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De bem com o mundo
O
artista plástico Carlos Scliar, morto em 29 de abril último, aos 80 anos, era conhecido
por seus amigos como um homem de quem se podia esperar ajuda. 'Além do Scliar, com quem
mais podemos contar?', brincavam os amigos Fausto Wolf, Ana Arruda e Lea Garcia, em
reuniões do Conselho Estadual de Cultura onde tudo poderia ser discutido, de ecologia a
futebol.
Seis meses após sua morte,
Scliar, lembrado pela obra 'inclassificável', por seu pintar e repintar quadros até o
limite da perfeição, poderá de novo, luxuosamente, auxiliar quem o procura como fonte
de inspiração.
Estúdios viram
espaços de cultura
No próximo ano, segundo
acredita seu filho, Francisco, um dos maiores sonhos do artista vira obra concreta: seus
antigos ateliês no bairro do Leblon, Rio, em Cabo Frio e Ouro Preto unem-se no Instituto
Cultural Carlos Scliar.
O projeto de criação do
instituto, viabilizado, deverá propiciar a exposição, ao público desses locais, de
cerca de 400 obras, entre gravuras, pinturas, esculturas e uma biblioteca de 2 mil
volumes.
Anotações inéditas e
todo o acervo pessoal do pintor integrarão o projeto, que reúne ainda obras de seu
acervo pessoal, de autoria de Tarsila do Amaral, Aldo Bonadei, Cildo Meirelles, Glauco
Rodrigues, Arthur Barrio, Farnese de Andrade, Ana Letícia e Ana Teresa Miranda, entre
outros.
Preservando a
memória
O objetivo do Instituto
Cultural Carlos Scliar é manter o trabalho do artista na memória nacional e incentivar,
por outro lado, o surgimento de novos talentos. 'Scliar sempre foi o padrinho dos artistas
mais novos', afirma Francisco.
No projeto, há a
possibilidade de visitação guiada, com convênio de organizações internacionais, num
intercâmbio de artistas. Existe ainda a palavra da Universidade Federal de Ouro Preto e
de outras duas empresas particulares, ainda em acordo embrionário, segundo Francisco,
interessadas em patrociná-lo.
Curiosidades integram
a coleção
Entre os destaques do
acervo a ser exibido ao público, além de colagens com tecidos feitas entre 1995 e 1996 e
retratos inéditos de artistas como Aldo Bonadei e Clóvis Graciano, estão um texto
inédito do escritor Antonio Callado, autor, em 1995, pela coleção Arte para Jovem, de
'Carlos Scliar: a Jarra que Pensa', e a última carta escrita por Mário de Andrade,
endereçada a Scliar.
Há ainda um arquivo inteiro de notícias e textos
que ele escrevia. 'Estava sempre com blocos nos quais definia a diretriz de seus
trabalhos, com desenhos e esboços', conta Francisco.
O aproveitamento
dos ateliês
Os ateliês de Cabo Frio (comprado em 1963), Ouro
Preto e Leblon (utilizado como escritório), juntos, serão a morada do Instituto
Cultural.
Cabo Frio será a sede do projeto. A casa é a mais
antiga, construída no início do século 18, e ainda conservando a forma original. A
idéia é reconstituir nela a sala de exposições de Scliar, a sala dos amigos, o espaço
multimídia, livraria e cafeteria.
A parte dos fundos da casa
será uma reserva técnica para servir de depósito de material. Há ainda a previsão de
criação de dois ateliês: de papel e de pintura, tudo para formar profissionais. 'Não
se formam artistas e sim profissionais', costumava dizer o artista.
Divulgação de novas
técnicas de pintura
Outro sonho de Scliar era
difundir sua técnica singular de pintura. O artista se definia como um 'desesperado pela
pintura' (trabalhava durante todo o dia e, às vezes, noite adentro). Dormia no meio dos
quadros, e não escapou a uma intoxicação, que o levou à busca de novas técnicas a
óleo.
