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José Pancetti
1904-1958
 
 


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Parar por quê ?

     Inconformismo, foi a marca registrada de José Pancetti, nascido em Campinas, Estado de São Paulo, em 18 de junho de 1902, e falecido no Hospital Central da Marinha no Rio de Janeiro, em 10 de fevereiro de 1958. Nesses quase 56 anos, por força das circunstâncias e do próprio temperamento, não teve parada.

     Mudou-se, constantemente de um lugar a outro, experimentou diversos empregos, sem fixar-se em qualquer deles, a não ser na Marinha de Guerra, onde participou como simples profissional, na repressão às revoluções de 1922 (Revolta do Forte de Copacabana), 1924 (Revolução Paulista), 1930 (fim da Primeira República), 1932 (Revolução Constitucionalista) e 1935 (Intentona Comunista).

Perdidas ilusões

     Ao temperamento irriquieto e inconstante, desde a infância, juntaram-se as dificuldades de seus pais, Giovani e Corina, em prover o sustento do lar. Giovani, mestre-de-obras e pedreiro, veio da Itália com esperanças de "fazer a América" com seus conhecimentos e sua experiência, mas logo se decepcionou. Eram levas de imigrantes que aqui aportavam, com iguais qualificativos, cuja pressão por trabalho derrubava o valor da mão-de-obra e causava um desemprego contínuo.

     Pancetti tinha dez anos, quando a família mudou-se de Campinas para São Paulo. Um ano depois, em busca de um futuro melhor para o filho, seus pais o enviaram à Itália, onde passou a viver, primeiro na companhia de tios, depois, na companhia dos avós. Foi aprendiz de carpinteiro, trabalhou como simples operário, passou de fábrica em fábrica, até que engajou-se à marinha mercante italiana e, aos 17 anos, sem conseguir fixar um rumo, voltou ao Brasil.

     No Brasil, nova odisséia: em Santos, trabalhou como operário em uma fábrica de tecidos, foi arrumador de hotel, auxiliar de ourives, garçom, e até trabalhador braçal na construção de esgotos em vias públicas. Em 1921, veio a São Paulo, onde um profissional italiano lhe deu trabalho como pintor de paredes e de cartazes.

Três amores
e uma cruz

     Por fim, ainda nesse ano, conheceu o pintor Adolfo Fonzari (1880-1959), que lhe ofereceu um emprego, como auxiliar, nos trabalhos de decoração que vinham sendo realizados na casa do comendador Pugliese, no Guarujá.

     Foi o encontro com seu primeiro amor eterno, a pintura. O outro viria no ano seguinte: em 1922, alistou-se na Marinha de Guerra do Brasil, onde ficou até 1946, quando foi reformado como 2º tenente, por motivos de saúde. O terceiro e, também, perene amor, foi o de Anita Caruso, que desposou em 27 de abril de 1935, e com quem teve dois filhos.

     A grande cruz que carregou foi a tuberculose, que contraiu ainda jovem, vítima das precárias condições de vida que sempre teve, a qual acompanhou-o até o fim da existência, obrigando-o a mudanças periódicas de clima.

     Sua pintura pode ser classificada em três fases bem delineadas: de 1925 a 1941, o aprendizado; de 1941 a 1950, o apogeu; daí em diante, um declínio continuado, conseqüência, principalmente, dos males que o afligiam.

A caravana
passa

     Era um pintor autodidata e, por isso, foi recebido com reservas, quando não com hostilidade, pelos seus colegas. Em artigo publicado em 19 de outubro de 1941 na «Gazeta Magazine», um certo Villeroy-França assim se refere, mencionando Pancetti: «é um pintor sem símbolos e sem fatalidades, vítima do complexo terrível da praça-de-pré profissional, que não pôde atingir o oficialato.»

     Ninguém consegue deter a rotação da terra. Um dia se segue ao outro. O ano de 1941, justamente aquele em que o artigo deste quase desconhecido crítico era publicado, marcou a ascenção meteórica de Pancetti, que ganhou prestígio e respeitabilidade no mercado. Da mesma maneira, os anos que se seguiram foram de glória e de reconhecimento do seu trabalho de artista.

Lembrando um velho ditado árabe, «os cães ladram, enquanto a caravana passa». Imperturbável, alheio às críticas, e seguro de sua capacidade artística, Pancetti continuou pintando até 1958, quando perdeu sua primeira e definitiva batalha para a doença que, qual sombra sinistra, o acompanhou por toda parte, durante toda sua vida.

Texto de Paulo Victorino

 
 
 


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