari, se de um lado só lhe trouxe orgulho e
admiração, de outro, também lhe causou problemas, notoriamente pela aversão de alguns
políticos brasileiros a Portinari, principalmente por sua ideologia e posições
políticas. Conquanto o mestre não fosse um ativista, o simples fato de demonstrar
simpatias ao comunismo o colocava sob a mira macartista e, com ele, todos aqueles que o
seguiam.
Em 1960, o México cuidava da organização de sua 2ª Bienal e, desejando incluir nela
alguns artistas brasileiros, mandou para cá um representante, o qual, entre outros,
convidou Enrico Bianco, encarregado de preparar três quadros especialmente para o evento.
Como o Itamarati prontificou-se a pagar as despesas de viagem, achou-se no direito de
rever a lista de convidados, riscando dela Bianco, sob a alegação de que ele nasceu na
Itália, não representando, pois, a arte brasileira.
Mal deu para esconder a aversão ao pintor. Bianco nasceu na Itália mas fez-se no Brasil
à sombra de um dos maiores mestres brasileiros. Sua temática era toda ela voltada para
nossa terra, nossa gente, nossos costumes. Rubem Braga saiu em sua defesa, em artigo
publicado pela revista «Manchete»:
«Vi os quadros. São melhores do que eu esperava; são bons quadros de pintura moderna em
qualquer parte do país e do mundo, e são os quadros de um pintor formado no Brasil e
sensível às sugestões e ao sentimento da vida brasileira; são, portanto, quadros
excelentemente representativos da pintura brasileira em qualquer mostra internacional. Eu
vi; e os críticos não podem discutir comigo, porque os críticos não viram.»
Não adiantou. Quando o Estado interfere na arte, a arte sempre leva a pior. E o artista
também.
O mais
brasileiro dos italianos
Enrico
Bianco nasceu em Roma em 18 de julho de 1918. Embora italiano, veio para o Brasil ainda na
adolescência, desenvolvendo sua arte em meio à efervescência do modernismo brasileiro,
ativado a partir do Movimento Modernista de 1921 no Rio de Janeiro e ganhando
consistência a partir da Semana da Arte Moderna de 1922 em São Paulo.
Conviveu com grandes mestres brasileiros da pintura, como Cândido Portinari, de quem foi
discípulo, privou da amizade de Burle Max e recebeu rasgados elogios de gente de proa no
mundo artístico, como Antônio Bento e Pietro Maria Bardi.
Por ter escolhido o Brasil como sua segunda pátria, por ter-se fixado aqui para sempre, e
por ter desenvolvido aqui praticamente toda sua obra, com influência inegável de
artistas brasileiros, e tendo, como tema de trabalho, a vida, os costumes e a sociedade
brasileira, Bianco pode ser incluído, com muita propriedade, entre os Pintores do Brasil.
Texto de Paulo Victorino
VEJA
IMAGENS

O mestre e o discípulo: Portinari e
Bianco |
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