O
problema
Estamos em fins de 1928. Um jovem aparentando vinte anos entra timidamente no gabinete de
Graça Aranha, 60 anos, escritor já consagrado e membro da Academia Brasileira de Letras.
É o encontro de dois extremos. Um, já conseguira da vida tudo o que ambicionava. O
outro, mal começando sua carreira, encontrava pelo caminho todos os embaraços e
dificuldades.
O jovem explica a Graça Aranha seu problema. Revoltara-se com o reacionarismo da Escola
Nacional de Belas Artes, que mantinha seus alunos presos em uma camisa de força,
impedindo-os de experimentar outros caminhos que não os da arte tradicional.
Rompera, pois, com a escola, da qual demitiu-se. De temperamento agitado e com um mundo de
idéias girando sobre sua cabeça, tinha reunido uma série de trabalhos em aquarela e
óleo, os quais pretendia expor, mas encontrava todas as portas fechadas, num país ainda
refratário à arte moderna.
O
amigo certo
O jovem a que nos referimos era Cícero Dias, e não foi por acaso que, entre tantas
outras pessoas de prestígio no Rio de Janeiro, ele escolhera justamente Graça Aranha
(1868-1931) como seu patrocinador.
Em 1922, o escritor aderiu abertamente à Semana da Arte Moderna, criando uma cisão na
quase monolítica Academia Brasileira de Letras e gerando nela uma polêmica como há
muito tempo não se via.
Dois grupos de imortais se engalfinhavam, um deles liderado por Graça Aranha, que
pretendia romper com o passado. O outro, mais sedimentado na velha estrutura, tinha como
seu líder o escritor Coelho Neto (1864-1934). Os dois nordestinos, os dois maranhenses,
os dois com uma força tremenda junto a seus pares. Eram conterrâneos ilustres, que agora
não se entendiam, e que pretendiam levar suas posições até as últimas consequências.
Então, numa histórica sessão da Academia, no ano de 1924, deu-se o confronto fatal.
Após discursos inflamados e uma discussão áspera entre ambos, diante de uma plateia
numerosa, um grupo de jovens carregou Coelho Neto nas costas, enquanto outro grupo fazia o
mesmo com Graça Aranha.
A
primeira vez, foi num hospício
E eis como as coisas se passaram. Graça Aranha deu ao jovem uma carta de apresentação
ao oftalmologista dr. Moura Brasil (1846-1928), que tinha um espaço livre, pertencente à
Policlínica, bem em frente à Galeria Cruzeiro.
Mas Moura Brasil não foi encontrado e uma nova carta foi feita, desta vez endereçada ao
Dr. Juliano Moreira, que ficou encantado com o desenho que lhe foi mostrado e, então,
ofereceu uma solução um pouco fora dos padrões convencionais.
Explicou que, estava sendo realizado um congresso internacional nas dependências do
hospício e, se o jovem estivesse com todo material pronto, ele daria autorização para
expor naquele local.
Foi assim que, de maneira inesperada, a primeira individual modernista de Cícero Dias
deu-se dentro de um hospício, e as reações que se seguiram foram o que se pode chamar
de «coisa de louco».
Como acontecera com Graça na Academia, assim estava ocorrendo com Cícero, no hospital.
Tradicionalistas revoltados protestavam contra a exposição, enquanto médicos europeus
que participavam do Congresso o elogiavam e estimulavam a prosseguir.
De tudo, foi possível apurar um saldo positivo. Primeiro, o escândalo trouxe
divulgação e chamou atenção para a obra de Cícero Dias, ainda incipiente. Segundo,
como nem todo mundo era contra, até que ele conseguiu vender alguns quadros.
«O
povo não estranha»
Cícero Dias nasceu no Engenho Jundiá, município de Escada, a 50 quilômetros de Recife
(PE), em 5 de março de 1907 e, bem cedo, mudou-se para o Rio de Janeiro.
Matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes, apresentou-se desde o início com um
temperamento irrequieto e inconstante. Começou estudando escultura e, em pouco tempo,
desistia dessa opção, trocando-a pela pintura, em cujo estudo também não permaneceu
por muito tempo.
Seu grande interesse era experimentar novas tendências, ideia que o colocou em choque com
a orientação severa da Academia. Pedindo, pois, seu desligamento, a partir de 1928
passou a estudar por conta própria e, nesse mesmo ano, realizou sua primeira individual,
nas circunstâncias que já apontamos acima.
