Ismael Nery

(1900-1934)
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     Não era artista, era filósofo; não era pintor, era poeta; não defendia a nacionalização da arte, como os modernistas de sua época, mas, ao contrário, entendia a expressão artística em seu sentido mais amplo, universal, entrelaçando todas as correntes de pensamento e estética; não se fixava na natureza, mas no ser humano, conseqüentemente, não pintava paisagens, marinhas ou naturezas mortas, mas somente seres humanos, em momentos triviais: nem angústia, nem desespero, nem perplexidade; apenas o cotidiano das pessoas.

     Ismael Nery nasceu em Belém do Pará em 1900 e morreu na cidade do Rio de Janeiro em 1934. A fase mais importante de seu trabalho, o Surrealismo, por isso mesmo, não chegou a florescer nele, pois se iniciou em 1927, durando pouco mais de seis anos. Formou-se, desta maneira, um vácuo em sua carreira, não permitindo sequer especular sobre qual seria a evolução de seu trabalho, caso tivesse vivido por mais algumas décadas, fiel ao movimento surrealista que abraçara.

     Nery era um homem a procura de si mesmo. Renegando a qualificação de pintor, preferia a de filósofo. Chegou a montar um sistema filosófico, a que deu o nome de Essencialismo, mas nunca publicou qualquer obra sobre o assunto. Sempre que pôde, dedicou-se à poesia, achando-a melhor que a pintura.

     Se o artista negou a si mesmo o reconhecimento que merecia, o público também o acompanhou nessa baixa avaliação e fraca expectativa. Em toda vida, não pintou mais que uma centena de quadros, realizou duas exposições individuais, e nelas conseguiu vender apenas um quadro.

     Já não se pode dizer o mesmo de sua produção como desenhista. Fazia desenhos em quantidade espantosa, os quais, na opinião de especialistas, eram até melhores que sua pintura. Porém, também nessa atividade não se valorizou, jogando seus trabalhos sistematicamente ao lixo, assim que terminados. Conhecemos, dos desenhos de Nery, apenas aqueles que foram salvos da lixeira, muitos deles amarrotados.

     Ismael Nery marcou sua iniciação na arte aos quinze anos de idade, quando matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes, que breve deixou de freqüentar, por não se adaptar à disciplina escolar. Nessa época, pintou grande quantidade de guaches e aquarelas, que se perderam no tempo, ficando apenas o registro de sua existência.

     Em 1920, viajou para a França, voltando dois anos depois, para casar-se com Adalgisa Nery, com quem teve dois filhos. Em 1927, voltou à Europa, conhecendo o pintor judeu-russo Marc Chagall, que exerceu forte influência em sua carreira, a qual, a partir de então, voltou-se para o Surrealismo.

     Em 1929, depois de viagem à Argentina e Uruguai, um diagnóstico revelou que ele era portador de tuberculose, o que levou-o a internar-se, por dois anos, em um sanatório. Aparentemente curado, a terrível doença, em realidade, apenas lhe deu uma breve trégua, para voltar, em 1933, desta vez, de forma irreversível. Meses depois, 6 em abril de 1934, veio a falecer, sendo enterrado vestindo um hábito dos franciscanos, numa singela homenagem dos frades à sua ardorosa fé católica.

     Costuma-se dividir a obra de Ismael Nery em três fases: de 1922 a 1923, a expressionista; de 1924 a 1927, a cubista, com evidente influência da fase azul de Pablo Picasso; finalmente, de 1927 a 1934, adotou o Surrealismo, sua fase mais importante e promissora.

     Tragado pela morte, o destino impediu-o de provar até onde seria capaz de chegar nesta última fase, que poderia trazer a sua efetiva consagração como artista.

     A obra de Nery permaneceu ignorada do público e da crítica até 1965, quando teve seu nome inscrito na 8ª Bienal de São Paulo, na Sala Especial de Surrealismo e Arte Fantástica. (Texto de Paulo Victorino)
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