| |
A arte da contestação
«Hoje, trabalho de vez em quando. Não me interessa o ato de pintar em si. Pintar me
chateia. Só pinto por necessidade de dizer. Considero a pintura uma profissão. Mas se
quiserem afirmar a pintura como um trabalho diário, então não sou profissional.»
Essa declaração, partindo de um dedicado e consagrado artista, pode soar até como uma
heresia. Quem a fez, foi Antônio Dias, por ocasião de mostra realizada em Belo Horizonte
(MG), em 1966.
Desânimo ou desilusão com as artes plásticas? Negação do trabalho realizado? Nada
disso. Apenas um sentimento característico dos pintores de vanguarda, em que o presente
é apenas uma plataforma para alterar o futuro, traindo a necessidade interior de
mutação constante. O mais importante não é o que se fez, mas é ainda aquilo que não
foi realizado e que há de ser, inevitavelmente, a ruptura com o presente.
A busca do inatingível e o eterno inconformismo, unidos ao talento e profissionalismo, é
que fizeram deste pintor uma das figuras mais importantes da pintura contemporânea, com
obras figurando em museus de todo o mundo.
O despertar de um
artista
Antônio Dias nasceu em Campina Grande (PB) em 1944. As circunstâncias da vida
nordestina, rigorosa e incerta, fizeram dele e de sua família um grupo de nômades, pois
os primeiros anos de sua vida se passaram vagando de uma cidade para outra, no sertão
alagoano, na orla marítima e também nos Estados de Alagoas e Pernambuco.
Aprendeu os primeiros traços de desenho com seu avô e, criança ainda, conseguiu dar
sentido prático à arte, para ganhar uns trocados, chegando a desenhar rótulos para
bebidas.
Aos 14 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro,buscando internação numa escola de
ensino elementar e já no ano seguinte arrumou seu primeiro serviço como desenhista, ao
mesmo tempo em que participava do Ateliê Livre de Gravura da Escola Nacional de Belas
Artes.
Em 1962, participava de sua primeira exposição no Salão Nacional de Arte Moderna, ainda
com trabalhos bem comportados, seguindo fielmente as tendências do modernismo na época.
Não duraria muito tempo essa submissão.
Nasce um rebelde
As portas lhe foram abertas por inteiro ao participar do 20º Salão Paranaense de Artes
Plásticas, em que não só foi contemplado com a medalha de ouro, como com o prêmio de
aquisição de desenho. Assim, a honraria veio acompanhada de dinheiro que chegou em boa
hora.
Mas o mais importante mesmo, foi o contato com a juventude: «Larguei tudo e parti para
conhecer gente de minha idade. Até então, eu só havia andado com gente mais velha do
que eu era um contido.»
A geração de jovens dos anos sessenta era privilegiada por viver momentos significativos
da vida nacional, mas, ao mesmo tempo, tinha de viver momentos de perplexidade entre os
ideais que levava consigo e os conceitos impostos como o políticamente correto.
Tal dualidade de pensamentos atingiu em cheio o artista, que começou a pintar o homem em
raio-x: eram visceras, o ser humano ferido, a contradição entre a justiça e a força,
levando suas ferramentas de trabalho a um engajamento político total.
Essa visão política da arte vem acompanhando-o através dos tempos: «Sentia-me preso e
descobri, de repente, que milhares de jovens lutavam para a libertação, lutavam por
fazer alguma coisa que fosse resultante de suas idéias e de suas relações com o
mundo.»
Pelos caminhos da
vida
Sem o desejar, e sem que isso estivesse planejado, Antônio Dias tornou-se um lider e um
parâmetro aos jovens artistas de seu tempo. Mas a situação política brasileira vinha,
ano-a-ano, tornando-se mais tensa e, em 1967, mudou-se para París, onde estivera pela
primeira vez, dois anos atrás, participando de exposição.
Politicamente, París não vivia, também, tempos de paz e tranqüilidade. Após uma
série de conflitos estudantis, mantidos sob controle, estourou a revolta maior dos
estudantes, no Quartier Latin, que durou várias semanas e chegou a por em xeque a
5ª República francesa.
O pintor mudou-se, então para a Itália, montando seu ateliê em Milão, onde residiu por
vinte anos. Finalmente, em 1988, transferiu-se para Colônia, na Alemanha, onde reside
até hoje.
Antônio Dias foi um dos raros artistas de vanguarda que, praticando uma arte de
contestação, se arriscou em firmar âncoras na Europa, e se deu bem com isso.
Pintura sem limites
A arte de Antônio Dias é um desafio permanente ao convencional. Seus quadros não
obedecem às regras elementares das duas dimensões. Em alguns deles figuram como medidas
a altura, o comprimento e também a profundidade.
Na maioria das obras, o artista apela para a tridimensionalidade, usando gesso, colagem e
todos os recursos ao alcance das mãos. A técnica mista uma expressão
generalizada que por si não significa nada em suas mãos, ganha uma diversidade
que chega ao paroxismo: relevo em massa, colagem sobre tecido, óxido de ferro, grafite,
pigmentos de toda natureza, que se misturam e se combinam. O importante é jamais ser
igual, o essencial é mudar a todo instante.
A experiência é a sua própria alma: participou de filmes, gravou disco, foi à Índia,
ao Tibet e ao Nepal para aprender coisas diferentes, como a produção de papel artesanal
ou a preparação de pigmentos através de vegetais. Mergulhou, enfim, em procedimentos
milenares escondidos no mais profundo dos mistérios da Ásia.
Tudo isso valeu-lhe o reconhecimento mundial, com o nome mencionado e as obras incluídas
no acervo dos principais museus de arte contemporânea no mundo. Em Colônia, Alemanha,
ele reside com sua esposa, a cantora lírica ítalo-brasileira Lica Secato.
Se toda sua obra não fosse o bastante, Antônio Dias tem importância na arte
contemporânea por haver participado e, involuntariamente, liderado uma revolução nas
artes plásticas, invertendo a rotação da terra e sacudindo, como um terremoto, os
valores tradicionalmente aceitos.
Texto de Paulo Victorino
VEJA IMAGENS
|
|