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Bom pra tosse
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Com som ritmado, as máquinas da oficina gráfica
trabalhavam, incessantemente, na produção de rótulos para remédios. Essa oficina era o
apêndice de um laboratório e a ela cabia imprimir rótulos, embalagens, cartazes e tudo
mais que fosse necessário para fazer com que o produto chegasse ao mercado.
Numa saleta ao fundo, um guri, de apenas 14 anos, parecia perdido em meio a pincéis,
tintas e cartolinas. Dir-se-ia que estava cuidando de seus deveres escolares, para
apresentá-los ao professor no dia seguinte.
Um pouco mais de atenção, porém, revelaria que aquilo era mais que uma lição de casa.
O desenho sobre a prancha, bem elaborado, apresentava traços firmes de quem conhece o
riscado, cores bem distribuídas por quem sabe o que faz. Era mais a manifestação segura
de um profissional, que a tentativa frustrada de um estudante.
Mais uns instantes e surgia ali, de corpo inteiro, mais um cartaz que, em breve, estaria
sendo colado nas paredes nuas de algumas farmácias, a anunciar alguma panacéia capaz de
curar males, aliviar dores e afastar incômodos.
Estávamos no ano de 1955. A gráfica pertencia ao Laboratório Catarinense. O artista
precoce era Juarez Machado que, desde cedo revelava sua aptidão para o desenho e a
pintura.
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Joinville, bicicletas e Curitiba
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Juarez Machado nasceu em 16 de março de 1941 na cidade de Joinville,
onde também passou sua infância, na companhia de sua mãe Leonora, de seu irmão Edson
e, com uma freqüência menos constante, do pai, que era caixeiro viajante, e que
alternava seus cuidados familiares com a busca do pão de cada dia.
Incrustada ao Nordeste de Santa Catarina, parte de uma vasta planície, Joinville mais
parecia uma aldeia européia plantada no Sul do Brasil. Com população predominantemente
de origem germânica, o alemão era tido como segunda língua, havia escolas com
professores vindos do velho mundo e as casas, construídas metade em tijolo, outra metade
em madeira-de-lei, com telhados agudos apontando para o céu, transportavam o visitante,
mentalmente, para algum burgo europeu.
Beneficiados pelo terreno plano, os moradores se utilizavam de bicicletas, quantas
bicicletas, levando homens, mulheres e crianças, as quais se transformavam em transporte
privativo, essencial para garantir a cada um a liberdade de ir e vir.
Todavia, encontrando na pintura seu destino, que os limites de uma cidade pequena não
podiam traçar, aos 18 anos, Juarez mudou-se para Curitiba, matriculando-se na EMBAP
Escola de Música e Belas-Artes do Paraná, freqüentando regularmente o curso de
cinco anos.
Já em 1964, recém saído da escola, realizou sua primeira individual na Galeria Cocaco
de Curitiba, iniciando uma carreira de contínuo sucesso. O tema da exposição:
bicicletas.
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No Rio de Janeiro, a consagração
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O mercado de arte tem suas regras, seus preconceitos, suas
próprias razões e há um conceito firmado de que dificilmente um artista consegue
decolar e ganhar projeção nacional sem passar primeiro pelo Rio de Janeiro ou por São
Paulo. Não que estagiar nessas cidades seja uma garantia de sucesso, mas os recursos
disponíveis e a caixa de repercussão formada por esses centros ajudam e muito, a
alguém, mostrar seu talento e suas possibilidades.
Foi assim que, em 1965, Juarez mudou-se para o Rio, onde, com sua capacidade e
versatilidade, abriu caminhos, conquistando espaço não só na pintura como em outras
modalidades de comunicação.
Durante sua vida, além de pintor, foi também escultor, desenhista, caricaturista,
mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo e ator. Não houve dispersão, mas
antes uma conjugação de todos esses elementos num único propósito, já que a arte não
se divide em compartimentos estanques: eles se comunicam entre si e se completam um ao
outro.
E o reconhecimento começou a chegar, na forma de prêmios. Os primeiros já haviam sido
concedidos em Curitiba, a partir de 1961 e destinavam-se a novos artistas. Depois,
recebeu, em 1969, um prêmio internacional na 5ª Bienal de Arte (Itália); em 1971 e
1974, o Prêmio em Cenários em Televisão; o Prêmio «Barriga Verde» de Artes
Plásticas de Santa Catarina; o Prêmio Nakamori (Japão) pelo melhor livro infantil, e
outros tantos que seria cansativo enumerar.
