Ateliês de Scliar viram
Espaços Culturais

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Sexta, 09 de novembro de 2001, 15h55
Fonte: Brasil Online.

 
 


De bem com o mundo

     O artista plástico Carlos Scliar, morto em 29 de abril último, aos 80 anos, era conhecido por seus amigos como um homem de quem se podia esperar ajuda. 'Além do Scliar, com quem mais podemos contar?', brincavam os amigos Fausto Wolf, Ana Arruda e Lea Garcia, em reuniões do Conselho Estadual de Cultura onde tudo poderia ser discutido, de ecologia a futebol.

     Seis meses após sua morte, Scliar, lembrado pela obra 'inclassificável', por seu pintar e repintar quadros até o limite da perfeição, poderá de novo, luxuosamente, auxiliar quem o procura como fonte de inspiração.

Estúdios viram espaços de cultura

     No próximo ano, segundo acredita seu filho, Francisco, um dos maiores sonhos do artista vira obra concreta: seus antigos ateliês no bairro do Leblon, Rio, em Cabo Frio e Ouro Preto unem-se no Instituto Cultural Carlos Scliar.

     O projeto de criação do instituto, viabilizado, deverá propiciar a exposição, ao público desses locais, de cerca de 400 obras, entre gravuras, pinturas, esculturas e uma biblioteca de 2 mil volumes.

     Anotações inéditas e todo o acervo pessoal do pintor integrarão o projeto, que reúne ainda obras de seu acervo pessoal, de autoria de Tarsila do Amaral, Aldo Bonadei, Cildo Meirelles, Glauco Rodrigues, Arthur Barrio, Farnese de Andrade, Ana Letícia e Ana Teresa Miranda, entre outros.

Preservando a memória

     O objetivo do Instituto Cultural Carlos Scliar é manter o trabalho do artista na memória nacional e incentivar, por outro lado, o surgimento de novos talentos. 'Scliar sempre foi o padrinho dos artistas mais novos', afirma Francisco.

     No projeto, há a possibilidade de visitação guiada, com convênio de organizações internacionais, num intercâmbio de artistas. Existe ainda a palavra da Universidade Federal de Ouro Preto e de outras duas empresas particulares, ainda em acordo embrionário, segundo Francisco, interessadas em patrociná-lo.

Curiosidades integram
a coleção

     Entre os destaques do acervo a ser exibido ao público, além de colagens com tecidos feitas entre 1995 e 1996 e retratos inéditos de artistas como Aldo Bonadei e Clóvis Graciano, estão um texto inédito do escritor Antonio Callado, autor, em 1995, pela coleção Arte para Jovem, de 'Carlos Scliar: a Jarra que Pensa', e a última carta escrita por Mário de Andrade, endereçada a Scliar.

Há ainda um arquivo inteiro de notícias e textos que ele escrevia. 'Estava sempre com blocos nos quais definia a diretriz de seus trabalhos, com desenhos e esboços', conta Francisco.

O aproveitamento
dos ateliês

Os ateliês de Cabo Frio (comprado em 1963), Ouro Preto e Leblon (utilizado como escritório), juntos, serão a morada do Instituto Cultural.

Cabo Frio será a sede do projeto. A casa é a mais antiga, construída no início do século 18, e ainda conservando a forma original. A idéia é reconstituir nela a sala de exposições de Scliar, a sala dos amigos, o espaço multimídia, livraria e cafeteria.

     A parte dos fundos da casa será uma reserva técnica para servir de depósito de material. Há ainda a previsão de criação de dois ateliês: de papel e de pintura, tudo para formar profissionais. 'Não se formam artistas e sim profissionais', costumava dizer o artista.

Divulgação de novas
técnicas de pintura

     Outro sonho de Scliar era difundir sua técnica singular de pintura. O artista se definia como um 'desesperado pela pintura' (trabalhava durante todo o dia e, às vezes, noite adentro). Dormia no meio dos quadros, e não escapou a uma intoxicação, que o levou à busca de novas técnicas a óleo.