Em 1929, voltou à sua terra, fazendo uma exposição em Recife, onde causou o mesmo
escândalo registrado no Rio de Janeiro. Formou, então, o conceito de que o problema
estava nos grandes centros, que cultivavam preconceitos e, assim, tinham dificuldade em
aceitar ou, pelo menos, testar novas propostas.
Para comprovar essa sua tese, realizou mais três exposições, desta vez no interior de
Pernambuco, onde sua pintura foi aceita com mais facilidade.
«O povo não estranha,» concluiu ele, «quem estranha é o mal instruído, o burguês,
mas o povo não.»
Livre
como um grafiteiro
Desvinculado
do ensino acadêmico, sua arte ganhou maior liberdade de expressão, aparentemente sem o
fino trato que os pintores ortodoxos, em geral, dispensam aos seus quadros.
As pinturas de Cícero, no dizer de um crítico, eram formadas por «imagens soltas e mal
construídas (...) através de uma linguagem como a dos primitivos, ou a das crianças».
Com o início da 2ª República (1930-1945), o arquiteto Lúcio Costa (1902-1999) assume a
direção da Escola Nacional de Belas Artes e inicia um processo de renovação, não
aceito por outros professores, que lhe criaram uma série de embaraços, resultando em sua
demissão pouco tempo depois.
Mas, ao menos naquele ano de 1931, Lúcio Costa era diretor e abriu as inscrições para o
Salão anual, liberando-o a todas as tendências de arte, e não apenas a acadêmica.
Cícero Dias aproveitou a oportunidade e não deixou por menos. Preparou uma tela com mais
de vinte metros de comprimento e, tal como fazem os grafiteiros de hoje, pintou nela tudo
que lhe ia pela imaginação, de cenas comuns, infantis, até cenas eróticas.
Não é preciso dizer que o escândalo se repetiu, desta vez, com danos materiais, pois o
grande painel foi destruído em vários pontos, obrigando-o a fazer o restauro. Expurgadas
as cenas mais fortes, o painel ainda ficou com 17 metros de comprimento.
Um
cidadão do mundo
Havendo experimentado, em 1930, o «gostinho de Paris», quando lá esteve aproveitando
uma bolsa de estudos, seus planos eram de mudar-se definitivamente para a Europa.
Em 1937 essa ideia foi reavivada, quando a situação brasileira se deteriorou com a
implantação do Estado Novo, por Getúlio Vargas. Protestando contra essa violência,
viajou a Paris e, pouco depois, conseguiu empregar-se nos escritórios diplomáticos do
Itamarati.
Foi uma oportunidade de matar dois coelhos com uma só cajadada. Ao mesmo tempo em que
resolvia seus problemas financeiros, encontrava também maior facilidade para estabelecer
contato com os modernistas, tomando conhecimento daquilo que melhor se fazia de novo pela
Europa, na vanguarda da arte.
Não durou muito. Em 1940, com o agravamento da Segunda Guerra Mundial, tornou-se
prisioneiro e, assim que conseguiu sua libertação, tratou de viajar para Portugal, onde
ficou até o fim do conflito.
Voltando à França, em 1945, participou do Groupe Espace, que acabava de ser fundado por
um grupo de pintores adeptos do abstracionismo, com o apoio da Galeria Denise René.
Desde então, fixou residência na França, com frequentes viagens ao Brasil e a Portugal,
sem contar contatos com outros países onde seus quadros eram levados para
participar de exposições.
Um
artista amadurecido
Se
a viagem de 1930 lhe proporcionou um primeiro contato com a arte europeia, sua segunda
estada, a partir de 1937, deu-lhe tempo para a consolidação de tendências.
O pintor dos anos 40 ia, aos poucos, se desvinculando da imagem desleixada ou da pintura
tida como infantil. Desde então, fixou-se cuidadosamente no apuro dos traços, da cor,
deixando de ser o pintor caboclo, voltado para os temas regionais e para a pintura
popular.
Surge, então a nova e mais importante de Cícero Dias, que o consagrou
internacionalmente. Foi convidado a participar de exposições em centros importantes de
arte, como na Itália, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Bélgica e outros.
Não deixou de registrar sua presença, também, em todos eventos importantes na França,
em Portugal, e no Brasil, aqui, particularmente no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e
Recife.
Os tempos passaram, as ideias foram se amoldando à evolução artística e sua pintura
passou a ser recebida com entusiasmo nos mesmos centros que, outrora, o espezinharam.
É o preço a ser pago pelos precursores. Alguns morreram antes de ver a mudança. Outros,
como Cícero Dias, tiveram a felicidade de viver por longos anos, o suficiente para colher
os frutos de seu trabalho pioneiro.
Texto
de Paulo Victorino
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