No
início, a gravura
Nascido no Rio de Janeiro. Iniciou sua aprendizagem artística em
1957, cursando as aulas noturnas de Desenho do Liceu e Artes e Ofícios do Rio de Janeiro,
e já no ano seguinte começou a trabalhar como programador visual em revistas e casas
editoras cariocas, o que fez até 1966.
Em 1960 matriculou-se na Escola Nacional de Belas-Artes, tendo
sido aluno de Xilogravura de Adir Botelho, mas afastando-se do curso em 1961. A sua
primeira mostra, de desenhos e litografias, teve lugar em 1964 na Galeria Vila Rica, mas
só em 1965 realizaria uma individual de repercussão, na Galeria Relevo, quando começam
a surgir os temas urbanos que iriam caracterizar nos próximos anos sua pintura.
Modernista
e ativista
Também em 1965 participou de Opinião 65 no Museu de Arte
Moderna do Rio de Janeiro, tornando-se desde logo um dos principais representantes da
vanguarda carioca - posição que sua presença em futuras coletivas de vanguarda, como
- Pare!
(RJ, 1966),
- Opinião
66 (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro)
- Nova
Objetividade Brasileira (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1967) somente viria
reforçar.
O
artista, visto por ele mesmo
Num depoimento publicado no mesmo ano de 1967 na revista GAM,
Gerchman, com cerca de 25 anos, assim sintetizava sua carreira até então:
«A primeira exposição, em 1964, "quando descobri meu
mundo interior"; a exposição na Galeria Relevo, em 1965, "onde conscientizando
a multidão pela primeira vez, situei-me no mundo"; o quadro-cartaz do "Casal
Fartura", exposto em Opinião 65, "primeira tentativa de utilizar o cartaz e a
imagem de jornal ou revista em um novo contexto - a tela, este lugar sagrado".
«A exposição Pare! na G-4, ao lado de Vergara e Escosteguy,
cujo happening "foi a minha primeira experiência no sentido de colocar o
espectador dentro de uma estrutura de madeira, revestida de plástico transparente, dentro
do qual ficava preso (o plástico era grampeado depois) como em uma jaula. Pelo lado de
fora, eu pintava o plástico com spray colorido, fazendo os espectadores
desaparecerem paulatinamente por detrás das cores. Acabando a pintura, estava acabado o happening
e os espectadores tinham de debater-se lá dentro para arrebentar a estrutura de
madeira e libertar-se. Pregado por fora, havia um cartaz: Elevador Social.
«A
filmagem de Ver e Ouvir, de Antonio Carlos Fontoura, cuja terceira parte, " Os
Desconhecidos", " foi quase totalmente rodada na rua, com os quadros e objetos
na calçada, no meio do tráfego, do povo, com entrevistas de som direto e usando a
técnica do cinema-verdade. Para mim, essa experiência foi vital".
«Enfim, "A Marmita" - primeira tentativa de uma forma de
participação maior por parte do espectador, ao sugerir que ele segurasse a alça do
utensílio" - e as duas peças enviadas à IX Bienal de São Paulo, "Sempre
Perto de Ti" e "A Cidade", "em que os espectadores, em número de
dois, entram em cada casa-abrigo, totalmente de plástico e em número de quatro; de
dentro do abrigo, de estrutura tão leve que pode ser deslocado com facilidade pelo casal,
pode-se ver o mundo exterior, através de uma viseira de plástico".»
E Gerchman concluía seu depoimento fazendo uma verdadeira
profissão de fé em versos:
«Dar, realisticamente, imagens urbanas / Múltiplas, facetadas,
simultâneas / Mural fotográfico para ser lido / Somar indefinidamente novas imagens/
Envolvido pelos acontecimentos / O artista testemunha / E faz-se presente.»
A
ida aos Estados Unidos e o filme colorido
Conquistando em 1967 o prêmio de viagem ao estrangeiro do Salão
Nacional de Arte Moderna, em 1968 o artista parte para os Estados Unidos da América,
vivendo até 1972 em Nova Iorque, realizando inclusive nessa cidade individuais, mas
sobretudo expandindo o seu mundo de ideias em contato com o universo cultural
norte-americano.
