Carlos Scliar morre
aos 80 anos


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Fonte: Agência Estado
28 de abril de 2001 (sábado)

     Rio de Janeiro - O artista plástico Carlos Scliar, de 80 anos, morreu na madrugada de hoje de falência múltipla dos órgãos. Ele sofria de diabetes, hipertensão e estava internado há 12 dias no Hospital Silvestre por problemas hepáticos que o vitimavam desde 1980.

     A pedido do pintor, seu corpo será cremado amanhã, e suas cinzas serão lançadas em praias de Cabo Frio, município da Região dos Lagos em que manteve ateliê desde os anos 60. A casa de Cabo Frio e outro ateliê em Ouro Preto serão transformados em institutos culturais para abrigar as 300 obras que Scliar colecionava - dele próprio e de amigos.

     Nascido em Santa Maria (RS) em 1920, o talento de Scliar veio à tona cedo. Aos 11 anos ele já colaborava com cadernos juvenis e infantis dos jornais Diário de Notícias e Correio do Povo. Foi pintor-amador da exposição Centenário Farroupilha (1935), e fez a primeira mostra individual de pintura em 1940.

     Trabalhou como consultor plástico do filme "Orfeu da Conceição", a convite de Vinícius de Moraes, em 1956. E foi diretor de arte da revista Senhor - um dos mais bem sucedidos projetos gráficos da história da imprensa brasileira. Mas somente a partir de 1960 Scliar conseguiu viver exclusivamente de sua arte, que mescla gravuras, colagens e pintura em vinil sobre tela.

     Scliar trabalhava incessantemente. Costumava dizer que o dia precisava ter 28 horas para dar conta de tudo o que precisava fazer. "Ele era um dínamo", descreve o filho, o museólogo Francisco José Medeiros Scliar.

     Em 1939, o escritor Rubem Braga, de quem era amigo, o descreveu como "um rapazola louro, tímido e orgulhoso, atacado da febre da pintura".

     Essa febre nunca arrefeceu. No ano passado, a exposição dos seus 80 anos, no Museu Nacional de Belas Artes, trazia trabalhos recentes. Entre eles, o álbum de serigrafias 1500/2000 - A Redescoberta do Brasil, no qual tecia comentários sobre diferentes momentos históricos da história do País. "Acho que eu represento o mundo em que vivo", disse em entrevista ao Estado, quando a mostra chegou à Pinacoteca do Estado, em março.

     Há alguns meses, o "dínamo" vinha perdendo potência. Os médicos descobriram um pequeno tumor no cérebro, que não foi responsável pela sua morte. "Ele passou os últimos meses vendo televisão, lendo, dormia muito", conta Francisco. Scliar morreu dormindo, às 5 horas de hoje.

     Além do filho, o pintor deixou três netos e dois bisnetos. Clarissa Thomé.


Morre o mestre da pintura
poética e política

Carlos Scliar 1920 - 2001
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Fonte: Jornal do Brasil (Rio de Janeiro)
29 de abril de 2001 (domingo)

     Feroz na militância por transformações na sociedade e doce no trato pessoal e no apoio a artistas mais jovens, Carlos Scliar viveu até os 80 anos criando uma obra que bebia na fonte do cubismo, mas tratava esta referência de uma forma absolutamente pessoal. Nascido na gaúcha Santa Maria em 1920, o pintor morreu ontem (sábado), às 5h, no Hospital Silvestre, no Rio, de falência múltipla dos órgãos, em conseqüência de hepatite, diabetes e hipertensão.

     ''Scliar foi um exemplo de persistência ética, um batalhador pela arte e a cultura'', exaltou o artista plástico Luiz Ernesto, diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, instituição que teve em Scliar um aguerrido presidente da Associação de Amigos. Para Luiz Ernesto, a arte de Scliar era facilmente identificável, com uma marca forte, mas ainda assim surpreendente. ''Ele tinha um olhar poético sobre o cotidiano. Nunca fez uma arte panfletária, nunca seu trabalho foi ilustrativo de uma ideologia''.

