Um pintor à frente de
seu tempo
Martinho de
Haro nasceu em São Joaquim (SC) no ano de 1907 e faleceu em Florianópolis em 1985.
Seguindo para o Rio de Janeiro,
em 1927, logo em seguida matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes, na qual foi
discípulo de Rodolfo Chambeland e Henrique Cavalleiro.
Era ainda aluno quando tomou
parte, em 1931, no chamado Salão Revolucionário, instituido logo após a revolução,
quando era diretor da Escola o arquiteto Lúcio Costa.
«Acho que sempre fui um
pintor moderno - explica De Haro - no sentido de que o que fazia em fins da década de
1920, por exemplo, diferenciava-se bastante do que produziam outros colegas.
«Tanto assim foi que, no
Salão de 1931, em que pela primeira vez puderam participar artistas de orientação não
acadêmica ou conservadora, fui o único aluno da Escola de Belas Artes a participar, a
convite do então diretor, o grande arquiteto Lúcio Costa.
«Como aluno de Henrique
Cavalleiro, assimilei as idéias modernas deste grande mestre, ainda hoje tão pouco
reconhecido pela crítica e pelos colecionadores brasileiros.»
Convívio com
Pancetti
Pela mesma época, passou a
freqüentar o Núcleo Bernardelli, tendo Pancetti afirmado, numa entrevista, que Martinho
de Haro foi o primeiro artista que lhe falou em arte moderna.
Sobre o grande
marinhista, também um freqüentador assíduo do Núcleo Bernardelli, assim se refere De
Haro:
«Pancetti era mais velho
do que eu, pois nascera em 1902, mas costumava me pedir opiniões, e eu lhe falei algumas
vezes em artistas modernos e na arte de vanguarda de então.»
Atividade intensa
Quando Eliseu
Visconti teve de executar novo friso sobre o proscênio do Teatro Municipal do Rio
de Janeiro, entre 1934 e 1835, levou consigo levou consigo Marinho de Haro, além de Ivone
e Henrique Cavalleiro.
No ano seguinte, Martinho
de Haro conquistou no Salão de 1937 o prêmio de viagem à Europa, atribuído por um
júri do qual faziam parte Eliseu Visconti, Lucílio de Albuquerque e Alberto da Veiga
Guignard, partindo no ano seguinte para a França:
«Segui em maio de 1938
para a França, tendo sido companheiro em Paris de pintores como Di Cavalcanti, Noêmia
Mourão (mulher de Di) e, por algum tempo apenas, Orlando Teruz.
«Em outubro de 1939,
devido à situação política européia, tive de interromper minhas aulas com o grande
Othon Friesz na Academia de la Grande Chaumière, retornando ao Brasil.
De volta ao lar
paterno
«Passei muito pouco tempo
no Rio, logo radicando-me de novo, por motivos de saúde, em Santa Catarina, de onde tenho
saído muito raramente.»
Essa fixação em Santa
Catarina, se por um lado preservou-lhe o mundo de idéias, por outro custou-lhe o
reconhecimento em âmbito nacional, que só começou tardiamente, depois que na década de
1970 passou a expor com alguma regularidade em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Praticamente toda a sua
carreira, desde a interrupção da viagem à Europa, transcorreu por conseguinte em
Florianópolis, onde realizou inclusive grandes murais, como o que fez em 1972 para a
Universidade Federal de Santa Catarina.
Um artista de todos
os gêneros
Martinho de Haro praticou a
paisagem, a pintura de costumes regionais, a figura e a natureza-morta.
Repercute,
nas paisagens e nas vistas urbanas de Florianópolis, a lição de seu antigo professor na
França, Othon Friesz: o colorido, de extrema suavidade, o desenho preciso e sensível e a
composição bem estruturada adequam-se maravilhosamente à recriação daqueles espaços
urbanos um pouco reproduzidos, um pouco imaginados, pelos quais invariavelmente passa uma
carroça puxada a cavalos, quase como um leit-motiv.
Os nus e os
retratos são de boa fatura e sólida carnação, destacando-se especialmente esses, que
fazia com evidente penetração psicológica.
Mas é no campo
das naturezas-mortas, e sobretudo na pintura de flores, que Martinho de Haro tem seu lugar
definido na História da Pintura Brasileira.
Seus quadros de
flores são poéticos, extraordinariamente sensíveis, dominados por um cromatismo intenso
e permitem comparação com o que, no gênero, nos legou Guignard, pintor, aliás, com
quem possuiu grandes afinidades.
Grande artista,
ainda relativamente pouco conhecido, Martinho de Haro está a merecer, de parte de
críticos e colecionadores, a atenção que os anos certamente lhe irão proporcionar.
Fonte: CD-Rom «500 Anos da Pintura
Brasileira»
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