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O aluno que aprendeu
mais do que devia
Fazendo renascer os velhos tempos, quando João Jorge Grimm, tal como os pintores de
Barbizon, levava seus alunos para colher imagens no campo, Bustamante Sá também criou
uma escola ao ar-livre, onde ensinava paisagem a principiantes, que nada entendiam de
desenho nem da arte da pintura.
Alguns de seus alunos se desenvolviam com extrema rapidez, outros nem tanto. Um aluno
havia que não conseguia se encontrar com a tela e, com infinita paciência, o professor
lhe tomava o lápis, desenvolvendo o esboço à sua frente.
Depois, como os borrões de tinta que o moço punha sobre a tela mais pareciam pedaços de
goiabada cascão, Bustamante, bem intencionado, lhe tomava o pincel, fazendo acertos e
modificações, na esperança de que no correr do tempo, ele encontrasse seu próprio
caminho.
Um dia, Bustamante Sá foi a um moldureiro encomendar um trabalho e, com surpresa,
encontrou lá, para ser enquadrado em fina moldura, um dos quadros que ajudara o aluno a
pintar.
Só então descobriu a farsa: o aluno, mais esperto do que parecia, levava o professor a
pintar o quadro, quase inteiro, e depois o vendia a colecionadores como sendo um legítimo
Bustamante Sá.
Desde esse
momento, e para sempre, o pintor jamais voltou a colocar sua mão nos trabalhos de
qualquer aluno.
Preparando o caminho
Rubem Fortes Bustamante Sá nasceu no Rio de Janeiro em 1907 e faleceu na mesma cidade em
1988.
Estudou na Escola Nacional de Belas-Artes como aluno de Rodolfo Amoedo e Rodolfo
Chambelland e foi, em 1931, um dos fundadores do Núcleo Bernardelli.
Desde 1928 passou a expor no Salão Nacional de Belas- Artes, no qual conquistou seguidas
marcas, como:
menção honrosa
(1933);
medalha de bronze
(1934);
medalha de prata
(1936);
prêmio de viagem ao
país (1938);
prêmio de viagem ao
estrangeiro (1949).
Participou ainda com destaque de diversas outras mostras coletivas no Rio de Janeiro, em
São Paulo, na Bahia e no Rio Grande do Sul, sempre obtendo premiações.
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Um
reconhecimento que
tarda, mas chega
De 1950 a 1952 esteve na Europa, aperfeiçoando-se, então, na Academia Julian, de Paris,
sob a orientação de André Planson.
Ao retornar de viagem realizou uma individual no Salão Assírio, do Rio de Janeiro
(1952), passando também a se dedicar ao magistério, na Escola Fluminense de Belas-Artes,
na Associação Brasileira de Desenho e no Instituto Nacional de Educação de Surdos.
Somente em 1977 realizaria nova individual, após 25 anos em que sua arte esteve
marginalizada. Desde então, sucederam-se as exposições, que contribuíram para
transformá-lo em pintor de renome.
Ao mestre, com
carinho
Rubem Fortes Bustamante Sá formou o trinômio da pintura carioca ao lado de seus
companheiros de ateliê, José Pancetti e Sílvio Pinto, constituindo-se eles os grandes
nomes da pintura no Rio de Janeiro.
Tamanha era a
aproximação dos três artistas que, em alguns momentos, o estilo de um chegava a
confundir-se com o dos outros dois, como se a obra tivesse sido executada a seis mãos.
Virtuoses sem par, cada
um deles deu uma contribuição diferente à arte no Rio de Janeiro. A de Bustamante Sá,
muito além da própria pintura, se eternizou pela sua vocação manifesta ao ensino,
levando pela mão jovens principiantes, às vezes nem de grande talento, incentivando-os a
persistirem no aprendizado do desenho e da pintura.
Participante do Núcleo
Bernardelli, permaneceu nele por vários anos, depois que seus fundadores, cada um por seu
próprio motivo, se afastaram. A ele se deve o prolongamento do núcleo até a década de
40, contribuindo para a formação de muitos artistas.
Paralelamente,
desenvolvia outras atividades de ensino e ainda lhe sobrava tempo para manter uma escola
de pintura paisagística ao ar-livre, responsável também pela formação de vários
artistas.
Pintores há muitos, mas
mestres são poucos, constituindo-se em pérolas de grande valor. Bustamante Sá se insere
entre os grandes mestres e esta dedicação, mais que sua pintura, torna seu nome
importante entre os grandes artistas que habitaram a cidade maravilhosa. (Texto de Paulo
Victorino)
Fontes: CD-Rom
«500 Anos de Pintura Brasileira»; «A Pintura de Bustamante Sá», de Quirino
Campofiorito.
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