Ado Malagoli
(1906-1994)

O enjeitado

     «Jovens, pobres, românticos e inconformistas» era o perfil dos incipientes artistas filiados ao Núcleo Bernardelli do Rio de Janeiro, segundo depoimento de seu fundador, Edson Mota. Tendo se manifestado como o primeiro grupo de contestação à arte oficial ensinada pela Escola Nacional de Belas-Artes (mas sem romper com ela), este grupo que, em boa hora, recebeu o apoio e orientação do mestre Manuel Santiago, criou uma base sólida na arte moderna, revelando, com o tempo, grandes nomes da pintura brasileira.

     Entre esses rebeldes encontrava-se Ado Malagoli, nascido em Araraquara, Estado de São Paulo, em 1906 e falecido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1994, encaixando-se por completo na descrição de Mota.

     Os pais faltaram-lhe bem cedo na vida e, órfão, Malagoli foi trazido para a casa de parentes em São Paulo aos oito anos, passando a trabalhar numa serralharia, enquanto concluía o curso primário, naquela época de apenas quatro anos.

     Se, de um lado, o trabalho infantil lhe foi um peso, de outro, deu-lhe estrutura para, aos 13 anos, matricular-se em uma escola profissionalizante, vencendo facilmente os exames de admissão. Depois, conseguiu vaga para prosseguir os estudos no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.

O aprendiz

     Aproximar-se do Liceu era achegar-se ao mundo das artes e não tardou em tomar contato com os pintores que formariam, em São Paulo, o Grupo Santa Helena, como Rebolo, Zanini e Volpi. Com Rebolo, mais experiente e assentado no ramo, executou alguns trabalhos profissionais de decoração; com os outros dois, saia pela cidade, em busca de lugares onde pudesse assentar o cavalete e exercitar sua pintura.

     No início dos anos 30, mudou-se para o Rio de Janeiro, matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes, e foi nessa oportunidade se uniu a outros estudantes como ele, participando, então da formação do Núcleo Bernardelli com oportunidade inédita de receber aulas de Manuel Santiago, professor da Escola, mas que dispôs-se a orientar pessoalmente aqueles moços, dando direção e sentido à sua rebeldia.

     A partir de 1934, passou a expor suas obras nos Salões anuais da Escola Nacional de Belas Artes, ganhando alguns prêmios menores, até que, em 1942, recebeu o cobiçado prêmio de viagem ao exterior, o que lhe permitiu permanecer três anos nos Estados Unidos, aperfeiçoando sua arte. Lá, também, teve a oportunidade de realizar sua primeira individual que, se não foi um sucesso, permitiu-lhe marcar presença em um país estrangeiro, cuja concorrência entre artistas era enorme.

O mestre

     De volta ao Brasil, foi professor no Rio de Janeiro, mas por pouco tempo, já que recebeu um convite irrecusável, vindo de Porto Alegre, para fazer parte do corpo docente do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul.

     Esse convite, em boa hora aceito, preenchia as aspirações de Malagoli. Pouco dado a aventuras, era o momento de se fixar em um trabalho firme e, de fato, naquela escola, permaneceu como professor até sua aposentadoria, em 1976. Por outro lado, comunicativo, encontrava nesse trabalho a oportunidade de transferir seus conhecimentos a outros jovens iniciantes, num Estado onde a arte seguia cambaleante, pela distância dos dois grandes centros de irradiação, que eram Rio de Janeiro e São Paulo.

     Na contrapartida, Ado Malagoli foi vítima, também, desse voluntário ostracismo, que lhe refreou os progressos e conteve sua arte, caracterizada por um apego ao academicismo que procurou condenar no Núcleo Bernardelli. Pela falta de convívio com os grandes centros da arte no Brasil, sua produção distanciou-se da de seus antigos companheiros, como Dacosta e Pancetti, por exemplo, que, estes sim, plasmaram sua arte num estilo próprio e inconfundível.

     Este detalhe, todavia, não anula a beleza de seus quadros. E ainda, mais do que pintor, e o foi com qualidade, Malagotti portou-se como um missionário das artes, levando seus conhecimentos ao rincão gaúcho, onde trabalhou por três décadas seguidas na formação de novos artistas no extremo Sul do país.

(Texto de Paulo Victorino)

Fotos e autógrafo de Ado Malagoli

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