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1969 - Premier Regard-2
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Do
outro lado
do mundo
Ano de 1940. Estamos em Lins, uma cidade de porte médio no interior do Estado de São
Paulo, que, no momento desta narrativa, teria, quando muito, uns trinta mil habitantes,
quase todos com sua atividade ligada ao campo. Dois jovens de origem nipônica,
emocionados, se encontram e se comunicam no idioma de sua terra natal.
Um deles é Tikashi Fukushima, 20 anos, fugitivo de guerra, que acabava de chegar ao
Brasil. E chegou ao Brasil bem a tempo, pois o Japão, envolvido em acordo secreto com os
nazistas, em breve atacaria a base de Pearl Harbour, nos Estados Unidos, entrando
abertamente no conflito, fechando suas fronteiras e tornando quase impossível a saída do
país. Havendo trabalhado em sua terra como desenhista, agora, premido pelas
circunstâncias, foi para a lavoura, arrancar da própria terra o seu sustento.
O outro é Manabu Mabe, um adolescente de 16 anos, no Brasil desde 1934, e que, juntamente
com a família, também era um trabalhador rural. O que o unia ao recém chegado, além da
pátria, era a paixão pelo desenho e pela pintura. Braços cansados e mãos calejadas,
ainda encontrava fôlego e tempo para fazer suas experiências com as tintas, copiando da
natureza as cores fortes e brilhantes que tanto o impressionaram no Brasil.
Anos se passaram e os dois seguiram, por caminhos diferentes, o mesmo destino que a vida
lhes reservara. Ambos se tornaram pintores e ambos adquiriram renome; Ambos sentiram uma
atração natural pela abstração, que se tornou, para um e outro, a fase mais importante
e derradeira de suas carreiras.
De dia, comércio;
de noite, ateliê
Tikashi Fukushima nasceu em Fukushima (Hokkaido), Japão, em 19 de janeiro de 1920, e veio
para o Brasil em 1940, farejando a entrada de seu país no conflito mundial. Depois de
alguns anos no interior de São Paulo, mudou-se para a Capital, abrindo uma molduraria na
zona sul, onde, em breve, estaria formando um grupo de pintura, que ficou conhecido como
Grupo Guanabara, nome do logradouro onde seu comércio estava instalado.
Em torno do Grupo Guanabara, se reuniam, além de Fukushima, outros pintores de origem
japonesa como Yoshiya Takaoka (1909-1978), Yuji Tamaki (1916-1979), Tomoo Handa
(1906-1996),Valter Shigeto Tanaka (1910-1970), Takeshi Suzuki (1908-1987),fb
Hajime Higaki
(1908), Kenjiro Massuda (1915-1960) e Jorge Mori (1932). A todos esses, de origem
nipônica, juntaram-se alguns «estrangeiros», como Arcangelo Ianelli (1922).
Quase todos tinham vários pontos em comum: moravam na Vila Mariana, que, com os
bairros contíguos da Liberdade e do Paraíso, formam os grandes redutos japoneses em São
Paulo; vieram do Japão como imigrantes e se instalaram como agricultores em várias
cidades do interior paulista; todos eram pintores emergentes, de grande talento, mas
nenhum havia conseguido, ainda, projeção no cenário artístico.
Era uma cidade
diferente
É claro que uma sociedade de tal natureza só poderia progredir. A oficina de Fukushima
(ele e Mori eram os caçulas da turma) de dia fazia molduras, de noite, transformava-se em
ateliê. E, nos fins de semana, o grupo saía pelas cercanias em busca de cenários que
lhes servissem de inspiração.
E o que encontravam! Nas décadas de 40 e 50, São Paulo ainda não se tornara a selva de
pedras que é hoje. Vila Mariana ainda era um bairro bucólico, com sua estação de
bondes, com casas térreas e uma paisagem até bonita. Um pouco mais adiante, o bonde
entrava em caminho próprio, a linha da antiga Estrada de Ferro São Paulo-Santo Amaro e
virava trem: apitava como trem, tinha estações no lugar de simples paradas e, a cada
parada, um pequeno povoado, com chácaras, ruas de terra, árvores, enfim, o campo dentro
da cidade.
O Grupo Guanabara organizou várias exposições até 1959, ano em que se dissolveu e, a
partir de então, vários pintores, entre eles Fukushima, passaram a participar das
exposições de outro agrupamento da colônia japonesa, o Grupo Seibi, que ainda
subsistiria até 1972.
Um teste de
qualidade
Fukushima esteve presente em várias exposições da Bienal de São Paulo, desde sua
fundação em 1951; do Salão Nacional de Arte Moderna e do Salão Nacional de Arte
Moderna; expôs em outros Estados, como em Belo Horizonte-MG e Curitiba-PR, Salvador-BA;
seus quadros viajaram o mundo em exposições, destacando-se a Bienal de Tóquio, em 1963.
Da arte simplesmente contemplativa, Fukushima foi caminhando rapidamente para o cubismo
para, finalmente, mergulhar no abstracionismo, onde se encontra a fase mais importante e
mais produtiva de sua obra.
Segundo o filho, Fukushima, terminado um quadro, fazia seu rastreamento, de cima abaixo e
de lado a lado, em busca de senões que pudessem ser corrigidos ou de detalhes que
pudessem ser apurados. Quando nada mais achasse, então acrescentava ao quadro um sinal
japonês correspondente à letra «i», indicando que o quadro atingira seu maior grau de
perfeição.
A
propósito, não confunda o pai, Tikashi, com o filho, Takashi: os nomes são muito
parecidos, os dois são pintores, mas há uma distância de uma geração entre um e
outro, além do que, cada um abre o próprio caminho a seu momento e a seu modo. Pode-se
transmitir às gerações vindouras a técnica da pintura, mas não o modo de ser de um
pintor. Este é como uma carteira de identidade: pessoal e intransferível.
Texto de Paulo
Victorino
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