Um burocrata indolente
Nascido em
Araras (SP) e falecido em São Paulo. Descendente de imigrantes italianos, ficou órfão
aos 12 anos e, para sobreviver, desempenhou os mais humildes ofícios.
Desenhando desde
o grupo escolar (escola de 1º grau), empregou-se, em 1927, na Estrada de Ferro Sorocabana
(Fepasa), cabendo-lhe pintar postes e tabuletas para a ferrovia.
Em 1934
transfere-se para São Paulo, como fiscal do consumo, dividindo a partir de então seu
tempo entre o emprego de burocrata e a arte, com evidentes vantagens para essa, tanto que
dez anos depois foi demitido - por abandono de emprego.
Ampliando os horizontes
O desenho, que
praticava como autodidata, será a sólida base sobre a qual construirá, desde então,
sua carreira.
Um colega de pensão que lhe viu alguns
trabalhos aproximou-o de Portinari (cinco anos mais velho que ele) e, a conselho deste,
Graciano passou a freqüentar o ateliê de Waldemar da Costa e a lhe absorver os
ensinamentos (1935-1937).
Do desenho, logo passa à aquarela, e daí ao
óleo. Segue também como aluno livre o curso de desenho da Escola Paulista de Belas
Artes, até 1938.
O Grupo Santa Helena
Instalara-se, em 1937, no Palacete Santa
Helena; ali, junto com Rebolo, Zanini, Bonadei e outros pintores que trabalhavam e
pesquisavam em atmosfera de íntima cooperação, realizou avanços técnicos notáveis.
Como diria, muitos anos mais tarde, «o Grupo
Santa Helena poderia não ter uma tese. Era um grupo mais de pintores artesãos, que
procuravam reformar a pintura acadêmica, e havia um trânsito de conhecimentos entre
todos eles: Volpi, Rebolo, Bonadei, Pennacchi, Tomás Santa Rosa e uma porção deles.
Permutavam conhecimentos, permutavam técnicas, e acabaram fazendo uma coisa, para a
época, muito importante».
Realizou sua primeira exposição em 1937, no
Pará, com outros integrantes do Grupo Santa Helena. Do Grupo, passara à Família
Artística Paulista (da qual seria presidente, em 1939) e ao Sindicato dos Artistas
Plásticos, participando regularmente de suas exposições.
Seguindo o próprio
caminho
Mas só em 1941 fez uma individual, no Centro
Paranaense em São Paulo: desenhos a nanquim, guaches e monotipias, de vez que só em 1943
exporia suas primeiras pinturas a óleo. No ano seguinte participou de um concurso de
desenho promovido pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, recebendo
o primeiro prêmio.
A partir de 1940, expondo no Salão Nacional
de Belas Artes (Divisão Moderna), recebe sucessivamente menção honrosa em pintura
(1940), medalha de prata em desenho (1941), medalha de ouro em pintura (1941).
Recebeu o prêmio de viagem ao estrangeiro em
1948. Assim, embarca, em 1949, para uma permanência de dois anos em França, Itália,
Bélgica e outros países.
Aderindo ao muralismo
Ao retornar, expôs 30 pinturas, lançando-se
depois à execução de uma série enorme de painéis em São Paulo e em outras cidades. E
explica porquê:
«O painel é a forma mais democrática da
pintura. O governo, se quisesse, poderia mandar pintar painéis em logradouros públicos,
como estações, campos de esporte, etc.
«É uma forma de levar a arte ao povo, de
imortalizar momentos históricos, de maneira a que todos tenham possibilidades de vê-los.
A tela pertence a uma minoria. O painel a todos quantos queiram vê-lo.»
Figurativista por
devoção
Graciano, que também se dedicou à cenografia
e fez costumes para teatro e balé, destacou-se como ilustrador de livros e também
desempenhou alguns cargos públicos, como a direção da Pinacoteca do Estado de São
Paulo (para a qual foi nomeado em 1971) e a função de adido cultural em Paris.