Houve também homenagens e condecorações. Em 1982, Joinville, sua cidade natal, deu-lhe
o título de Cidadão Honorário e, em 1990, o presidente da República concedeu-lhe a
Ordem do Mérito de Rio Branco.
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Rumo à Europa
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Pretendendo
internacionalizar seu trabalho, em 1978 Juarez viajou a Nova York, Londres e, finalmente,
foi a Paris, onde fixou residência e montou ateliê, o qual passou a funcionar sem
prejuízo dos outros dois, já instalados no Rio de Janeiro e em Joinville. Como seu pai
antes, ele tornou-se também um caixeiro-viajante, só que seu produto era a arte, brotada
de um cérebro privilegiado, capaz de traduzir as emoções em cores e formas, as mais
belas.
Ampliando seus horizontes, foi conhecer o que se fazia em arte na Dinamarca, Itália,
Chipre, Israel e Grécia. Expôs nos principais centros culturais da Europa e hoje tem
seus quadros presentes nas mãos dos melhores colecionadores do mundo. Reclama apenas do
conservadorismo dos museus, ainda refratários a artistas do Novo Mundo, caminhando a
reboque dos acontecimentos e tornando muito modesta a presença de artistas
sul-americanos. Sobre isso, comenta:
«Aí, entra outra história. Você só chega a um museu importante depois de ter obtido
um certo reconhecimento. Eles não descobrem os grandes artistas. Eles só se interessam
pela obra de um artista quando este artista faz parte de grandes colecionadores.
Os grandes colecionadores é que acabam definindo para os museus de arte contemporânea se
o artista tem cotação ou não. Este é caminho que estou percorrendo.»
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O terror dos hoteleiros
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Não contente com os
ateliês fixos em Paris, Rio e Joinville, o artista improvisa estúdios nos próprios
quartos de hotel onde se hospeda durante as viagens, como ele mesmo conta:
«Tenho um ateliê ambulante. Uma bolsa com todos os instrumentos necessários. Tenho uma
chave de fenda sempre comigo. Com ela eu desloco a porta do banheiro e a transformo num
cavalete, no quarto em que estou hospedado. Eu produzo todos os dias. Em qualquer lugar,
mesmo viajando. Eu desenho, rabisco, pinto diariamente.»
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Filho de peixe...
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Nem todos filhos
seguem a profissão de seus pais, mas neste caso é diferente, até porque Juarez Machado
de tal maneira se fez presente nas várias modalidades artísticas que, neste vasto leque
aberto, não foi difícil aos filhos encontrarem seu espaço, cada um a sua maneira.
O filho
mais velho, Ruy, é produtor de vídeo, tevê e cinema. Théssia é especialista em
computação, gráfica, desenho animado e afins. João Manoel, filho do segundo casamento
com Eliane Carvalho, segue, com sucesso, a carreira cinematográfica.
Por trás
do sucesso, é o pai-coruja que os estimula e impulsiona, classificando-os, sem falsa
modéstia, de «irrepreensivelmente talentosos e lindos».
Esta é a
outra face do artista: seu forte apego à família que, para ele, é motivo de orgulho e
de uma quase veneração.
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Amigos, amigos...
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O que dizem os amigos
de Juarez Machado? bem, estes possuem uma visão especial, unilateral, suspeita, facciosa,
laudativa, complacente, como deve ser a opinião dos amigos, já que, para «espinafrar»,
são mais do que suficientes os críticos e adversários.
Vejamos o que dizem. Juca Chaves, numa composição em homenagem a Juarez, cantou:
«Mandei pintar o sete por Juarez Machado / adormeci meu braço no leito do rio / curei um
soneto que tem pé-quebrado / tomei um caldo verde com sabor de anil.»
E Millor Fernandes lhe dá algumas palmadas, ao mesmo tempo que faz, também, alguns
afagos:
«Prevenido, precisando progredir, pintor perito, pintou portas, portões, praias,
pessoas, para poder, pecuniariamente, projetar os presentes painéis pictóricos. Com uma
arte que vai do graciosamente dramático, até o violentamente agressivo, ele não é,
como certos protestários que ladram, mas não mordem. Juarez às vezes ladra e às vezes
morde. Aos domingos, não ladra nem morde, sai com a mulher.»
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Uma longa e bela estrada
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Assim é
Juarez, um artista ainda jovem, dentro dos padrões etários da arte, onde encontramos um
nonagenário como Cícero Dias ou octogenários como Tomie Ohtake e Enrico Bianco, para
citar apenas estes.
Com sua
tenacidade e com a ajuda da Providência, ainda tem algumas décadas de pintura à sua
frente. É esperar para ver. (Texto de Paulo Victorino)
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