Foi, dentre todos os
artistas franceses aquele que melhores e mais assinalados serviços prestou ao ensino da
pintura, não só pelo grau de operosidade de que era dotado, como ainda porque, tendo
sabido vencer os obstáculos por que passara e calcar os dissabores que sofrera, lhe foi
dado aqui permanecer mais tempo que qualquer outro e formar discípulos continuadores de
sua obra.
Contra a ação de Henrique
Silva, soube opor muita energia e autoridade, nunca tendo desanimado nas lutas em proveito
do ensino, de que se tornara verdadeiro apóstolo.
Quando, como regente, subiu
D. Pedro ao governo, Debret lhe pedira, no que foi atendido, lhe concedesse um dos
ateliês do edifício da academia, construído desde 1816, para nele executar uma grande
tela, que representasse a solenidade da coroação imperial.
Devido à oposição de
Henrique, só no segundo semestre de 1823 é que lhe foram entregues as chaves do ateliê.
Aí reuniu o mestre os seus primeiros discípulos, em número de oito, e atrás já
referidos, aos quais lecionou pintura sem o menor ônus para o Estado.
No ano seguinte, o
imperador e seus ministros lhe visitaram o ateliê, de onde sairam bem impressionados com
o desenvolvimento dos alunos. Tão grande foi essa impressão, afirmam os historiadores,
que D. Pedro resolvera, desde então, instalar a Academia, o que só pôde realizar em
1826.
Comemorando a inauguração
dos cursos, realizou Debret a primeira exposição dos trabalhos dos seus discípulos, na
qual figuraram os seguintes gêneros: paisagens, marinhas, animais, flores e frutos. Foi
grande o sucesso da exposição, tendo sido o seu organizador e principal autor
condecorado com o oficialato da Ordem de Cristo.
Em conseqüência ainda da
boa impressão de ela causou, o ministro S. Leopoldo, embora contrariando disposições do
próprio regulamento, dispensou o aluno Araújo Porto-alegre da exigência de curso
preparatório de desenho, tornando extensiva a vários alunos essa concessão. Desde
então, o ensino de pintura se desenvolveu notavelmente, como se pôde verificar nas
exposições realizadas em 1829 e 1830.
Natural de Paris, nasceu
Debret a 18 de abril de 1768 e faleceu a 28 de julho de 1848. Estudou na Academia de Belas
Artes, tendo sido discípulo de Luís Davi, passando depois para a Escola de Pontes e
Calçadas, de onde se transferiu para a Escola Politécnica, tudo na sua cidade natal.
Estreou no Salão de 1798
com o quadro de figuras em tamanho natural - O General messênio Atistômeno liberto
por uma moça -, conseguindo um primeiro segundo prêmio. Esse sucesso deu-lhe
nomeada, passando a ser incumbido de trabalhos de ornamentação em edifícios públicos e
particulares.
Apenas chegado ao Brasil,
começou a trabalhar com afinco: fez o Retrato de D. João 6º, de tamanho natural
e em trajes majestáticos, e os de diversas pessoas da família real, pintando em grande
tela o Desembarque no Rio de Janeiro, a 12 de novembro de 1817, da arquiduquesa
Leopoldina, princesa real. Além deste aqui, deixou muitos outros quadros.
Foi nomeado lente de
pintura histórica da Academia, cargo que desempenhou até o dia de seu regresso à
França, que ocorreu a 5 de julho de 1831.
"Em meados de 1831,
sentindo-se cansado de tantas lutas, adoentado e enfraquecido, farto de pelejar... e
cônscio de que prestara ao Brasil os mais relevantes serviços pelo apostolado artístico
exercido no Rio de Janeiro durante quinze anos, regressou à pátria."
Em 1830, havia sido
escolhido membro correspondente da Academia das Belas Artes do Instituto de França.
Além de pintor notável,
era dotado de um espírito altamente cultivado. Durante sua permanência entre nós,
colheu material para uma obra sobre o Brasil, obra cuja publicação iniciou em 1834,
dando a lume o primeiro volume, sob o título: Voyage pitoresque et historique au
Brésil, ou Séjour d'un artiste français ao Brésil (Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil, ou Cotidiano de um artista francês no Brasil). O
segundo volume, publicou-o no ano seguinte e o terceiro, em 1839.
Neste grande trabalho,
trata o autor de vários assuntos, todos de interesse para o país, inclusive o estudo de
belas artes, referente aos primeiros anos de nossa formação artística, e que se estende
de 1816 a 1831. A obra é ilustrada com inúmeras estampas.
É também de sua lavra o
projeto do plano de organização para a Academia Imperial, solicitado em 1824 pelo então
ministro dos negócios do Império aos professores da referida Academia. Esse projeto foi
publicado em folheto em 1827.