A trajetória de um
artista
Engana-se quem pensa que
retrospectivas servem para iluminar apenas a obra de um artista, colocar uma seleção de
seus melhores trabalhos sob os holofotes.
Uma exposição como a de
Arcangelo Ianelli, que a Pinacoteca do Estado inaugura hoje, mostra a trajetória de um
dos mais destacados artistas nacionais do século 20 e que, apesar de seus 80 anos,
continua se testando diante dos pincéis e da tela.
Mas sobretudo revela a
importância de seu percurso num contexto mais amplo, ajudando a compreender melhor a
história recente da arte brasileira.
Por meio dessa mostra, que
celebra os 60 anos de carreira do mestre, é possível descobrir sua profunda coerência,
que também diz muito sobre a evolução da pintura no Brasil a partir da década de 50.
Os grupos de pintura
Vemos como ele conseguiu
desenvolver uma trajetória absolutamente pessoal e permanecer sintonizado com o que
ocorria a sua volta, ao menos até encontrar seu estilo marcante e particular.
Autodidata, Ianelli
descobriu a pintura ao lado de ícones da arte brasileira, como Volpi, Bonadei e Mario
Zanini.
Começou cedo, aos 18 anos,
inicialmente desenvolvendo suas habilidades no desenho ("nessa época pensava-se que
desenhar bem era essencial para ser um bom artista", conta).
Seu irmão caçula, Thomaz
(1932-2001), também participou desde muito jovem desses encontros, usufruindo do
convívio com os artistas reunidos em grupos como o Santa Helena e o Guanabara,
tornando-se um pintor de excepcional qualidade.
Retratos de família
Exerceu suas qualidades de
pintor ao ar livre e realizou belíssimos retratos, com destaque especial para aqueles de
sua filha Kátia quando menina.
Há um em especial em que
vemos o filho brincando de pintor diante do cavalete do pai, como se estivesse retratando
a irmã. Uma cena familiar que já traz muitos indícios da vibração de cor e da
sutileza que a pintura de Ianelli adquiriria décadas depois.
Abstração geométrica
Apesar de a abstração ter
feito sua entrada oficial no País em 1951, com a 1.ª Bienal de São Paulo, foi apenas na
década de 60 que ela entrou definitivamente na vida de Ianelli, para nunca mais
abandoná-lo.
Isso não significa que a
inflluência do evento não tenha sido marcante. "A Bienal sacudiu todo mundo. Aquilo
foi uma lavagem de olhos, um despertar para todos", lembra.
É interessante ver nas
primeiras salas da exposição os embates do artista com a figura, as paisagens já
construídas a partir da sobreposição de planos e tons aproximados, criando desde então
um clima brumoso, lírico, que marcou toda sua obra futura.
Esvaziando as figuras
Em seguida vêm as
tentativas de secar cada vez mais as figuras, chapando as formas espaciais no plano,
criando naturezas-mortas extremamente sintéticas, e as tentativas de realizar uma pintura
em que o desenho passa a ser menos preciso, os riscos parecem ter sido feitos a giz, fase
que o artista chama de grafismo.
Nesses anos se verifica a
necessidade do artista de tatear em várias direções, explorando ora as formas, ora as
cores, ora a relação espacial das figuras no desenho.
"Essa mudança não
foi pensada, fui procurando simplificar a paisagem, me desligar um pouco da
representação", diz.
A pintura vibrante
Sucedem-se as salas
dedicadas às fases geométrica, pós-geométrica e, finalmente, chega-se à vibração
misteriosa da cor, à magia de realizar uma pintura opaca, intensamente colorida - às
vezes chegamos a ter a impressão de que seremos tragados por aqueles campos de pura cor
-, em que mal percebemos o gesto ou a intenção do artista.
Dos anos 80, em que iniciou
esse tipo de pintura vibrante, em que o traço foi abolido em prol de "vibrante canto
de transparências e luminosidades", como escreve José Roberto Teixeira Leite, até
o início deste século 21, muita coisa mudou na obra de Ianelli.
Mas essas mudanças são
sutis, enigmáticas como sua pintura, sem nenhuma ruptura. Elas transitam de uma para a
outra como as cores se transformam em suas telas: de maneira imperceptível e delicada.
O grande colecionador
Ianelli conta que escolher
essas 100 obras para resumir 60 anos de arte não foi tarefa fácil. Dar um peso especial
aos anos iniciais, com as obras figurativas foi uma idéia acertada.
É inevitável lançar um
olhar comparativo entre as primeiras salas e a última. Olhando de trás para frente
parece evidente o que estava prenunciado nas paisagens de juventude.
O próprio Ianelli lamenta
que essas obras só sejam mostradas em retrospectivas e pensa que seria uma boa idéia
realizar uma exposição apenas com esses trabalhos.
Ele próprio é quem cedeu
as pinturas da exposição, pois fez o esforço de adquirir várias delas para sua
coleção pessoal, pagando dez vezes o preço que recebeu na época.
Mercado incipiente
Ele lembra, aliás, que o
mercado de arte praticamente não existia na São Paulo daquela época, o que não
considera um problema.
"Sem compromisso com
galerias, com o mercado de arte, cada um seguia o seu caminho sem se preocupar com
comercialismos", conta.
Outra relação evidente é
aquela entre as pinturas da fase geométrica e as esculturas, que o artista vem
desenvolvendo desde 1974, mas nunca expostas anteriormente -, com exceção das peças que
fez para locais públicos, como a do Parque da Aclimação.
Sem romantismo
Apesar do caráter lírico
de sua pintura (que será reforçado por uma trilha sonora de canto gregoriano, que o
artista preparou especialmente para a última sala da mostra), não há nada de romântico
ou idealizado na obra de Ianelli.
Rigor e coerência são
elementos essenciais em sua trajetória. "A inspiração é uma coisa romântica que
não adoto", brinca.
Com uma jornada diária de
trabalho capaz de exaurir qualquer jovem, o octagenário Ianelli trabalha todos os dias,
inclusive sábados e domingos, para criar. Mas em nenhum momento isso transparece nos seus
quadros.
A cor prevalece
Quando indagado sobre como
consegue obter tamanha leveza em suas telas, Ianelli desconversa: "A técnica é um
meio e não um fim. Você não deve vê-la. O que tem de aparecer é a cor, não a
tinta."
E complementa, citando um
pintor de quem não se lembra o nome: "Enquanto meus olhos admiram sua técnica, meu
coração está alheio a sua obra."
Arcangelo Ianelli. De terça a domingo, das 10 às
18 horas. Pinacoteca do Estado de São Paulo. Praça da Luz, 2, tel. 229-9844. Até
01.12.2002.
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