Um curso de artes
só para crianças
O jovem mestre saiu animado e com a cabeça cheia de planos. Acabara de ser contratado
pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para dar aulas livres de pintura a crianças
que apresentassem talento e interesse pela arte.
Para Ivan Serpa o mestre de quem falamos não era tudo o que ambicionava,
mas já era um bom começo. Com 29 anos, iniciava a carreira ligando seu nome a uma
instituição ainda nova, mas que lutava para romper com a tradição acadêmica, criando
um espaço para a renovação.
Com efeito, o MAM tinha, em 1952, apenas quatro anos de existência. Uma existência mais
no papel do que efetiva. Fundado em 1948 por um grupo de colecionadores, não possuía
acervo nem sede própria. Uma agência bancária do Rio de Janeiro cedeu espaço e as
obras expostas também foram emprestadas pelos homens que lideravam o empreendimento.
Em 1951, assumiu a presidência da instituição a Sra. Niomar Muniz Sodré Bittencourt,
cujo marido, Paulo Bittencourt, era diretor e proprietário do Correio da Manhã,
um dos mais prestigiosos jornais em circulação na cidade.
Foi então que as coisas começaram a mudar. O Ministro da Educação e Cultura, Simões
Filho, cedeu um amplo espaço aberto, por entre as colunas de sustentação do Palácio da
Cultura. Oscar Niemeyer encarregou-se do projeto que, em poucos meses, transformaria a
área num dos mais acolhedores ambientes artísticos do Rio.
O novo museu foi inaugurado em 15 de janeiro de 1952 com uma polêmica exposição, dando
a público o que de melhor se fazia em arte dentro e fora do país.
Dentre as obras expostas, se achavam também aquelas premiadas no ano anterior pela 1ª
Bienal de São Paulo. E dentre estas, o quadro Formas, do pintor Ivan Serpa, o que
motivou o convite, prontamente aceito por ele, para dar aulas no Museu.
Vencendo
a força
da inércia
Para se compreender bem a importância do trabalho que se iniciava, é preciso lembrar
que, até a década de 40, a arte moderna era tocada no peito e na raça, com
muitos artistas promissores e outros com nome já feito, mas nenhuma instituição de peso
que orientasse e coordenasse os movimentos.
Em 1948, industriais do Rio de Janeiro e de São Paulo, tomaram a dianteira para criar
essa estrutura: no Rio de Janeiro, liderados pelo colecionador Raimundo Ottoni de Castro
Maia; em São Paulo, por Francisco Matarazzo Sobrinho (Don Ciccillo), auxiliado por Assis
Chateaubriand Bandeira de Melo que, assim como fizera com o MASP, também deu abrigo ao
MAM na sede dos Diários Associados, no centro velho de São Paulo. O museu paulistano se
inaugurou com a exposição: Do Figurativismo ao Abstracionismo.
No Rio de Janeiro, a instituição ficou a busca de rumo por longos quatro anos. São
Paulo, antecipando-se, deu os primeiros passos efetivos: em 1950 selecionou um grupo de
valorosos artistas e, pela primeira vez, o Brasil se fez representar na Bienal de Veneza,
com tal sucesso que no ano seguinte, na própria sede do MAM-SP se realizava a 1ª Bienal
de São Paulo, marca inicial de outras Bienais que, no correr do tempo, se espalharam por
todo o Brasil.
Nessa altura, como dissemos, o MAM-RJ, já reoganizado, inaugurou sua nova sede e realizou
uma exposição, incluindo entre as obras expostas, também aquelas que já haviam sido
premiadas na Bienal de São Paulo.
A década de 50 funcionou, pois, como um divisor de águas, em que venceu-se a força da
inércia. Nesse processo, Ivan Serpa teve participação ativa, pelo efeito multiplicador
originado de sua atuação no magistério.
O
mestre dos
grandes mestres
Ivan Serpa nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1923 e, aos 23 anos, iniciou seus estudos
com o gravador austríaco Axl Leskoschek. Assimilando bem os ensinamentos do mestre, já
no ano seguinte começou a participar das exposições realizadas na Divisão Moderna do
Salão Nacional de Belas-Artes. Em 1951, inscreveu-se na 1ª Bienal de São Paulo e
conseguiu seu primeiro prêmio, com o quadro Formas.
Lecionando para crianças, no MAM-RJ, com bom retorno em termos de resultados, aceitou a
incumbência de ampliar o projeto, organizando um curso livre também para adultos, tendo,
entre seus primeiros alunos, Aluísio Carvão (1920) e Décio Vieira (1922-1988).
