A arte ao
alcance
de todos
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Era uma acanhada sala, no primeiro andar de um velho sobrado da
rua São José, no Rio de Janeiro, em cujo térreo funcionava a loja da Casa Cavalier.
No canto esquerdo, um modelo vivo. Pela sala, espalhavam-se, como podiam, jovens alunos de
pintura, dois ou três com cavaletes, os restantes com prancha de desenho, cada um
buscando um melhor ângulo para reproduzir o corpo nu, diante de si.
Nada de professores. Era o Núcleo Bernardelli que se reunia, todas as noites no mesmo
local, contestando o ensino tradicional, especialmente a Escola Nacional de Belas Artes,
perdida nas sombras do passado, a ensinar, em plena década de 30, a pintura romântica e
neoclássica, minando qualquer iniciativa pela modernização da arte.
Aqui, a pintura era livre, ninguém obedecia a métodos ou técnicas prefixados. Cada um
pintava como queria, dava largas à imaginação, numa luta sem tréguas entre tintas e
pincéis, que tentavam conciliar-se, sem resultados patentes.
Entre
os experimentadores da arte livre, estavam o marinheiro José Pancetti (1902-1958), Ado
Malagoli (1906-1994) Milton Dacosta (1915-1988) e, é claro, o fundador do núcleo,
Edson Mota (1910-1981).
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O veredicto
do mestre
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Trabalho pronto,
perfeito e acabado, foi convidado um «expert» para dar suas impressões sobre a
evolução daqueles jovens aspirantes. O mestre era Manuel Santiago (1897-1987), na
plenitude de seus 37 anos, mas já com uma respeitável bagagem, tendo participado de
várias exposições no Brasil e na França, onde esteve, aproveitando um premio de viagem
conquistado em 1927 no salão da Escola Nacional de Belas Artes. Uma autoridade e tanto
para avaliar as possibilidades daqueles ansiosos jovens.
Santiago caminhou, atônico, pelos quadros que lhe foram expostos, quase não acreditando
no que via, examinando e reavaliando cada um, para se certificar de que não era um sonho,
mas sim a realidade do trabalho executado por cada um dos participantes do Grupo.
«O que eles fazem é uma goiabada da mais ordinária, pensando serem independentes e
terem personalidade» - escreve ele, mais tarde, à sua mulher, a pintora Haydea Santiago
(1896-1980). É uma crítica pesada, mas corrige-se, em seguida, aclarando o pensamento:
«Fiquei querendo bem a esta turma de "barbouilleurs" (lambuzões) e penso que
vou dedicar-me inteiramente a eles, pois mostram ter força de vontade e precisam de um
bom amigo, mais velho, para fazer deles ótimos pintores.»
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Os progressos
de um
«lambuzão»
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Milton Dacosta, um dos «barbouilleurs» a que se referia Santiago,
nasceu em Niteroi, Estado do Rio de Janeiro, em 1915, e faleceu na cidade do Rio de
Janeiro em 1988, demonstrando atração para o desenho desde a infância, quando fazia
seus rabiscos sobre qualquer material que estivesse ao seu alcance, como caixas de
sapatos, pedaços de papelão e o que mais fosse.
Aos 14 anos, conheceu um professor alemão, Augusto Hantz, com quem tomou as primeiras
aulas e, no ano seguinte, matriculou-se no curso livre que era ministrado por Augusto
José Marques Júnior (1860-1937) na Escola Nacional de Belas Artes.
Não era isso o que queria e, aos 16 anos, participou da fundação do Núcleo
Bernardelli, um projeto equivocado, mas que foi a primeira fase para a libertar sua
pintura dos cânones acadêmicos.
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O Salão abre
suas portas
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Em 1936, após realizar uma
individual, que alcançou relativo sucesso, Dacosta sentiu-se incentivado a tentar, uma
vez mais, inscrever-se no Salão Nacional de Belas Artes.
Na tentativa anterior, saiu-se frustrado, pois seus quadros não só foram recusados pelo
Salão como ridicularizados. Desta vez, porém, não só expôs, como recebeu menção
honrosa, uma indicação de que os acadêmicos, refratários a mudanças, começavam a
fazer concessões aos novos pintores.
Isso se tornou mais patente nas exposições seguintes, quando ganhou medalha de bronze,
de prata e, em 1944, o cobiçado prêmio de viagem ao exterior. Foi assim que, em 1945,
viajou para os Estados Unidos, em companhia da pintora Djanira e, de lá, seguiu para a
Europa, ficando em Paris por dois anos.
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Evolução
gradual
e segura
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A pintura de Dacosta já não era a mesma, desde os primeiros
rabiscos de sua infância e os borrões em livre estilo praticados na primeira fase do
núcleo Bernardelli. Dacosta evoluiu, mas evoluiu gradativamente, degrau a degrau, sem
queimar etapas.
Em seus primeiros momentos, como costuma acontecer aos principiantes, sentiu uma atração
irresistível pelo Impressionismo, caminhando seqüencialmente para o Expressionismo, o
Cubismo, o Concretismo, voltando por fim ao Cubismo, como opção definitiva.
Milton Dacosta casou-se, em 1949 com a pintora Maria Leontina, um casamento que durou 37
anos e só se extinguiu com a morte dela, em 1984. Juntos percorreram o caminho da vida e
o caminho da arte, participaram de Bienais, viajaram ao exterior em cursos de
aperfeiçoamento, serviram de suporte um ao outro, crescendo juntos na missão que
escolheram, de tornar o mundo mais belo.
Quatro anos após a viuvez, morre também Dacosta, quando vivia a fase mais importante de
sua pintura, numa série que ele denominou como «Vênus e os Pássaros».
Comparando-se os quadros pintados a partir de 1963, dentro dessa série, com as pinturas
feitas na década de 40, percebe-se que a ingenuidade dos traços e do colorido deu lugar
à maturidade do artista, onde a forma se sobrepõe à cor, onde o apuro de estilo, com
sobriedade e elegância, domina o quadro em sua totalidade.
(Texto de Paulo Victorino)
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