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Uma velha lenda de redação, quase tão antiga quanto Guttemberg,
conta que jornalista não tira férias porque, quando volta, encontra outro sentado em sua
cadeira. Pior é quando você volta e encontra, sobre sua mesa, um punhado de amigos
mortos.
Fosse eu presidente do
Brasil, lhe teria dado a Ordem do Cruzeiro do Sul. Presidente da França, a Legião de
Honra. Presidente da Europa, a maior condecoração européia. Cícero Dias foi o maior
dos euro-franco-brasileiros.
Recebeu da imprensa, na
semana passada, as homenagens a que tinha direito, por sua morte, em Paris, em 28 de
janeiro, às vésperas de completar 96 anos em 5 de março. "Foi o pintor do
verde", disse Hugo Sukman. "Grande pintor modernista, para muitos o mais
importante que o modernismo brasileiro produziu". "Nunca deixou de ser
jovem", escreveu Wilson Coutinho.
Mais do que isso. Foi um
retrato de Nação. Durante 66 anos, um pedaço de Brasil em Paris. O Brasil de Cícero
Dias não era uma mancha no mapa. Era uma paixão escorrendo no sangue, nos olhos e nas
tintas.
Um país chadado Cícero
Muito se disse dele. Quero
dar meu depoimento de uma lição diária, nestes tempos de idiotas desnacionalizados e
apátridas desnaturalizados. Quando era adido cultural em Paris, fascinava-me sua
ligação emocional, visceral, telúrica com sua Pátria, seu povo, nossa política, nossa
vida.
Aquele homem vivido e
famoso, querido e aplaudido, glorificado em livros e filmes, pendurado nos museus do
mundo, saía todas as manhãs de seu apartamento na Rue de Longchamp, 123, mesmo já perto
dos 90 anos, e ia a pé à embaixada do Brasil e à Unesco pegar a sinopse dos jornais
brasileiros, pois não se contentava em esperar os jornais que chegariam nos dias
seguintes.
Cada fato, cada notícia,
era uma alegria ou uma dor no velho coração calejado daquele homem que teve a ventura de
viver o século como poucos. Imaginem minha emoção ao entrar pela primeira vez na casa
daquele mito simpático, sorridente, cordial, coberto de prêmios, histórias e glórias,
e ele ir à estante e pegar um livro meu, lido, anotado, guardado, sobre as 16 derrotas da
ditadura militar nas eleições de 74.
Para ele, o Brasil era um país chamado Cícero.
O Brasil em Paris
Não vou, porque já foi
feito e não haveria espaço, falar mais de sua longa e múltipla vida. Menino de engenho
em Pernambuco no começo do século, estudante de arquitetura no Rio, contemporâneo de
Lucio Costa, Niemeyer, Ismael Nery, Portinari, Guignard, Di Cavalcanti, Mario de Andrade,
Manuel Bandeira, Murilo Mendes, primeira "exposição surrealista" em 27, aos 20
anos, prêmio Graça Aranha em 30, aos 23, ilustrou a primeira edição de "Casa
Grande e Senzala", de Gilberto Freire, em 33, resistiu bravamente à ditadura de
Vargas e se exilou na Europa a partir do golpe de 37.
E nunca mais voltou. Entrou
para o grupo das mais avançadas artes que se faziam então na Europa: Picasso, padrinho
da filha Silvia (de sua sempre e doce Raymonde), Breton, Artaud, Narville, Cendrars,
Aragon, Paul Eluard.
Preso pelos nazistas na
invasão da França, em 41, confinado com outros brasileiros, inclusive Guimarães Rosa,
em Baden-Baden, na Alemanha, e solto numa negociação brasileira em troca de 42 alemães
presos no Brasil, saiu da cadeia e recebeu da Resistência Francesa a missão de, a partir
de Lisboa, fazer chegar às mãos do general De Gaulle, em Londres, o histórico poema
"Liberté", de Paul Eluard ("Liberdade, Liberdade, te amo escrita nas
paredes"...), que o mundo recitou com os olhos molhados de encanto e ódio.
O Rio, na velha Alfândega,
tem sua bela "Casa França-Brasil". É a segunda. A primeira sempre se chamou
Cícero Dias, em Paris.
Uma carta
Releio, agora, uma ágil e
carinhosa carta dele, de pouco tempo atrás (deve ter sido uma das últimas que escreveu),
escrita a mão, com sua límpida letra de pintor, sobre uma coluna, aqui, falando dele, e
que lhe mandei:
"Sem data. Meu querido Sebastião, não respondi logo sua
carta e os generosos termos de seu artigo, porque estava ausente de Paris. No tempo em que
seu excelente e generoso artigo aquecia-me a alma, o termômetro marcava menos dez (-10).
Dentro, bem quente. Por fora, um frio danado.
Você sabia que eu andava um pouco pelo mar Mediterrâneo. Do lado de cá, isto é,
Europa, muito defloramento, uma nova arma de guerra, sexualmente empregada e vitoriosa, o
que irrita a virtuosa Simone Weill.
O nosso embaixador anda por Brasília. Ando à espera da exposição de Matisse. Este
monstro, barrigudo como uma pipa, é um dos legítimos responsáveis da pintura moderna.
Bastante idoso, grimpava seis andares aqui em Paris. Grande Matisse!
Nosso afeto sincero e o abraço de seu velho amigo
Cícero Dias".
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