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Folha Online 28/01/2003 - 15h52
O artista plástico pernambucano Cícero Dias morreu hoje
de manhã, aos 95 anos, em sua casa em Paris, de falência múltipla dos órgãos.
Ele estava acompanhado da mulher, a francesa Raymonde, e da
filha, Sylvia. O pintor teve anemia há cerca de um mês e recebia cuidados médicos em
casa. O enterro será na segunda-feira, no cemitério de Montparnasse, na capital
francesa.
O artista é considerado um dos maiores nomes do modernismo
brasileiro. Ele nasceu em 5 de março de 1907 na pequena cidade de Escada, no interior de
Pernambuco.
Em 1920, aos 13 anos, Cícero se mudou para o Rio de Janeiro. Foi
interno no mosteiro de São Bento. Entre 1925 e 1927, teve seu primeiro contato com os
modernistas.
Em 1928, realizou sua primeira exposição, em que expôs o
célebre painel "Eu vi o Mundo", de 15 metros de largura. Em 1931, abriu uma
exposição no Salão de Belas Artes.
No ano de 1937, foi para Paris. Um anos depois, Dias realizou
suas primeiras exposições na cidade. Nessa época, em busca de novos rumos para seu
trabalho, entrou em contato com as obras dos artistas da Escola de Paris.
O encontro causou um impacto muito grande, o que pode ser
percebido nos seus quadros do início dos anos 40, entre eles "Mulher na Praia"
e "Mulher Sentada com Espelho". Há claramente uma inspiração nas obras de
Pablo Picasso.
Em 1945, ingressou no grupo Espace. No ano seguinte, mostrou seus
trabalhos na mostra na Exposition Internationale d'Art Moderne, no Museu de Arte Moderna
de Paris.
No início dos anos 60, o artista pintou diversas telas com
retratos de mulheres.
Em 2000 inaugurou uma praça projetada por ele mesmo em Recife.
Em fevereiro do ano passado, Dias esteve na capital pernambucana
para o lançamento de um livro sobre sua trajetória artística e fez uma exposição na
galeria Portal, em São Paulo.
Morre
Cícero Dias,
o último modernista
Folha de São Paulo - 29/01/2003
CASSIANO ELEK MACHADO
DA REPORTAGEM LOCAL
O modernismo brasileiro chegou ao
ponto final. Morreu ontem em Paris, aos 95 anos, de falência múltipla dos órgãos, o
artista Cícero Dias, último dos grandes nomes da vanguarda tupiniquim.
Filho da cidade pernambucana de Jundiá, o pintor e
desenhista foi-se com leveza, com a mesma leveza que ajudou a injetar nas artes
brasileiras ainda na década de 20, quando fazia aquarelas em que tudo, de pessoas a
animais, flutuava livremente no ar.
Lúcido e saudável até o final, o artista começou a se
sentir fraco apenas no início deste mês. Passou os últimos dias em seu apartamento,
próximo à torre Eiffel, com a mulher, a francesa Raymonde, com quem era casado desde
1943. O casamento simbolizou a adoção definitiva de Dias pela França, para onde foi em
1937, a convite de Di Cavalcanti, fugindo do Estado Novo.
Dias não demorou a se amigar com toda a "intelligentsia" que circulava pelo
bairro boêmio de Montparnasse, em cujo cemitério deve ser enterrado neste sábado.
Lá, ao lado de túmulos como o do libertário Samuel
Beckett, ficarão alguns dos traços mais líricos e livres da arte brasileira, elogiados
por um time que vai de Mário de Andrade a Picasso, padrinho de sua única filha, Sylvia.
Morre em Paris o
pintor Cícero Dias
O Estado de São Paulo - 29/01/2003
São Paulo - O
artista pernambucano Cícero Dias morreu hoje, em Paris, cidade onde morava desde 1937.
Como informou o galerista e amigo da família do artista, Waldir Simões de Assis Filho,
Cícero morreu em casa, seu endereço há 40 anos, na Rue Long Champ, às 9 horas
(horário de Brasília), sem nenhuma causa específica. Cícero Dias será enterrado na
segunda-feira, no cemitério de Montparnasse, após missa de corpo presente na igreja de
Notre Dame de Grace de Tassy, às 10h30. Estava para completar 96 anos no dia 5 de março.
"Ele morreu tranqüilo e lúcido. Estava com sua mulher Raymonde, a filha e
também pintora Sylvia e seus dois netos", disse Waldir Simões, responsável, com o
jornalista Mário Hélio Lima, pelo livro Cícero Dias - Uma Vida pela Pintura,
lançado no ano passado aqui no Brasil, no Recife, em evento que contou com a presença do
próprio Cícero Dias.
