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O menino e a carroça
O menino caminhava pelas ruas esburacadas do velho bairro do Morumbi, onde morava, numa
chácara, em companhia de seus pais, imigrantes espanhóis que vieram ao Brasil em busca
de um futuro melhor, mas viviam aqui a mesma miséria que deixaram do outro lado do
Atlântico.
A preocupação tomava conta de sua mente, mas não a ponto de desorientá-lo. Na noite
anterior, surpreendera os pais numa conversa sombria em que tentavam buscar uma solução
para a crise financeira que, a esta altura, chegara a um ponto em que não havia dinheiro
nem mais para atender as necessidades básicas da família.
Sentindo-se já um adulto, do alto de seus doze anos, o guri saiu de casa, sem avisar os
pais e foi a busca de trabalho, qualquer coisa que os ajudasse a sair dessa situação
aflitiva.
Nisto, passou por ele uma carroça, levando uma carga de tijolos e seus olhos brilharam:
«Vou seguir esta carroça. Onde ela parar, com certeza haverá trabalho.»
Com efeito, pouco mais adiante, o veículo parou diante de uma construção quase
terminada, já em fase de acabamento.
«Que é que você sabe fazer?» perguntou-lhe o empreiteiro.
«Tudo!», respondeu ele com resolução.
Dava para perceber, à primeira vista que, exceto a boa vontade, a resposta era um exagero
sem limites, mas o homem notou nele uma disposição que o impressionou. Deu-lhe uma lata
de tinta e um pincel, experimentando sua habilidade na pintura de portas e venezianas.
Foi a primeira obra de Francisco Rebolo Gonzales, que mais tarde viria a tornar-se um
referencial importante da pintura brasileira, um dos criadores do Grupo Santa Helena e
incentivador de vários outros nomes, como Alfredo Volpi e Mário Zanini.
O talento do
«baixinho»
Francisco Rebolo Gonzales nasceu em São Paulo no ano de 1902 e faleceu na mesma cidade em
1980. Ainda criança, enquanto cursava o primário, saia à cata de alguns «bicos»,
obtendo trocados, o suficiente para ajudá-lo nas despesas com os estudos.
Tinha 15 anos quando, após as primeiras experiências com a pintura de paredes, conseguiu
um emprego efetivo como aprendiz de uma oficina de decoração, desenvolvendo o talento na
ornamentação de igrejas e também de casas, onde era comum a pintura rococó, cheia de
floreados e exageros.
Não acreditava, porém, que essa fosse sua arte e, na primeira oportunidade que surgiu,
abraçou a carreira de jogador de futebol, entrando para o time do Corinthians, onde
chegou a ganhar o Campeonado do Centenário da Independência do Brasil, em 1922.
Com 1,62m de altura, Rebolo foi um dos «baixinhos» que fizeram ou fazem furor no
futebol, surgindo sempre de surpresa e desnorteando seus adversários com a rapidez dos
movimentos e com a facilidade em se desvencilhar da marcação.
Como o futebol de antigamente, no peito e na raça, não dava para as despesas, o tempo
livre era aproveitado para prosseguir no trabalho de decoração, que nunca abandonou, e
que lhe foi o esteio, quando, em 1934, desligou-se do esporte para dedicar-se à pintura,
montando um escritório na rua de São Bento.
O
Grupo Santa Helena
Bem mais tarde, Rebolo associou-se a Alfredo
Volpi, como ele, pintor de paredes, e alugou uma sala no Palacete Santa Helena, ao lado da
Catedral de São Paulo, esta ainda em construção, na Praça da Sé.
Chamá-lo de palacete era um exagero. O prédio, de poucos andares, construído antes que
o cimento armado tivesse chegado ao Brasil, abrigava um luxuoso cine-teatro, com palco,
frisas camarotes e uma fina decoração que incluía esculturas e até um afresco pintado
na abóboda central.
Mas, de há muito que aquele pedaço da cidade se deteriorara. A arte paulistana mudou-se
para a Cinelândia, na esquina da Avenida Ipiranga e Avenida São João, levando também
para o outro lado do Vale do Anhangabaú os escritórios e as lojas mais chiques. O Cine
Santa Helena passou a exibir filmes de segunda categoria e as salas do prédio, sem
interessados, passaram a ser alugadas pelo preço de alguns tostões.