No decurso de toda a sua carreira, Graciano
permaneceu fiel ao figurativismo, jamais tendo sequer de leve sentido a sedução do
Abstracionismo. O artista, numa entrevista de 1972, explicaria, não sem certo orgulho:
«Meu negócio é a figura, que nunca
abandonei.»
Estudando essa aparente invulnerabilidade de
Graciano ao Não-Figurativismo, José Geraldo Vieira explicou-a de modo engenhoso, num
texto de 1957 publicado em Habitat:
«A quem porventura estranhar que Clovis
Graciano, sempre tão arguto, haja permanecido renitentemente na figura humana e na
natureza, se pode responder que, de início, foi forçosamente um pintor abstrato por
profissão.
«Pois, pintando postes e porteiras, em
eventuais itinerários de tabuletas e ramais duma estrada de ferro, deixou em cima de
muita tora, com aspecto tabu de totem, cores concretas, sem gama, suficientemente densas.
«Que em discos semafóricos de desvios e
baldeações deixou muitas bolas cromáticas no gênero das de Sophie Tauber-Arp.»
Influências de Picasso
e Cézanne
«Mas, como tantos outros pintores brasileiros
do seu tempo, Graciano sofreu por vezes a influência do Cubismo picassiano e
talvez seja lícito ver, nessas mesmas pinturas da série Bombardeio, um
eco de Guernica, que a antecedeu somente em alguns anos.
«Mais do que Picasso, foi porém
Cézanne que o marcou. Curiosamente, não é nas naturezas-mortas que a nota cézanniana
repercute, ao contrário: as naturezas-mortas de Graciano permanecem fiéis à tradição,
e numa, de cerca de 1942, é possível até mesmo ver insetos e larvas, as mesmas que
pululam sorrateiras nas maravilhosas flores de Bruegel de Velours ou de Daniel Seghers,
numa doentia alusão à morte e à destruição da matéria.
«Não: a lição de Cézanne,
assimilou-a Graciano, ao ordenar, de modo racional, os grandes espaços de seus painéis,
ao compor com preocupações de geômetra o espaço das suas paisagens bíblicas ou das
cenas de músicos e passarinheiros, nas quais o partido figurativo do primeiro plano
contrasta com a esquematização geométrica que lhe serve de cenário.
«Retratando cavalos e cavaleiros, músicos e
dançarinos que se contorcem em poses inusuais, passarinheiros e outros temas semelhantes,
Graciano roçou por vezes no fantástico e no insólito.»
A marca de Portinari
Nenhuma influência superou contudo a de
Portinari, companheiro mais velho, conselheiro e amigo, com quem chegou a trabalhar algum
tempo durante sua permanência no Rio de Janeiro.
Portinari marcou-o técnica, temática,
estilisticamente: uma pintura como Família, de 1945, vincula-se
às grandes composições de tema nordestino que Portinari realizara pouco antes, assim
como os vários São Franciscos que Graciano pintou ao longo dos anos
apontam, todos, para a Pampulha.
Inversamente, há quem sustente que Portinari
colheu nos Espantalhos de Graciano a motivação para os muitos que em
seguida faria.
Todas essas influências não bastam para
sufocar ou esconder as características pessoais do estilo de Graciano, resumidas por
Almeida Sales num texto de 1972 como «presença saliente do desenho, composição
solenemente cenográfica e, na temática, o afã de conferir dignidade à humildade».
Sobretudo a
cenografia parece marcar toda a obra de Graciano; mas também destacaríamos a tendência,
que possui o artista, em congelar, em pleno ar, no meio de um movimento, massas e
volumes, temporariamente desprovidos de gravidade; tendência mais de cineasta que de
pintor, e da qual é exemplo o quadro O Domador, de 1974, no qual a
perna do cavaleiro forma uma paralela com o dorso do animal, no instante anterior ao em
que irá montá-lo.
Essa tendência
ao movimento, combinada talvez a algum resquício do Cubismo, é responsável também
pelas pinturas em que os limites das formas se interpenetram, como numa justaposição de
negativos fotográficos, formando o que chamamos de "o estilo raios-X", Mulher
na Cadeira, 1942, O Violinista, 1945, etc.
Fonte: CD-Rom «500 Anos da Pintura Brasileira»