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Romance com final feliz
Corria o
ano de 1945 e o término da 2ª Grande Guerra reabria as portas do mundo para um
intercâmbio cultural mais amplo. Do Brasil, vai para os Estados Unidos, e depois para a
Europa, o pintor Milton Dacosta
(1915-1988). Em sua companhia, segue também a artista Djanira da Mota e Silva
(1914-1979), com quem ele vivia um romance.
Dacosta
tinha sua excursão financiada por um prêmio de viagem que acabara de ganhar e esperava
aperfeiçoar sua arte, já bem desenvolvida; Djanira, mais velha que ele, mas menos
experiente na arte, viajava por conta própria, valendo-se no dinheiro que conseguira
amealhar em umas poucas exposições de que participou.
Na mesma
época, em São Paulo, uma jovem aluna, Maria Leontina Franco da Costa, terminava seus
estudos com Valdemar da Costa, professor do Liceu de Artes e Ofícios, este com nome
respeitável nos meios artísticos. Leontina, ao contrário, preparava-se para começar
uma longa jornada, abrindo caminho por entre pedras e espinhos, na longa e estreita vereda
que conduz à fama e consagração.
Três vidas
e três destinos que se cruzam. Djanira, em breve, voltará à sua rotina no aprazível
bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, independente por opção, indócil por
temperamento, despachada, falastrona, amiga de todos mas senhora do próprio destino.
Milton da
Costa volta ao Brasil em 1947 e conhece Maria Leontina, com quem estabelece uma sólida e
duradoura parceria. Dacosta e Leontina se casam em 1949 e o compromisso matrimonial
somente irá se romper 37 anos depois, com a morte da pintora, uma perda que o veterano
artista não conseguiu superar, vindo a falecer quatro anos depois.
O tempo e o vento
Quem era
essa mulher, desconhecida da crítica, sem nome firmado no mercado, que conquistara o
coração do jovem, mas já famoso pintor ?
«Leontina
falava pouco - comenta o crítico de arte Valmir Ayala (1933-1991). - Sua antieloqüência
era fecunda de reflexão e disciplina. Era um ser atento à vida e ao mundo visível,
procurando e projetando os toques invisíveis das formas conhecidas e catalogadas.»
Maria
Leontina Franco da Costa nasceu em São Paulo em 1917 e faleceu no Rio de Janeiro em 1984.
Seu currículo como estudante a recomendava bem, mas passou os primeiros anos de sua
carreira no semi-anonimato, só despertando a atenção da crítica após seu casamento e,
ainda assim, na observação de Sérgio Milliet (1898-1966), era impressonante o «quanto
havia de doentio em sua pintura acinzentada e quente, feita quase toda de fusões e de
impulsos também, de muita melancolia, senão de amargura».
Essa
característica, originária de sua primeira fase, mudaria completamente na década de
1950, alterando seu relacionamento com a crítica e projetando-a no cenário artístico,
com o que sua presença em exposições passou a ser uma constante. Entre 1952 e 1954,
esteve na França em companhia de Milton Dacosta: ele como "free-lancer"; ela
com uma bolsa de estudos concedida pelo governo francês.
De volta ao
Brasil, participou das Bienais de São Paulo em 1955, 1957, 1965 e 1989, inscrevendo-se e
participando de mostras no Brasil e no exterior e realizando exposições individuais
praticamente todos os anos, o que dá idéia do volume de sua produção artística e da
boa aceitação de seu nome no mercado de arte.
Criar primeiro,
filtrar depois
É costume
dos pintores dividir seu trabalho em fases. Às vezes o fazem por opção, em outras, isso
ocorre inconscientemente, sendo a mudança de fase detectada pelo próprio mercado e pela
crítica.
No caso de
Maria Leontina, essa mudança de fases é plenamente consciente e a freqüência com que
isso ocorre chega a ser quase doentia. Seu trabalho é bem classificado, como se
classificam documentos em um arquivo: «Jogos e Enigmas, Narrativas, Episódios, Da
Paisagem e do Tempo, Formas», e assim por diante, a perder de vista.
É a
própria pintora que se justifica, em uma de suas declarações, ao dizer que as
manifestações interiores de um artista não podem ser contidas e é preciso «que o
artista as deixe fluir livremente. Não podem ser inibidas, reprimidas, senão soam
falsas, inautênticas. (...) Qualquer artista tem, logicamente, suas mudanças dentro de
si, que elimina ou filtra, à sua maneira, contanto que conserve sua unidade íntegra».
Sabendo
contrabalançar a emoção com a razão, buscando incessantemente novas formas de
expressão, Maria Leontina ganhou destaque entre seus contemporâneos, experimentando
sempre, variando continuamente, mas sem se tornar inconstante, pois é possível
vislumbrar, em sua pintura, uma unidade total, uma costura entre entre as várias fases,
da mesma forma que um escritor amarra os vários capítulos de seu livro para formar uma
única obra.
O nome de
Maria Leontina Franco da Costa tornou-se um referencial importante na pintura moderna
brasileira. O estudo de sua obra é fundamental para o conhecimento desse periodo, ainda
vivo no Brasil, tendo grande repercussão especialmente no período compreendido pela
segunda metade do Século 20.
(Texto de Paulo
Victorino)
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