O pintor nasceu em 1907, no Engenho Jundya, município de Escada, a 53 quilômetros do
Recife. Já aos 13 anos foi para o Rio de Janeiro, onde faria seus estudos. Lá teve
contato com os modernistas e, em 1928, aos 21 anos, realizou sua primeira exposição, na
verdade em uma mostra paralela ao 1º Congresso de Psicanálise da América Latina.
Os traços surrealistas de suas obras, então na maioria desenhos e aquarelas, já se
faziam presentes e o artista chegou a ser considerado pelo escritor pré-modernista Graça
Aranha como o primeiro manifestante do surrealismo no Brasil. Sua primeira exposição
teve o apoio de amigos como Di Cavalcanti e Murilo Mendes.
Foi na década de 20 que Cícero criou o famoso painel Eu Vi o Mundo... Ele
Começava no Recife, que tanto impressionou os modernistas. Em 1932, voltou a seu
Estado natal e, em 1937, mudou-se para a França, realizando lá, no ano seguinte, suas
primeiras exposições. Em Paris, freqüentou o ateliê de Pablo Picasso e acompanhou de
perto a finalização de Guernica - Picasso foi até mesmo padrinho de sua filha.
Também teve como amigos André Breton e Paul Éluard. Entre outras histórias dessa
época, há o episódio em que Dias ficou preso na Alemanha com o escritor Guimarães
Rosa, que estava concluindo o livro de contos Sagarana.
A partir da década de 40, Cícero começou a trabalhar a abstração, mas o rigor
formal foi se diluindo na década seguinte. Nos anos 60, o artista voltou a pintar as
figuras femininas e, a partir dessa época, sua obra se tornou uma mistura de flores,
paisagens e personagens, entre tantos outros elementos.
Cícero Dias é enterrado
em Paris
Folha de S. Paulo
4 de fevereiro de 2003
ALCINO LEITE NETO
DE PARIS
O pintor brasileiro Cícero
Dias foi enterrado ontem em Paris, no cemitério de Montparnasse, um dos mais célebres da
capital francesa. Seu túmulo fica na nona divisão, a mesma em que foi sepultado o
cineasta Maurice Pialat, morto no dia 11 de janeiro. Nesse cemitério estão enterrados
ainda Baudelaire, Man Ray, Brancusi, Cortázar, Sartre, Beckett e Cioran.
Cerca de 40 pessoas acompanharam o sepultamento, às 12h, ao lado
da viúva do artista, a francesa Raymonde, de sua única filha, Sylvia,
e de outros familiares. O embaixador e pintor Sérgio Telles homenageou
Dias em um breve discurso.
"Você já disse tudo na sua obra e no seu amor pela vida", afirmou, em
francês.
O caixão de madeira clara tinha uma placa dourada com o nome do
artista e os anos de seu nascimento (1907) e morte.
Chovia em
Paris, cidade onde o pintor vivia desde 1937. Cícero Dias morreu no último dia 28, aos
95 anos, vítima de falência múltipla de órgãos.
Um número maior de pessoas, cerca de 80, compareceu à
cerimônia religiosa, às 10h30, na discreta igreja Notre Dame de Grâce de Passy, de
vitrais com desenhos geométricos, colunas brancas e um tríptico de estilo neoclássico
dominado no centro por uma representação da Anunciação.
Antes do caixão, o cerimonial fez entrar na igreja uma almofada
de veludo roxo que exibia três medalhas recebidas por Dias dos governos da França e do
Brasil. Na entrada, duas listas de presença indicavam um maior número de franceses que
de brasileiros.
Sylvia Dias subiu duas vezes ao altar -uma delas
para ler uma passagem do "Apocalipse", de São João, outra para ler uma
homenagem ao pai, que lembrou passagens de sua biografia, citou sua obra mais célebre,
"Eu Vi o Mundo... Ele Começava em Recife", e frases do artista: "O céu de
Recife é o mais alto do mundo".
O artista plástico Juarez Machado estava entre
os que foram se despedir de Cícero Dias. "Ele era um grande amigo e meu ídolo. Era
um homem exuberante e de grande cultura.
Quando cheguei a Paris, há 16
anos, ele me recebeu e me adotou", disse Juarez Machado, que vive
ainda na capital francesa.
"Seu caminho foi o da arte. A beleza libertará o mundo.
Beleza que vem de Deus e retorna a Deus", disse o padre celebrante, Fabrice Varangot,
que cantou as várias músicas do culto, acompanhado por um órgão. A cerimônia
religiosa durou uma hora.
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