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Ianelli, uma lição de
pintura e de coerência
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MARIA HIRSZMAN       
O Estado de São Paulo
5 de outubro de 2002  

A trajetória de um artista

     Engana-se quem pensa que retrospectivas servem para iluminar apenas a obra de um artista, colocar uma seleção de seus melhores trabalhos sob os holofotes.

     Uma exposição como a de Arcangelo Ianelli, que a Pinacoteca do Estado inaugura hoje, mostra a trajetória de um dos mais destacados artistas nacionais do século 20 e que, apesar de seus 80 anos, continua se testando diante dos pincéis e da tela.

     Mas sobretudo revela a importância de seu percurso num contexto mais amplo, ajudando a compreender melhor a história recente da arte brasileira.

     Por meio dessa mostra, que celebra os 60 anos de carreira do mestre, é possível descobrir sua profunda coerência, que também diz muito sobre a evolução da pintura no Brasil a partir da década de 50.

Os grupos de pintura

     Vemos como ele conseguiu desenvolver uma trajetória absolutamente pessoal e permanecer sintonizado com o que ocorria a sua volta, ao menos até encontrar seu estilo marcante e particular.

     Autodidata, Ianelli descobriu a pintura ao lado de ícones da arte brasileira, como Volpi, Bonadei e Mario Zanini.

     Começou cedo, aos 18 anos, inicialmente desenvolvendo suas habilidades no desenho ("nessa época pensava-se que desenhar bem era essencial para ser um bom artista", conta).

     Seu irmão caçula, Thomaz (1932-2001), também participou desde muito jovem desses encontros, usufruindo do convívio com os artistas reunidos em grupos como o Santa Helena e o Guanabara, tornando-se um pintor de excepcional qualidade.

Retratos de família

     Exerceu suas qualidades de pintor ao ar livre e realizou belíssimos retratos, com destaque especial para aqueles de sua filha Kátia quando menina.

     Há um em especial em que vemos o filho brincando de pintor diante do cavalete do pai, como se estivesse retratando a irmã. Uma cena familiar que já traz muitos indícios da vibração de cor e da sutileza que a pintura de Ianelli adquiriria décadas depois.

Abstração geométrica

     Apesar de a abstração ter feito sua entrada oficial no País em 1951, com a 1.ª Bienal de São Paulo, foi apenas na década de 60 que ela entrou definitivamente na vida de Ianelli, para nunca mais abandoná-lo.

     Isso não significa que a inflluência do evento não tenha sido marcante. "A Bienal sacudiu todo mundo. Aquilo foi uma lavagem de olhos, um despertar para todos", lembra.

     É interessante ver nas primeiras salas da exposição os embates do artista com a figura, as paisagens já construídas a partir da sobreposição de planos e tons aproximados, criando desde então um clima brumoso, lírico, que marcou toda sua obra futura.

Esvaziando as figuras

     Em seguida vêm as tentativas de secar cada vez mais as figuras, chapando as formas espaciais no plano, criando naturezas-mortas extremamente sintéticas, e as tentativas de realizar uma pintura em que o desenho passa a ser menos preciso, os riscos parecem ter sido feitos a giz, fase que o artista chama de grafismo.

     Nesses anos se verifica a necessidade do artista de tatear em várias direções, explorando ora as formas, ora as cores, ora a relação espacial das figuras no desenho.

     "Essa mudança não foi pensada, fui procurando simplificar a paisagem, me desligar um pouco da representação", diz.

A pintura vibrante

     Sucedem-se as salas dedicadas às fases geométrica, pós-geométrica e, finalmente, chega-se à vibração misteriosa da cor, à magia de realizar uma pintura opaca, intensamente colorida - às vezes chegamos a ter a impressão de que seremos tragados por aqueles campos de pura cor -, em que mal percebemos o gesto ou a intenção do artista.

     Dos anos 80, em que iniciou esse tipo de pintura vibrante, em que o traço foi abolido em prol de "vibrante canto de transparências e luminosidades", como escreve José Roberto Teixeira Leite, até o início deste século 21, muita coisa mudou na obra de Ianelli.

     Mas essas mudanças são sutis, enigmáticas como sua pintura, sem nenhuma ruptura. Elas transitam de uma para a outra como as cores se transformam em suas telas: de maneira imperceptível e delicada.

O grande colecionador

     Ianelli conta que escolher essas 100 obras para resumir 60 anos de arte não foi tarefa fácil. Dar um peso especial aos anos iniciais, com as obras figurativas foi uma idéia acertada.

     É inevitável lançar um olhar comparativo entre as primeiras salas e a última. Olhando de trás para frente parece evidente o que estava prenunciado nas paisagens de juventude.

     O próprio Ianelli lamenta que essas obras só sejam mostradas em retrospectivas e pensa que seria uma boa idéia realizar uma exposição apenas com esses trabalhos.

     Ele próprio é quem cedeu as pinturas da exposição, pois fez o esforço de adquirir várias delas para sua coleção pessoal, pagando dez vezes o preço que recebeu na época.

Mercado incipiente

     Ele lembra, aliás, que o mercado de arte praticamente não existia na São Paulo daquela época, o que não considera um problema.

     "Sem compromisso com galerias, com o mercado de arte, cada um seguia o seu caminho sem se preocupar com comercialismos", conta.

     Outra relação evidente é aquela entre as pinturas da fase geométrica e as esculturas, que o artista vem desenvolvendo desde 1974, mas nunca expostas anteriormente -, com exceção das peças que fez para locais públicos, como a do Parque da Aclimação.

Sem romantismo

     Apesar do caráter lírico de sua pintura (que será reforçado por uma trilha sonora de canto gregoriano, que o artista preparou especialmente para a última sala da mostra), não há nada de romântico ou idealizado na obra de Ianelli.

     Rigor e coerência são elementos essenciais em sua trajetória. "A inspiração é uma coisa romântica que não adoto", brinca.

     Com uma jornada diária de trabalho capaz de exaurir qualquer jovem, o octagenário Ianelli trabalha todos os dias, inclusive sábados e domingos, para criar. Mas em nenhum momento isso transparece nos seus quadros.

A cor prevalece

     Quando indagado sobre como consegue obter tamanha leveza em suas telas, Ianelli desconversa: "A técnica é um meio e não um fim. Você não deve vê-la. O que tem de aparecer é a cor, não a tinta."

     E complementa, citando um pintor de quem não se lembra o nome: "Enquanto meus olhos admiram sua técnica, meu coração está alheio a sua obra."

Arcangelo Ianelli. De terça a domingo, das 10 às 18 horas. Pinacoteca do Estado de São Paulo. Praça da Luz, 2, tel. 229-9844. Até 01.12.2002.
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Informações

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