     Utilizou guache e têmpera e, após outras tentativas, se fixou em uma técnica vinílica (com acabamento em cera) que lhe foi apresentada pelo artista Glauco Rodrigues. Tal técnica, adotada em definitivo por Scliar, é uma das curiosidades que aos poucos será revelada a respeito de sua obra no Instituto. 'Seu sonho era difundir essa técnica e auxiliar o maior número de artistas na formação de um profissional', conta Francisco.

Gaúcho de Santa Maria

     Um dos mais conceituados artistas plásticos do Rio Grande do Sul, Carlos Scliar nasceu em Santa Maria, em 1920. Em 1931 passou a colaborar nos cadernos juvenis e infantis dos jornais 'Diário de Notícias' e 'Correio do Povo', assim como na revista do Globo de Porto Alegre e no 'Jornal do Rio de Janeiro', escrevendo e ilustrando poemas, contos e novelas.

     Em 1935, participou como pintor amador de exposições do Centenário Farroupilha em Porto Alegre e em 1938 foi um dos fundadores e primeiro secretário da Associação de Artes Plásticas Francisco Lisboa, que funciona até hoje. Em 1940, em São Paulo, colaborou na 'Revista Cultura'.

No campo de batalha,
valorizou a vida

     De 1944 a 1945, esteve no front de guerra na Itália, atuando na artilharia. Em entrevistas, assim definiu este período: 'Eu era, senão um pessimista, quase um cético: me descobri então um lírico visceralmente otimista - com uma tremenda confiança na humanidade.'

      Foi durante este período que Scliar começou a desenhar e pintar naturezas-mortas, 'pretextos para demonstrar meu amor às coisas simples, cotidianas, feitas pelos homens, úteis a todos os homens'.

O Clube da Gravura

     Em 1947, Scliar viajou para Paris, retornando ao Brasil em fins de 1950. Durante sua permanência na capital francesa estudou tudo o que se referia a colagens.

     Fez algumas experiências estudando as obras de Picasso, Braque e Juan Gris (somente 15 anos depois, em Ouro Preto, utilizou a colagem pela primeira vez).

     Ao voltar ao Rio, na década de 50, encontrou Rio e São Paulo com um número crescente de museus e, a partir de 1951, de bienais.

     Ao voltar para o Rio Grande do Sul, foi um dos criadores do Clube de Gravura, uma escola livre, com modelo vivo para desenho, discussões, edições e todo tipo de laboratório. Durante anos, passou a desenhando e pintando temas gaúchos.

A arte sem restrições

     Em 1955, Scliar fez um balanço de seu principais trabalhos e resolveu mostrá-los no Rio e em São Paulo. De 1958 a 1960 foi diretor de arte da revista 'Senhor' e, a partir de 1960 (até o final de sua vida), só trabalhou com arte.

     Sempre cercado por amigos, em 1956, no Rio, foi convidado por Vinícius de Moraes a atuar como consultor plástico do filme Orfeu da Conceição.

     Embora generoso, Scliar não admitia ser rotulado em nenhuma categoria artística.

     «O que vale é o trabalho realizado. O conceito desvinculado da obra é papo furado. Estou de acordo que tudo pode e deve ser discutido, mas é condição básica que a qualidade de quem discute seja menos o brilho de argumentos de biblioteca do que conceitos nascidos de uma vivência real.»

O sonho de pintar

O artista nunca escondeu sua admiração por Cândido Portinari. Ele o tinha como grande mestre e, desde sua primeira viagem ao Rio, em 1939, nutria o sonho de ser discípulo do artista para aprender a pintar painéis. Achava que a obra de arte deveria ser útil e transmitir às pessoas idéias capazes de desencadear, em cada espectador, um processo de criação ininterrupto.

     Escreveu certa vez sobre o sonho de pintar:

     «Um processo que fosse irreversível, que fizesse de cada pessoa alguém consciente de que o mundo é bem maior do que pensamos, mas que o mundo somos nós. Todos pensando e atuando. E todas essas idéias, talvez, não tão claramente expostas, mas exatamente nessa ordem de pensamento, me moviam nessa vontade de atuar em algo que atingisse muitas pessoas.»

Maria Cecília Negrão
Investnews/Gazeta Mercantil
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