Ao regressar ao Brasil, em 1972, concebe e dirige um filme em
cores de 35 mm, Triunfo Hermético. Fazendo o balanço de sua carreira até então, efetua
em 1973 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e em 1974 no de São Paulo importantes
exposições, realizando também em 1974 uma individual na Galeria Luís Buarque de
Holanda / Paulo Bittencourt, do Rio de Janeiro, na qual expõe um ambiente com espelhos e
faz projeções de filmes Super-8 (Behind the Broken Glass).
Co-fundador e diretor da revista de vanguarda Malas artes (1975-76),
Gerchman dirigiu entre 1975 e 1978 a Escola de Artes Visuais - INEART do Parque Lage (RJ)1
conseguindo transformá-la de reduto do academicismo num laboratório de criatividade.
Em 1978, com bolsa da The John Simon Guggenheim Memorial
Foundation, Gerchman mais uma vez visitou os Estados Unidos, passando também por México
e Guatemala; realizaria nova viagem ao exterior em 1982, a convite do DAAD - Deutsche
Akademischer Austauschdienst Künstler Program -, permanecendo cerca de um ano em Berlim
como artista residente.
Obras
e exposições
Rubens Gerchman, que em 1981 realizou um painel de azulejos para
o edifício do SESC em São Paulo - Fábrica Pompéia, a convite da arquiteta Lina Bo
Bardi, recebeu nesse mesmo ano o Golfinho de Ouro - Prêmio Governador do Estado do Rio de
Janeiro como Personalidade em Artes Plásticas.
Desde então tem exposto com regularidade, principalmente em São
Paulo e no Rio de Janeiro, mas também em Joinville, Porto Alegre, Curitiba, Caxias do
Sul, Salvador e João Pessoa, bem como em Nova Iorque (1971, 1972, 1981, 1993) México
(1980). Paris (1990), Amsterdam (1991), Bogotá (1993) etc. Por outro lado, tem
participado de importantes coletivas no Brasil, e em cidades como Paris, Buenos Aires,
Córdoba, Calí, Tóquio, Nova Iorque, Medellín, Bruxelas, Londres, México, Toronto,
Washington, Lisboa, Berlim, etc.
Mutação
artística
A principio, nos anos iniciais da década de 1960, Gerchman
praticou uma arte de cunho expressionista voltada para a realidade cotidiana, tal como
refletida nas páginas dos jornais e das revistas populares. Foi o momento das
"moradias coletivas", em que o espaço da tela via-se cumulado de rostos
indefinidos, comprimindo-se, espremendo-se, anulando-se uns aos outros na rua, na praia,
nos estádios - a multidão anônima, sonhadora, facilmente iludível pelos carnês
fartura e outras promessas de felicidade nunca concretizadas.
Suas pinturas e relevos de então representam a fauna pobre do
subúrbios, "desaparecidos" e "professorinhas", "belas
lindonéias" e torcedores de futebol, operários para os quais "não há
vagas" ou meros passageiros enlatados em ônibus ou em elevadores, tudo extravasado
com deliberado mau gosto, sintetizando o kítch e o cafajestismo estético, e não
raro acompanhado de palavras ou mesmo frases completas, do tipo "Assegure seu
Futuro" ou "Vai Comer e Morar um Ano de Graça com Toda a Família",
repisando a imagem, enfatizando o conceito que a figura expressa.
Após curto intervalo em que enfocava os elementos naturais ou
produzia esculturas-palavras - "AR", "SOS", etc. -, Gerchman embarca
para os Estados Unidos com o prêmio de viagem do Salão de 1967. Em Nova Iorque, onde
residiu quatro anos, atravessa uma fase de reflexão, na qual aprimora o seu fazer
estético ("no Brasil me acusavam de ser um desleixado"), tornando-se mais
exigente com a parte artesanal do seu trabalho.
Experimentação
constante
Ao mesmo tempo medita :
«Aqui no Brasil diziam que eu era Pop. Fui checar as
fontes e nada vi igual ao que fazia, a não ser alguma semelhança temática em murais
realizados em comunidades marginais, de porto-riquenhos e chicanos.»
Por um momento pensou em ficar, em instalar-se definitivamente em
Nova Iorque. Viu, em seguida, a inutilidade desse esforço, e de longe, casualmente ao ler
Tristes Tropiques de Levy-Strauss, redescobriu o Brasil.