     ''A fase inicial da obra dele é muito boa, e todo o trabalho de arte gráfica, também'', ressalta Lauro Cavalcanti, diretor do Paço Imperial. ''Scliar foi um grande artista e uma pessoa adorável, representante perfeito de uma época em que o cinismo era menor e em que o espírito de classe era maior''. Lauro lembra que, nos anos 70, Scliar costumava comprar desenhos de artistas jovens como Cildo Meireles, Artur Barrio e Luiz Alphonsus, praticamente viabilizando a carreira deles.

     Pode-se dizer que Carlos Scliar descobriu os primeiros traços da arte ainda na infância. ''A pintura entrou na minha vida a reboque da literatura. Eu escrevia histórias infantis e, na falta de alguém para ilustrar, fazia eu mesmo os desenhos. Acabei descobrindo que desenhava melhor do que escrevia'', contou em uma entrevista. Aos 11 anos começou a colaborar nos cadernos juvenis e infantis dos jornais gaúchos Diário de Notícias e Correio do Povo . Aos 15 anos, já participava da sua primeira exposição.

     Em 1944, quando já tinha relativa fama como artista plástico, Scliar foi convocado pela Força Expedicionária Brasileira para lutar na Itália. Muita gente foi contra, mas lutar ao lado dos aliados era ''uma questão de dignidade''. Nos 11 meses em que permaneceu na Itália, produziu cerca de 700 desenhos. ''Teria ficado maluco se não desenhasse durante a guerra. E os desenhos acabaram se tornando importantes porque marcaram uma virada. Antes, meu trabalho era muito social, influenciado por Segall e Portinari. Depois da FEB, passei a me concentrar nos objetos, na paisagem que nos cerca'', analisou ele, um especialista em naturezas-mortas.

     Depois da Guerra, Scliar voltou ao Brasil, deparou-se com a redemocratização pós-Vargas e inscreveu-se no Partido Comunista. Em 1947, seguiu para Paris. Além da intenção de estudar pintura, levava na bagagem uma carta de Luís Carlos Prestes como passaporte para ingressar no PC. O pintor chegou a morar com o escritor Jorge Amado.

     A intenção era ficar lá para sempre, mas voltou ao Brasil em 1950, quando percebeu que, apesar de ser filho de imigrantes, sua arte era brasileira. Sempre combativo, em 1954 participou do Salão em Preto-e-branco, protesto contra os altos impostos sobre a importação de tintas que chegou às paginas da revista Time. Dois anos depois, foi convidado por Vinicius de Moraes para ser consultor plástico de Orfeu da Conceição.

     Ainda nas artes gráficas, tornou-se, em 1958, diretor de arte da revista Senhor. ''Foi a chave de ouro do meu trabalho de artista gráfico. E neste momento, 1960, depois de 20 anos de trabalho, eu pude viver apenas dele'', ressaltou em uma entrevista. Parte da segunda geração de modernistas - um pouco mais jovem que Guignard e Cícero Dias -, só em 1960 Scliar passou a se dedicar apenas à pintura, também montando ateliês em Cabo Frio e Ouro Preto. Ativista, engajou-se na defesa da preservação das dunas das praias e do casario da cidade histórica mineira.

     Scliar começou a enfrentar problemas de saúde em 1980, quando fez uma cirurgia para colocação de pontes de safena e contraiu hepatite em uma transfusão de sangue. No ano passado, o pintor chegou a ficar um mês internado em um hospital depois do lançamento do álbum 1500/2000. A redescoberta do Brasil, produto que reuniu fotos, documentos, pinturas e gravuras de Scliar nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento.

     A representação do país em sua obra é ampla. Há desde uma tela dedicada à Batalha dos Guararapes aos favelados mortos na chacina de Vigário Geral, no Rio - obra feita a partir de uma primeira página do Jornal do Brasil.

