Sebastião Nery relembra
Cícero Dias

(Tribuna da Imprensa-RJ
04.02.2003)

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     Uma velha lenda de redação, quase tão antiga quanto Guttemberg, conta que jornalista não tira férias porque, quando volta, encontra outro sentado em sua cadeira. Pior é quando você volta e encontra, sobre sua mesa, um punhado de amigos mortos.

     Fosse eu presidente do Brasil, lhe teria dado a Ordem do Cruzeiro do Sul. Presidente da França, a Legião de Honra. Presidente da Europa, a maior condecoração européia. Cícero Dias foi o maior dos euro-franco-brasileiros.

     Recebeu da imprensa, na semana passada, as homenagens a que tinha direito, por sua morte, em Paris, em 28 de janeiro, às vésperas de completar 96 anos em 5 de março. "Foi o pintor do verde", disse Hugo Sukman. "Grande pintor modernista, para muitos o mais importante que o modernismo brasileiro produziu". "Nunca deixou de ser jovem", escreveu Wilson Coutinho.

     Mais do que isso. Foi um retrato de Nação. Durante 66 anos, um pedaço de Brasil em Paris. O Brasil de Cícero Dias não era uma mancha no mapa. Era uma paixão escorrendo no sangue, nos olhos e nas tintas.

Um país chadado Cícero

     Muito se disse dele. Quero dar meu depoimento de uma lição diária, nestes tempos de idiotas desnacionalizados e apátridas desnaturalizados. Quando era adido cultural em Paris, fascinava-me sua ligação emocional, visceral, telúrica com sua Pátria, seu povo, nossa política, nossa vida.

     Aquele homem vivido e famoso, querido e aplaudido, glorificado em livros e filmes, pendurado nos museus do mundo, saía todas as manhãs de seu apartamento na Rue de Longchamp, 123, mesmo já perto dos 90 anos, e ia a pé à embaixada do Brasil e à Unesco pegar a sinopse dos jornais brasileiros, pois não se contentava em esperar os jornais que chegariam nos dias seguintes.

     Cada fato, cada notícia, era uma alegria ou uma dor no velho coração calejado daquele homem que teve a ventura de viver o século como poucos. Imaginem minha emoção ao entrar pela primeira vez na casa daquele mito simpático, sorridente, cordial, coberto de prêmios, histórias e glórias, e ele ir à estante e pegar um livro meu, lido, anotado, guardado, sobre as 16 derrotas da ditadura militar nas eleições de 74.
Para ele, o Brasil era um país chamado Cícero.

O Brasil em Paris

     Não vou, porque já foi feito e não haveria espaço, falar mais de sua longa e múltipla vida. Menino de engenho em Pernambuco no começo do século, estudante de arquitetura no Rio, contemporâneo de Lucio Costa, Niemeyer, Ismael Nery, Portinari, Guignard, Di Cavalcanti, Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, primeira "exposição surrealista" em 27, aos 20 anos, prêmio Graça Aranha em 30, aos 23, ilustrou a primeira edição de "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freire, em 33, resistiu bravamente à ditadura de Vargas e se exilou na Europa a partir do golpe de 37.

     E nunca mais voltou. Entrou para o grupo das mais avançadas artes que se faziam então na Europa: Picasso, padrinho da filha Silvia (de sua sempre e doce Raymonde), Breton, Artaud, Narville, Cendrars, Aragon, Paul Eluard.

     Preso pelos nazistas na invasão da França, em 41, confinado com outros brasileiros, inclusive Guimarães Rosa, em Baden-Baden, na Alemanha, e solto numa negociação brasileira em troca de 42 alemães presos no Brasil, saiu da cadeia e recebeu da Resistência Francesa a missão de, a partir de Lisboa, fazer chegar às mãos do general De Gaulle, em Londres, o histórico poema "Liberté", de Paul Eluard ("Liberdade, Liberdade, te amo escrita nas paredes"...), que o mundo recitou com os olhos molhados de encanto e ódio.

     O Rio, na velha Alfândega, tem sua bela "Casa França-Brasil". É a segunda. A primeira sempre se chamou Cícero Dias, em Paris.

Uma carta

     Releio, agora, uma ágil e carinhosa carta dele, de pouco tempo atrás (deve ter sido uma das últimas que escreveu), escrita a mão, com sua límpida letra de pintor, sobre uma coluna, aqui, falando dele, e que lhe mandei:


     "Sem data. Meu querido Sebastião, não respondi logo sua carta e os generosos termos de seu artigo, porque estava ausente de Paris. No tempo em que seu excelente e generoso artigo aquecia-me a alma, o termômetro marcava menos dez (-10). Dentro, bem quente. Por fora, um frio danado.

     Você sabia que eu andava um pouco pelo mar Mediterrâneo. Do lado de cá, isto é, Europa, muito defloramento, uma nova arma de guerra, sexualmente empregada e vitoriosa, o que irrita a virtuosa Simone Weill.

     O nosso embaixador anda por Brasília. Ando à espera da exposição de Matisse. Este monstro, barrigudo como uma pipa, é um dos legítimos responsáveis da pintura moderna. Bastante idoso, grimpava seis andares aqui em Paris. Grande Matisse!

     Nosso afeto sincero e o abraço de seu velho amigo

Cícero Dias".


- Estadão: O painel que escandalizou o Rio
- JB: Paris não será a mesma sem ele
- O último dos moicanos

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