A decisão
«Vamos passar fome, mas não sei fazer outra coisa. Vou pintar até morrer.» Esta
decisão, Manabu Mabe comunicou à sua mulher, Ioshino, logo após a realização de sua
primeira individual, na cidade de Lins, Estado de São Paulo, em 1951.
Mabe chegara ao Brasil com 10 anos de idade, acompanhado do pai, da mãe e de mais sete
irmãos, fixando-se todos na cidade de Lins, como colonos, trabalhando na lavoura do
café.
Assim que pode, a família mudou-se para o Jabaquara, bairro ao sul de São Paulo,
que, com Vila Mariana, Paraíso e Liberdade, abrigava a colônia japonesa na capital
paulista.
Em São Paulo, arrumou emprego em uma lavanderia e tinturaria, onde, a meio a seus
afazeres habituais, também tingia também gravatas, que levava para casa, pintava, e
depois vendia a lojas da cidade.
Paralelamente, prosseguia em suas experiências com pintura, iniciadas ainda quando
trabalhava na lavoura. Embora autodidata, jamais dispensava a orientação de outros
artistas mais experientes, cujos ensinamentos, entretanto, não absorvia, mas assimilava,
fazendo deles uma leitura própria e aplicando-os segundo seu próprio instinto.
A consagração
De volta a Lins nesse ano de 1951, para mostrar seus progressos na arte, foi recebido com
grande carinho pela população, que o considerava «da terra», como se lá houvesse
nascido.
O Clube Linense cedeu-lhe o espaço para a realização da mostra. A população acorreu
para vê-la. O orgulho com que os linenses o receberam, o entusiasmo da colônia japonesa
da cidade pelo seu trabalho, o levaram a decidir: abandonaria tudo o mais, para dedicar-se
à pintura.
Não era sua primeira aparição pública. No ano anterior, inscrevera alguns trabalhos no
Salão da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Lá, era apenas um dentre
muitos pintores, alguns dos quais já consagrados. Aqui, na cidade de Lins, era um
destaque, o sucesso no meio de seus patrícios, enfim, a consagração.
Abandonou tudo para dedicar-se à pintura, mas não passou fome. Passou muitas
dificuldades, isto sim, mas, ao fim da carreira, era um dos poucos artistas que podia se
dar ao luxo de manter um ateliê em São Paulo, outro em Nova York e um terceiro em
Tóquio, revezando-se entre os três e participando de exposições em importantes mostras
de todo o mundo.
Os primeiros tempos
Manabu Mabe nasceu em Kumamoto Ken (Japão) em 1924 e faleceu em São Paulo (Capital) em
1997. Veio para o Brasil em 1934, acompanhado da família e, após uma pequena estada em
Birigui, interior do Estado, todos se fixaram na cidade de Lins, trabalhando como
agricultores.
Sua aproximação com a arte se deu de forma natural, primeiro copiando desenhos de
revistas, depois pintando paisagens e naturezas mortas.
O fato de estar em uma cidade pequena, distante da capital e de outros grandes centros e,
mais ainda, com a agravante de viver na zona rural, cerceou-lhe qualquer possibilidade de
desenvolvimento na arte, seja adquirindo conhecimentos técnicos indispensáveis mesmo ao
autodidata, seja encontrando mercado para sua produção, indispensável para quem
pretenda viver dela.
Essa situação só viria alterar-se após sua mudança para São Paulo, onde, embora
vivendo como operário, encontrava a possibilidade de uma comunicação com quem faz arte
e com quem procura por ela.
A arte na colônia
Na Vila Mariana, bem próximo do Jabaquara, onde morava Mabe, ficava a molduraria de
Tikashi Fukushima (1920), que ele conhecera, de passagem, ainda na cidade de Lins.
Ao dia, a loja de Fukushima funcionava na confecção de molduras. À noite, ocorria uma
metamorfose. Cavaletes eram instalados e entusiasmados jovens nipônicos ali se
encontravam para discutir arte, fazer arte e trocar experiências.
Outras manifestações culturais se realizavam no bairro que, embora com bolsões de
pobreza, abrigava a classe média da cidade, aqueles que ainda não tinham status e
suficiência econômica para se fixar nos Jardins (a área nobre), mas tinham renda
bastante para para residir em núcleos aprazíveis, misto de casas residenciais e lojas
comerciais.
Assim, os horizontes se abriram para ele e para outros da colônia, em busca de
oportunidades para expor seus trabalhos e fazer-se reconhecidos no mundo da arte.
Uma atração
irresistível
pelo abstrato
Todos sabem da paciência, da disciplina, e da profundidade filosófica em que se
desenvolve toda a educação oriental, a começar de sua escrita, um exercício difícil
no aprendizado de caracteres e ideogramas que representa, cada um deles, um trabalho bem
acabado de caligrafia.
Numa tradição que vem de milhares de anos, sua formação volta-se para o interior do
ser humano de forma, a mais profunda, num misto de religião e filosofia, aprendendo-se a
contemplar cada detalhe da natureza, e a reverenciá-la como a geradora da vida.
Em sua atividade de pintor, Manabu Mabe não agia como um técnico, mas antes de tudo,
como um animal. Não se guiava pelas regras conscientes, mas pelo instinto. Não
analisava, apenas dava largas à sua intuição, deixando que esta fluísse normalmente e
este é o ponto em que se distinguia dos demais.
Influenciado por sua educação oriental e agindo instintivamente, não é de surpreender
que, aos poucos, fosse ele deixando a pintura figurativa, para se aproximar mais e mais de
códigos e sinais, até mergulhar no mais profundo do abstrato. Mesmo em algumas
recaídas, quando voltava-se acidentalmente para o figurativismo, este era apenas
insinuado, por entre as marcas do abstracionismo, a cujo estilo permaneceu fiel até
a morte.
Gostava de pintar quadros grandes, não se apegava a miniaturas. Seu quadro
«Abstracionismo», acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, possui 181 x 201 cm; a
maioria de suas telas têm medidas acima de um metro. Apreciava, pois, espalhar suas
idéias em espaços amplos, onde pudesse colocar detalhes importantes, ainda que um olhar
comum e menos preparado identificasse ali apenas a monotonia dos elementos.
Bilhete premiado
O propósito de Mabe, de entregar sua vida à pintura, independentemente das
conseqüências que isso pudesse acarretar, seria um bilhete de loteria ou uma visão
transcendental de seu próprio futuro? Ninguém o saberá.
Se foi um bilhete de loteria, saiu premiado. Após sua histórica decisão, não houve um
evento importante de que não participasse e, a partir de então, passou a colecionar
prêmios no Brasil e em todo o mundo.
Em 1959, a 5ª Bienal de São Paulo deu-lhe o prêmio de Melhor Pintor Nacional e, no
mesmo ano, num raro acontecimento para brasileiros, ganhou o Prêmio de Pintura na 1ª
Bienal de Paris. Seus quadros foram expostos em Buenos Aires, Cidade do México, Kumamoto,
Kamamura, Lima, Londres, Miami, Montevidéu, Nova York, Osaka, Paris, Roma e Washington,
para citar apenas algumas cidades.
Sua morte,
aos 73 anos de idade, veio interromper uma carreira que ainda se encontrava plena de
vitalidade, embora seu trabalho se fixasse a um estilo definitivo que não
mais abandonaria. (Texto de Paulo Victorino)