Feroz na militância
por transformações na sociedade e doce no trato pessoal e no apoio a artistas mais
jovens, Carlos Scliar viveu até os 80 anos criando uma obra que bebia na fonte do
cubismo, mas tratava esta referência de uma forma absolutamente pessoal. Nascido na
gaúcha Santa Maria em 1920, o pintor morreu ontem (sábado), às 5h, no Hospital
Silvestre, no Rio, de falência múltipla dos órgãos, em conseqüência de hepatite,
diabetes e hipertensão.
''Scliar foi um exemplo de
persistência ética, um batalhador pela arte e a cultura'', exaltou o artista plástico
Luiz Ernesto, diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, instituição que teve em
Scliar um aguerrido presidente da Associação de Amigos. Para Luiz Ernesto, a arte de
Scliar era facilmente identificável, com uma marca forte, mas ainda assim surpreendente.
''Ele tinha um olhar poético sobre o cotidiano. Nunca fez uma arte panfletária, nunca
seu trabalho foi ilustrativo de uma ideologia''.
''A fase inicial da obra
dele é muito boa, e todo o trabalho de arte gráfica, também'', ressalta Lauro
Cavalcanti, diretor do Paço Imperial. ''Scliar foi um grande artista e uma pessoa
adorável, representante perfeito de uma época em que o cinismo era menor e em que o
espírito de classe era maior''. Lauro lembra que, nos anos 70, Scliar costumava comprar
desenhos de artistas jovens como Cildo Meireles, Artur Barrio e Luiz Alphonsus,
praticamente viabilizando a carreira deles.
Pode-se dizer que Carlos
Scliar descobriu os primeiros traços da arte ainda na infância. ''A pintura entrou na
minha vida a reboque da literatura. Eu escrevia histórias infantis e, na falta de alguém
para ilustrar, fazia eu mesmo os desenhos. Acabei descobrindo que desenhava melhor do que
escrevia'', contou em uma entrevista. Aos 11 anos começou a colaborar nos cadernos
juvenis e infantis dos jornais gaúchos Diário de Notícias e Correio do Povo .
Aos 15 anos, já participava da sua primeira exposição.
Em 1944, quando já tinha
relativa fama como artista plástico, Scliar foi convocado pela Força Expedicionária
Brasileira para lutar na Itália. Muita gente foi contra, mas lutar ao lado dos aliados
era ''uma questão de dignidade''. Nos 11 meses em que permaneceu na Itália, produziu
cerca de 700 desenhos. ''Teria ficado maluco se não desenhasse durante a guerra. E os
desenhos acabaram se tornando importantes porque marcaram uma virada. Antes, meu trabalho
era muito social, influenciado por Segall e Portinari. Depois da FEB, passei a me
concentrar nos objetos, na paisagem que nos cerca'', analisou ele, um especialista em
naturezas-mortas.
Depois da Guerra, Scliar
voltou ao Brasil, deparou-se com a redemocratização pós-Vargas e inscreveu-se no
Partido Comunista. Em 1947, seguiu para Paris. Além da intenção de estudar pintura,
levava na bagagem uma carta de Luís Carlos Prestes como passaporte para ingressar no PC.
O pintor chegou a morar com o escritor Jorge Amado.
A intenção era ficar lá
para sempre, mas voltou ao Brasil em 1950, quando percebeu que, apesar de ser filho de
imigrantes, sua arte era brasileira. Sempre combativo, em 1954 participou do Salão em
Preto-e-branco, protesto contra os altos impostos sobre a importação de tintas que
chegou às paginas da revista Time. Dois anos depois, foi convidado por Vinicius de
Moraes para ser consultor plástico de Orfeu da Conceição.
Ainda nas artes gráficas,
tornou-se, em 1958, diretor de arte da revista Senhor. ''Foi a chave de ouro do meu
trabalho de artista gráfico. E neste momento, 1960, depois de 20 anos de trabalho, eu
pude viver apenas dele'', ressaltou em uma entrevista. Parte da segunda geração de
modernistas - um pouco mais jovem que Guignard e Cícero Dias -, só em 1960 Scliar passou
a se dedicar apenas à pintura, também montando ateliês em Cabo Frio e Ouro Preto.
Ativista, engajou-se na defesa da preservação das dunas das praias e do casario da
cidade histórica mineira.
Scliar começou a enfrentar
problemas de saúde em 1980, quando fez uma cirurgia para colocação de pontes de safena
e contraiu hepatite em uma transfusão de sangue. No ano passado, o pintor chegou a ficar
um mês internado em um hospital depois do lançamento do álbum 1500/2000. A
redescoberta do Brasil, produto que reuniu fotos, documentos, pinturas e gravuras de
Scliar nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento.
A representação do país
em sua obra é ampla. Há desde uma tela dedicada à Batalha dos Guararapes aos favelados
mortos na chacina de Vigário Geral, no Rio - obra feita a partir de uma primeira página
do Jornal do Brasil.
A última exposição de
Scliar foi no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, em dezembro do ano passado. Batizada
de Carlos Scliar 80 anos, ela retomava, na opinião do poeta e crítico Ferreira
Gullar, o melhor caminho estético do pintor, aquele que descendia do cubismo e trabalhava
com colagens de uma forma bem própria. ''Ele fez desse momento do cubismo uma linguagem
muito pessoal, criou toda a sua obra a partir daí. Sua última exposição era
excelente'', diz Gullar.
Scliar - que tem um filho
adotivo, três netos e dois bisnetos - será cremado amanhã, às 9h. O velório
acontecerá no mesmo dia, meia hora antes, no crematório São Francisco Xavier, no Caju.