Para os artistas plásticos incipientes, juntou-se a fome à vontade de comer. As salas
eram amplas, em lugar silencioso, e distantes apenas um quarteirão da Escola Paulista de
Belas Artes, permitindo um contato com alunos mais adiantados, e até com professores.
Entre os mestres, estava Paulo Rossi Osir, com formação totalmente européia, o qual
não só ajudou a desenvolver o Grupo Santa Helena, como também montou um ateliê de
decoração, o Osirarte, onde dava trabalho aos artistas participantes desse núcleo.
O Grupo Santa Helena, de que Rebolo era a peça principal, teve grande importância no
desenvolvimento das artes, inclusive com a organização da Família Artística Paulista,
que realizou uma série de coletivas, fazendo oposição aberta aos Salões de Maio, estes
realizados por artistas melhor situados na vida, os quais se recusavam a abrir espaço
para os artistas «operários».
Um
reconhecimento
que demora a chegar
Em 1944, Rebolo arrisca-se a fazer sua primeira individual na Livraria Brasiliense, mas, a
despeito do sucesso, nesta e em outras exposições, somente dez anos após, em
1954, é que pode ser efetivamente notado, quando ganhou um prêmio de viagem à Europa,
no 3º Salão Nacional de Arte Moderna.
Foi a grande oportunidade, bem aproveitada, para aperfeiçoamento de sua arte, numa
turnê, em companhia da família, percorrendo Itália, Espanha, Alemanha, França,
Áustria e Holanda, além de participar de um curso de restauração no Museu do Vaticano.
Sem perder a simplicidade, o Rebolo que retorna ao Brasil é outro, bem mais amadurecido.
Sua pintura continua de linhas planas, formas reduzidas ao mínimo exigido na arte
figurativa, mas nota-se uma técnica bem mais desenvolvida e menos ingênua.
Daí em diante, registra-se uma sucessão de exposições, de entrevistas e de encomendas.
É a consagração, com a qual jamais sonhara mas que, ainda que tardia, chegou à sua
vida.
Morumbi,
o seu
pedaço de terra
Ganhando não apenas status, como também uma condição financeira mais sólida, Rebolo
pôde realizar um dos sonhos de sua vida. Construiu uma confortável casa no bairro do
Morumbi, a cinqüenta metros da antiga chácara em que passou sua infância de
privações.
Foi lá que veio a falecer, aos 79 anos de idade, no dia 10 de julho de 1980. A antiga
vila de chacareiros já se tornara então um dos mais ricos e populosos bairros de São
Paulo, o que não lhe tolheu os costumes do menino pobre, que ali nasceu e passou sua
infância.
Sua filha, Lisbete Rute Rebolo Gonçalves, doutora em Museologia pela Universidade de São
Paulo, tem se incumbido de preservar-lhe a memória. Foi diretora do Museu de Arte
Contemporânea e Presidente da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte).
Atualmente, encarrega-se de preparar as comemorações do Centenário de Rebolo, que devem
realizar-se em 2002.
A
garupa da Galatéia
Francisco Rebolo Gonzales, ex-jogador do
Corinthians, meio espanhol, meio caboclo, em muito faz lembrar outro espanhol e
corintiano, o folclórico ex-presidente do clube, Vicente Mateus. Como ele, passou a vida
criando histórias em torno de si mesmo, algumas verdadeiras, descontado o exagero; outras
criadas por ele próprio, lançando uma névoa folclórica em torno de sua biografia.
Certa vez (ele jurava ser verdade), Rebolo foi, com sua moto Galatéia, buscar a pintora
Djanira, que se achava em algum ponto de São Paulo, para levá-la na garupa até a casa
do Morumbi.
Já próximos da residência, desabou um enorme temporal e as ruas, de terra batida,
tornaram-se quase intransitáveis. Em um determinado ponto, Rebolo pediu a Djanira que
saltasse por alguns momentos e ele mesmo, atolado no barro, empurrou o veículo pelo meio
de um charco.
Vencido o obstáculo, subiu
de novo na moto e seguiu viagem até sua casa, onde a esposa o recebeu com o maior
espanto: «Mas, e a Djanira, onde está?»
Djanira havia ficado
para trás dentro do charco e teve de completar a viagem a pé, no meio da lama.
(Texto de Paulo Victorino)
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