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Fluminense de
Ouro Preto
«Ouro Preto é a sua cidade, amor, inspiração.» É o próprio pintor que faz,
por escrito, nesta singela frase, sua declaração de amor à histórica cidade mineira,
antiga capital do Estado, berço de Aleijadinho e inspiração de tantos outros artistas.
Alberto da Veiga Guignard nasceu em 25 de fevereiro de 1896 em Nova Friburgo-RJ (portanto
fluminense) e veio a falecer em 26 de junho de 1962 em Belo Horizonte, sendo sepultado em
Ouro Preto, a cidade que muito amou.
Homem solitário mas não amigo da solidão, alcoólatra não assumido, nascido em berço
de ouro mas administrando uma vida de penúria, Guignard carregou consigo dois traumas que
lhe modelaram a existência: o primeiro, adquirido aos dez anos, com a morte do pai; o
segundo, que o atingiu aos 30 anos, quando foi abandonado pela esposa, após a morte do
único filho do casal, de apenas um ano.
Sua ex-esposa morreu poucos anos depois, em 1930, mas o pintor assumiu a solidão como
única companheira. Nunca mais voltou a se casar, arrastando uma existência que se
tornaria vazia e insuportável, não fosse sua dedicação à arte, que passaria a
preencher seu tempo e seus pensamentos, assim como aos seus discípulos, com os quais
tinha uma relação quase paternal.
Por estas
mal-traçadas linhas
Não era mineiro, nasceu em Nova Friburgo e lá viveu seus primeiros anos. Mais do que o
apego natural à mãe, sua ligação com o pai era extremamente forte; com ele aprendeu a
brincar, a estabelecer seus primeiros contatos com a vida, a descobrir as maravilhas da
natureza à sua volta.
Em 1906, mergulhado em dívidas e sem perspectivas de melhora, o pai, ao limpar uma arma,
sofreu um «disparo acidental» e veio a falecer. Acidente, suicídio, ou mesmo
assassinato, ninguém jamais o saberá.
Recebido o dinheiro do seguro, sua mãe conseguiu saldar as dividas deixadas pelo marido
e, um ano depois, casava-se com o barão Friedrich von Schilgen, com o que a família foi
viver na Europa, onde Guignard concluiu seus estudos elementares.
Aos vinte anos, decidiu seguir a carreira artística e matriculou-se na Academia de
Munique, onde ficou por cinco anos, vindo ao Brasil em 1924, quando participou do Salão
Nacional de Belas Artes.
Depois, viajou outra vez para a Europa, de onde voltou em 1929, fixando residência no Rio
de Janeiro, onde se empregou como professor de pintura.
A «escolinha» de Guignard
A
vida de Guignard sofreu uma mudança radical em 1944, quando o prefeito de Belo Horizonte,
Juscelino Kubitschek de Oliveira o convidou para montar uma escola de artes na capital
mineira, objetivando passar sua visão moderna de arte a pintores mineiros em ascensão.
É sabido o grande interesse de JK pela arte moderna, acreditando por isso que a
experiência adquirida por Guignard na Alemanha, em contato com os mestres Herman Groeber
e Adolf Hengeler, poderia ser passada a seus novos discípulos, criando uma nova
perspectiva nos jovens pintores de Minas Gerais.
Foi um casamento perfeito. Guignard se afeiçoou aos pupilos como se fossem seus próprios
filhos e estes, em contrapartida, o reverenciavam como o grande mestre. Esta parceria,
valiosa para os novos artistas e para a cultura mineira, jamais se desmancharia. O pintor
viveu em Minas Gerais desde 1944 até sua morte, em 1962, quando a escola recebeu
oficialmente o nome que, carinhosamente, os alunos sempre lhe deram: «Escolinha de
Guignard.»
Ele próprio descreve, com um toque de ironia, seu apego à escola e aos jovens artistas,
numa pequena nota autobiográfica:
«Fundou a Escolinha de Guignard, que tem vivido por milagre e amor de alunos e
mestre, e aqui mesmo ensinou a arte a diversas gerações de jovens. Adora ser cercado
pela juventude, principalmente moças bonitas, e Ouro Preto é a sua cidade, amor,
inspiração.»
Milagre, amor e
miséria
Milagre e amor foram os sustentáculos deste artista, que não enriqueceu fazendo
arte e sequer ganhou o suficiente para satisfazer suas necessidades básicas de
sobrevivência. Passou a vida morando em simples quartos de pensão. Ao final, seu estado
de penúria era tamanho, que uma Fundação foi criada para dar-lhe o amparo de que
necessitava e para garantir a preservação de sua obra, que poderia desaparecer no
anonimato, por falta de catalogação.
Guignard participou dos Salões de 1924, 1929, 1939 e 1942, no Rio de Janeiro; realizou
algumas exposições individuais dentro e fora do país; marcou presença na 1ª Bienal de
São Paulo. Houve, ainda, várias exposições após sua morte, a maioria delas em Belo
Horizonte.
Fluminense
por nascimento, mas mineiro por opção, registrou, na maioria dos seus quadros, as
belezas naturais de Minas Gerais, em especial de Ouro Preto, deixando marcada vividamente,
nas cores brilhantes de sua paleta, toda a dedicação que devotava às Alterosas. (Texto
de Paulo Victorino)
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