     A última exposição de Scliar foi no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, em dezembro do ano passado. Batizada de Carlos Scliar 80 anos, ela retomava, na opinião do poeta e crítico Ferreira Gullar, o melhor caminho estético do pintor, aquele que descendia do cubismo e trabalhava com colagens de uma forma bem própria. ''Ele fez desse momento do cubismo uma linguagem muito pessoal, criou toda a sua obra a partir daí. Sua última exposição era excelente'', diz Gullar.

     Scliar - que tem um filho adotivo, três netos e dois bisnetos - será cremado amanhã, às 9h. O velório acontecerá no mesmo dia, meia hora antes, no crematório São Francisco Xavier, no Caju.


Morre o artista plástico
gaúcho Carlos Scliar

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Fonte: Zero Hora - Porto Alegre
28 de abril de 2001(sábado)

     O artista plástico gaúcho Carlos Scliar morreu às 4h30min deste sábado no Hospital Adventista Silvester, no Rio de Janeiro, onde estava internado desde o domingo de Páscoa. O artista teve uma falência múltipla dos órgãos decorrente de problemas crônicos no fígado.

        Considerado o mais importante artista plástico gaúcho ainda em atividade, Scliar tinha 80 anos e era uma figura central da história da arte moderna brasileira.

        Sua formação combinava elementos clássicos do modernismo, como o cubismo, lições importantes oriundas de sua experiência como artista gráfico (é dele o projeto da revista Senhor, um dos mais bem-sucedidos da história da imprensa brasileira e ele foi também um dos ilustradores da Revista do Globo). Scliar foi também professor e entre seus alunos está Cildo Meireles, um dos expoentes da arte contemporânea no Brasil. Com mais de 60 anos de carreira, foi destaque em mostras coletivas e itinerantes no país e no Exterior. Recebeu os mais importantes prêmios em salões oficiais no Brasil. Há obras suas no MoMA de Nova York e no Museu de Belas Artes de Boston, ambos nos Estados Unidos.

A vida de Scliar

     Scliar nasceu em julho de 1920, em Santa Maria, e realizou a primeira exposição individual em julho de 1940, em São Paulo. Radicado no Rio desde o final dos anos 40, o artista construiu ao longo do tempo uma carreira sólida e uma reputação inabalável. Fez pintura, gravura e desenho. Admitiu concessões apenas a seu espírito inquieto e a sua indignação política. Ele foi membro do Partido Comunista Brasileiro e participou de campanhas internacionais pela paz e contra a bomba atômica, ao lado de Pablo Picasso e Jorge Amado, seu amigo íntimo.

     Em 1945, Scliar juntou-se a um grupo de escritores, poetas, músicos e artistas plásticos bageenses que exploravam novas tendências em arte. Danúbio Gonçalves, Glauco Rodrigues, Glênio Bianchetti e Scliar se encontrariam mais tarde em Porto Alegre e em 1950 criariam o histórico Clube de Gravura. A partir daí, cada um trabalhando a seu modo, ingressaram no realismo regionalista e socialista. Em 1956, o Clube foi desfeito e os artistas tomaram rumos próprios, nas áreas de pintura, desenho e gravura. Mais tarde, Glauco e Scliar foram morar no Rio, e Glênio, em Brasília.

     Na metade dos anos 50, Scliar abandona a xilogravura e passa a dedicar-se à pintura e ao desenho. Em 1967, volta à gravura, através da serigrafia. O primeiro retrospecto de sua obra foi montado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, seguido de São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte.

     O ano passado foi de muitas comemorações para Scliar. Inaugurou duas exposições em Bolonha, na Itália, e enfrentou uma maratona de viagens e vernissages em comemoração aos seus 80 anos. O artista realizou exposições em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre.

     Scliar mantinha ateliês em Ouro Preto, Cabo Frio e Rio de Janeiro. Era apontado como um dos pilares da arte moderna no Brasil.

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