Uma característica do mestre era o permanente questionamento da arte e dos entraves que
tinham de ser removidos para permitir o avanço dos novos pintores que começavam a
surgir, alguns deles com enorme potencial, dentro de um exíguo mercado.
Percebendo que o momento exigia união de todos e participação conjunta na abertura do
mercado, incentivava-os a transporem os limites das salas de aula, buscando entre si
soluções para os problemas com que se defrontavam.
Muitas reuniões se realizaram na casa do próprio mestre. Depois, os alunos começaram a
se revezar, cedendo suas próprias casas para os encontros e debates. Por fim, concluiram
que chegara o momento para organizar um grupo oficial, que se encarregaria de promover
eventos e divulgar seu trabalho.
O
«Grupo Frente»
Por volta de 1954, reuniram-se em torno de Ivan Serpa vários de seus alunos, para a
criação de um núcleo de arte, chamado «Grupo Frente», cujo nome singular é explicado
pelo escritor e poeta Ferreira Gullar, também participante:
«Eu tinha mania de escrever poemas em papel. Pegava várias folhas cortadas ao meio,
colocava uma capa de papel comum, de embrulho, papel pardo, e grampeava tudo. Costumava
andar com aquilo na mão, e como a capa era igual dos dois lados e eu não queria escrever
nada, coloquei a palavra frente só para saber de que lado deveria abrir.
«Um dia, cheguei com um desses cadernos no curso do Ivan. Lá estavam seus alunos e o
escritor Macedo Miranda. Coloquei o caderno sobre a mesa, o Ivan olhou e disse: que coisa
legal. Abriu e perguntou: o que quer dizer isto? Eu respondi: nada. A palavra está aí
só para indicar por onde devo abrir. Mais tarde Ivan me disse: "sabe, eu vou dar o
nome Frente ao nosso grupo "».
O grupo aceitava pintores de todos os gêneros, inclusive figurativistas e, segundo Ivan
Serpa, a única condição era romper com as formulas pasteurizadas da velha academia,
dispondo-se a questionar a arte e caminhar pelos próprios pés.
Iniciando-se com Aluísio Carvão, Silvio Costa, Vincent Ibberson, Carlos Val, Décio
Vieira e outros, foi recebendo contínuas adesões como as de Lígia Clark, Lígia Pape,
Cesar Oiticica e Hélio Oiticica.
Na sua curta existência de dois anos, realizou quatro exposições: na Galeria do
Instituto Brasil-Estados Unidos (Praia do Flamengo); no Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro; no Itatiaia Country Club de Resende e na sede da Cia. Siderúrgica Nacional, no
Rio de Janeiro.
A extinção do «Grupo Frente» foi uma conseqüência natural do crescimento de
prestígio de muitos de seus participantes, os quais passaram a encontrar condições de
prosseguir na luta, cada um por seu próprio caminho.
Primeiro
os outros,
depois ele próprio
Ivan Serpa não teve vida longa. Faleceu em 1973, com 49 anos de idade. Sua carreira,
desde a estréia no Salão Nacional de Belas-Artes até a morte durou apenas 25 anos.
Trabalhando incessantemente, realizou uma vasta obra, participou de um sem número de
exposições e deixou patente sua qualidade de artista.
Mas foi no ensino, talvez, que ele realizou a parte mais importante da missão que teve em
vida. Como professor do curso de pintura livre do MAM-RJ, formou inúmeros artistas que se
projetaram no cenário nacional e pelo menos um deles, Aluísio Carvão, seguiu-lhe os
passos, vindo a lecionar na mesma Instituição onde aprendera, com o mestre, os
fundamentos da pintura moderna.
Ivan
Serpa, o professor, não era um burocrata em busca do salário. Era um mestre, na melhor
acepção da palavra. Dotado de uma inquietação experimental, não aceitava
qualquer resultado como a palavra final, mas sim como o início de uma nova busca. Essa
inquietação, ele a transmitiu aos alunos, ensinados que foram a procurar sempre novas
alternativas que os diferenciassem dos demais.
Esse efeito
multiplicador foi a grande contribuição deixada para as artes plásticas no Brasil. A um
artista, é consagrador ter sido um discípulo de Ivan Serpa. Ao mestre, é um
prolongamento da própria vida na arte daqueles a quem ensinou os primeiros passos e,
sobretudo, nos quais incutiu o sentimento do inconformismo criativo, propulsionador das
grandes mudanças.
(Texto de Paulo Victorino)
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