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Uma dispersão que
favorece o Brasil
O ano de 1940 foi decisivo para a pintura brasileira, não por eventos especiais
registrados em nosso país, mas pela instabilidade criada na Europa e na Ásia em
conseqüência da Segunda Guerra Mundial.
Após meses de violento conflito que se espalhou por toda Europa, e com o Japão se
preparando para entrar na guerra em apoio a nazistas e fascistas, o ambiente no velho
mundo ficou extremamente tenso e desapareceram as esperanças de uma solução rápida que
restabelecesse a paz.
O Brasil, separado da conflagração pelo vasto oceano e abrigando, desde o final do
Século 19, levas de imigrantes vindos de todas as partes do universo, tornou-se um
refúgio seguro para quem necessitasse de abrigo.
Era uma nação cosmopolita, um pequeno e diversificado mundo, como se fosse um
mostruário vivo dos vários povos que habitam o planeta, aqui vivendo em completa
harmonia, sem preconceitos, sem constrangimentos e sem ódios raciais.
Se de todo mal, por pior que seja, é possível extrair algum bem, o Brasil foi favorecido
com a Grande Guerra, pelo fato de que uma leva de cientistas, escritores e artistas,
fugindo da catástrofe, por aqui aportaram, trazendo seus conhecimentos, marcando sua
presença indelével nas atividades que lhes diziam respeito, e fazendo discípulos que
lhes continuaram a obra, mesmo poucos que, ao fim do conflito, voltaram aos países de
origem.
Presença sempre
bem-vinda
Podemos contar, entre os pintores que se instalaram no Brasil nessa época, o húngaro
Arpad Szenes (1897-1879); sua mulher, a portuguesa, naturalizada francesa, Maria Helena
Vieira da Silva (1908-1992); outro húngaro, Lazlo Meeitner (1900-1968); o espanhol
Timóteo Perez Rúbio (1896-1977); dentre os escritores, Otto Maria Carpeaux (1900-1978) e
Stefan Zweig (1881-1942).
Da mesma forma, a guerra concorreu para a presença no Brasil e outros talentos japoneses,
que aqui se revelariam mais tarde, como Tomie Ohtake (1913) e Tikashi Fukujima (1920).
Desta diáspora, participou também Tadashi Kaminagai, já com alguma experiência como
pintor, e bem relacionado dos meios artísticos da Europa, o qual, impedido de permanecer
na França, viajou de volta ao Japão, de onde tratou de sair rapidamente, a caminho do
Brasil, antes que as fronteiras se fechassem por completo.
Um
sacerdote
rebelde
Tadashi Kaminagai nasceu em 1899 em Hiroshima (Japão) e faleceu em 1982 em Paris
(França).
Se houvesse aceitado pacificamente o destino que lhe estava traçado, teria passado toda
sua vida dentro de um mosteiro budista, como sacerdote, pois seu pai o havia separado,
dentre os filhos, para seguir a vida religiosa.
Com efeito, aos 14 anos foi encerrado em um mosteiro em Kobe (Honshu-Japão) onde recebeu
iniciação e, anos mais tarde, chegou a ser enviado à Indonésia como missionário.
Não era essa a vida que desejava e Kaminagai sentia vem isso. Desde criança, aplicou-se
ao desenho, o que fazia com vontade e com bons resultados. Sabia que, se pudesse chegar a
um grande centro artístico, como Paris, sua vida iria mudar completamente.
Assim, em certo momento, decidiu quebrar as regras de obediência familiar, tradicionais
na vida japonesa, e rompeu com a carreira que o pai lhe destinou, viajou a Paris e lá
arrumou emprego em uma restauradora de objetos de arte, enquanto, nas horas vagas, se
aplicava à pintura de quadros.
Primeiro
a moldura,
depois a pintura
As portas iriam abrir-se para ele por caminhos transversos. Sentindo problemas na
colocação de molduras novas em quadros antigos, Kaminagai realizou uma série de
experiências com pátina, até chegar a um tipo de aplicação que dava um efeito de
envelhecimento bastante convincente.
Levou, então, uma amostra ao pintor Tsugoharu Foujita (1886-1968), que morava também em
Paris, e com quem fizera amizade. Este, por sua vez apresentou-o ao pintor Kees Van
Dongen, que passou a encomendar-lhe as molduras que precisava. Outros artistas, entre eles
Henri Matisse (1869-1954), também fizeram uso da nova moldura patinada.
Mas foi o escritor e marchand Ambroise Vollard (1939-1968) que lhe tornou-o conhecido no
mercado de arte parisiense, quando passou a utilizar regularmente suas molduras patinadas,
aplicando-as em quadros impressionistas.
Assim relacionado no mercado, Kaminagai sentiu-se animado em inscrever alguns de seus
quadros em Salões parisienses, até que, em 1940, a guerra o obrigou a viajar para o
Japão e, de lá, mais que depressa, seguir para o Brasil, com aquilo que conseguiu
reunir.
Terra
à vista
Chegou ao Rio de Janeiro sem dinheiro e com alguns pertences, alugando um quarto de
pensão, onde se instalou para reiniciar a vida.
Se não tinha bens, tinha ao menos uma carta de recomendação, endereçada a Cândido
Portinari, que lhe encaminhou os primeiros passos na nova terra. Depois, outro pintor,
Massami Tanaka, pediu-lhe que desse aulas de desenho e pintura ao seu filho, Flávio
Shiró Tanaka.
Instalando uma molduraria em Santa Teresa, centro de atividade artística no Rio de
Janeiro, passou a se relacionar com outros pintores residentes no bairro, muitos fugindo
da guerra, como ele. E assim, um ano após sua chegada, já participava do Salão da
Escola Nacional de Belas Artes, alternando-se, daí em diante, entre exposições
coletivas e mostras individuais.
O clima do Rio de Janeiro e o ambiente artístico em que se achava imerso lhe fizeram
muito bem e Kaminagai permaneceu aqui até 1954, até que decidiu retornar ao Japão, onde
se casou e instalou seu novo ateliê.
Desde então, e até a sua morte, manteve ateliês no Japão, na França e no Brasil,
alternando-se entre os três países. E foi quando estava em París, que veio a falecer,
no ano de 1982.
Sem
desmerecimento à boa qualidade de sua pintura, a maior importância de Tadashi Kaminagai,
para o Brasil, está no incentivo proporcionado a jovens principiantes da colônia, como
Flávio Shiró Tanaka, Manabu Mabe e Tikashi Fukujima.
(Texto de Paulo Victorino)
VEJA
IMAGENS
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