Utilizou guache e têmpera
e, após outras tentativas, se fixou em uma técnica vinílica (com acabamento em cera)
que lhe foi apresentada pelo artista Glauco Rodrigues. Tal técnica, adotada em definitivo
por Scliar, é uma das curiosidades que aos poucos será revelada a respeito de sua obra
no Instituto. 'Seu sonho era difundir essa técnica e auxiliar o maior número de artistas
na formação de um profissional', conta Francisco.
Gaúcho de Santa
Maria
Um dos mais conceituados
artistas plásticos do Rio Grande do Sul, Carlos Scliar nasceu em Santa Maria, em 1920. Em
1931 passou a colaborar nos cadernos juvenis e infantis dos jornais 'Diário de Notícias'
e 'Correio do Povo', assim como na revista do Globo de Porto Alegre e no 'Jornal do Rio de
Janeiro', escrevendo e ilustrando poemas, contos e novelas.
Em 1935, participou como
pintor amador de exposições do Centenário Farroupilha em Porto Alegre e em 1938 foi um
dos fundadores e primeiro secretário da Associação de Artes Plásticas Francisco
Lisboa, que funciona até hoje. Em 1940, em São Paulo, colaborou na 'Revista Cultura'.
No campo de batalha,
valorizou a vida
De 1944 a 1945, esteve no
front de guerra na Itália, atuando na artilharia. Em entrevistas, assim definiu este
período: 'Eu era, senão um pessimista, quase um cético: me descobri então um lírico
visceralmente otimista - com uma tremenda confiança na humanidade.'
Foi durante este
período que Scliar começou a desenhar e pintar naturezas-mortas, 'pretextos para
demonstrar meu amor às coisas simples, cotidianas, feitas pelos homens, úteis a todos os
homens'.
O Clube da Gravura
Em 1947, Scliar viajou para
Paris, retornando ao Brasil em fins de 1950. Durante sua permanência na capital francesa
estudou tudo o que se referia a colagens.
Fez algumas experiências
estudando as obras de Picasso, Braque e Juan Gris (somente 15 anos depois, em Ouro Preto,
utilizou a colagem pela primeira vez).
Ao voltar ao Rio, na
década de 50, encontrou Rio e São Paulo com um número crescente de museus e, a partir
de 1951, de bienais.
Ao voltar para o Rio Grande
do Sul, foi um dos criadores do Clube de Gravura, uma escola livre, com modelo vivo para
desenho, discussões, edições e todo tipo de laboratório. Durante anos, passou a
desenhando e pintando temas gaúchos.
A arte sem
restrições
Em 1955, Scliar fez um
balanço de seu principais trabalhos e resolveu mostrá-los no Rio e em São Paulo. De
1958 a 1960 foi diretor de arte da revista 'Senhor' e, a partir de 1960 (até o final de
sua vida), só trabalhou com arte.
Sempre cercado por amigos,
em 1956, no Rio, foi convidado por Vinícius de Moraes a atuar como consultor plástico do
filme Orfeu da Conceição.
Embora generoso, Scliar
não admitia ser rotulado em nenhuma categoria artística.
«O que vale é o trabalho
realizado. O conceito desvinculado da obra é papo furado. Estou de acordo que tudo pode e
deve ser discutido, mas é condição básica que a qualidade de quem discute seja menos o
brilho de argumentos de biblioteca do que conceitos nascidos de uma vivência real.»
O sonho de pintar
O artista nunca escondeu sua admiração por
Cândido Portinari. Ele o tinha como grande mestre e, desde sua primeira viagem ao Rio, em
1939, nutria o sonho de ser discípulo do artista para aprender a pintar painéis. Achava
que a obra de arte deveria ser útil e transmitir às pessoas idéias capazes de
desencadear, em cada espectador, um processo de criação ininterrupto.
Escreveu certa vez sobre o
sonho de pintar:
«Um processo que fosse
irreversível, que fizesse de cada pessoa alguém consciente de que o mundo é bem maior
do que pensamos, mas que o mundo somos nós. Todos pensando e atuando. E todas essas
idéias, talvez, não tão claramente expostas, mas exatamente nessa ordem de pensamento,
me moviam nessa vontade de atuar em algo que atingisse muitas pessoas.»
Maria Cecília Negrão
Investnews/Gazeta Mercantil
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