Ao voltar, em 1972, produz um filme altamente simbólico, Triunfo
Hermético, ao mesmo tempo em que retoma a pintura, fazendo uso de grandes suportes,
que preenche em pinceladas largas e cheias de violenta cor com figuras que quase se diluem
na abstração pura. O tema indígena aparece brevemente por essa época em sua produção
- cujo balanço até então, apresentado em mostras efetuadas em outubro de 1973 e março
de 1974 nos Museus de Arte Moderna carioca e paulista, parecia liberar o artista para
novos vôos.
Reassumindo, por volta de 1975, certos caminhos já trilhados
mais de dez anos antes (Trabalhador morreu com maconha na mão, 1976; Bandeira 2
na Vila Keneedy, 1977; Strip-Tease, 1977; Só Risos, 1978.
Em Virgem dos Lábios de Mel, e Mona Lou, de 1975,
que praticamente retomam A Bela Lindonéia, de 1966), Rubens Gerchman dá
contudo provas de hesitação ou de incerteza, muito embora sua produção já então
revelasse uma interiorização maior, um Gerchman mais consciente e mais contido.
Uma
visão particular do ser humano
Tanto na exposição Boa Noite, de 1977, com música de Jards
Macalé, quanto nas mostras Voyeur Amoroso, de 1981, e Clara Manhã, de 1985, Gerchman
retoma o fio de sua trajetória, entregando-se gostosamente à pintura enquanto pintura.
Assim é que, se até fins da década de 1970 o leit-motiv da
arte de Gerchman era a solidão do homem na cidade grande, a partir da década de 1980 o
artista perde a agressividade e abandona o cáustico tom de denúncia e de crítica
social.
Síntese
de uma carreira
No texto introdutório da mostra de 1986 efetuada na Galeria
Montesanti, em São Paulo, Frederico de Morais, um dos críticos mais constante de
Gerchman, sintetiza os quase 25 anos da carreira do artista, concluindo por esse trecho
significativo:
«Digamos, para simplificar, que de início seu olhar estava
voltado para o que acontecia do lado de fora, na urbs, nos meios de comunicação
massiva. Anos 60 fase negra, imagens fortes, marcadamente sociais. Nos anos 70, mais
reflexivos, Gerchman interiorizou estas imagens, ou melhor, buscou-as no seu circuito mais
próximo e íntimo, como que trocou o jornal pelo álbum de família.
«No primeiro bloco, havia um certo tom de raiva, uma postura
mais crítica, as imagens chegando a ser recortadas em madeira, como se ele quisesse
carregá-las, como o operário carrega sua marmita. Recorte agressivo no estrato social
brasileiro.
«No segundo bloco emerge a própria história do artista, sua
biografia, um Mercury, o filho, Mira, o pai, imagens carregadas de lirismo e poesia. Hoje,
todas estas imagens, já tão nossas, se confundem ou se diluem na própria matéria
pictórica.
«O grande amor de Gerchman é, sempre foi, a pintura, que ele
respira como o ar que o mantém vivo, que ele faz confundir integralmente com sua vida.
Como se viver, para ele fosse produzir imagens, isto é, pinturas. Porque, hoje, mais
livre, tudo nele vira pintura, de menino sentado no cocuruto da pedra como um pequeno
monge a contemplar as irrigações gráficas no lago da tela, ou um petit tarzan engatinhando
na selva da cidade grande, o menino no colo da mãe, entre as pernas do pai, jogando
futebol de várzea num subúrbio qualquer do Rio, menino que some para reaparecer depois,
já homem, no banco de trás, transando aquela que já foi Miss. Madura, a pintura
de Gerchman explode generosa, farta, avassaladora mesmo, sem qualquer compromisso
estilístico, ora crescendo como uma vegetação de arabescos, de grafitos, quase-letras,
ora criando áreas compactadas, de cores surdas ou vibrantes.
«O coração vibra, é tempo de pintura. Gerchman está feliz,
é isso o que diz sua pintura atual.»
Fonte:
CD-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira»
Epílogo:
Rubens
Gerchman morreu na manhã de uma terça-feira, dia 29 de janeiro de 2008, no Hospital
Albert Einstein, em São Paulo, aos 66 anos, em decorrência de um câncer no
pulmão.