Lasar Segall
(1891-1957)

A boca do lobo

     Foi um ato de temeridade, para não dizer, de insânia total, a decisão de Lasar Segall de retornar à Alemanha naquele ano de 1913, quando os países da Europa, reunidos em torno de alianças espúrias e acordos secretos, faziam seus preparativos para um confronto que a qualquer momento deveria estourar, de cujas extensão e graves consequências o mundo só viria a saber nos anos seguintes.

     A Europa era um barril de pólvora e bastaria um incidente, um simples incidente, para atear fogo a ele, causando um incêndio incontrolável e criando uma situação irreversível. O incidente veio com o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando de Habsburgo, herdeiro do trono austro-húngaro, por um nacionalista sérvio, em 28 de junho de 1914. Dias depois, o mundo estava envolvido em uma conflagração mundial que duraria quatro anos, na qual se envolveram 32 nações, colocando em lados opostos a Alemanha, país em que Segall se achava naquele momento, e a Rússia, que lhe dera o passaporte.

     Segall tinha tudo contra ele e nada a seu favor. Era lituano de nascimento e a Lituânia achava-se ocupada pela Rússia czarista. Querendo ou não, seu passaporte dava-lhe o qualificativo de cidadão russo e, portanto, inimigo da Alemanha, que se juntara à Áustria, Turquia e Bulgária, na luta contra os outros 28 países aliados, dentre os quais a Rússia.

     E, para complicar as coisas, ele era ainda judeu, uma raça que, em tempo de paz, contava apenas com tolerância na Alemanha, mas, em tempo de guerra, tornava-se o primeiro alvo do ódio, da perseguição e da morte. Somando-se a tudo isso, era um artista, o que, para o comando do exército imperial, valia como sinônimo de desocupado.

O campo de concentração

    Não havia mais como fugir, não havia lugar seguro para se esconder, não havia a quem apelar, dado que seus ex-professores e seus amigos, embora alemães, também pertenciam à raça judaica. Assim, o inevitável acabou acontecendo. Um dia, foi localizado pelo serviço de repressão a estrangeiros, preso e levado a um campo de concentração de Meissen, às margens do rio Elba.

     O pintor tinha razões para temer. Em sua cidade natal, Vilna, na distante e agora ocupada Lituânia, já tivera contato com campos de concentração, naquela época montados pela repressão da Rússia czarista. Agora, vivia na própria carne a experiência dos campos malditos, presenciando do lado de dentro, o resultado satânico da loucura desvairada, associada ao poder sem o controle da lei.

     Foi uma experiência que durou dois anos, até que alguma autoridade, de maior peso e com o juízo ainda no lugar, percebeu que aquele jovem de vinte e poucos anos, revolucionário das tintas e dos pincéis, com um passado limpo e dedicado apenas à pintura, não representava ameaça ao país, sendo então expedido um salvo-conduto que lhe permitiu voltar a Dresden, não longe dali, e retomar suas atividades artísticas.

Rebelde, mas estudioso

    Lasar Segal nasceu em 21 de julho de 1891 em Vilna, capital da Lituânia, na época sob ocupação da Rússia. Morreu em São Paulo, Brasil, em 2 de agosto de 1957, como cidadão brasileiro, deixando um vasto acervo que focaliza não apenas a beleza mas, sobretudo, a miséria que presenciara em sua jornada pela vida.

     Ainda em sua terra, teve uma breve aproximação com o escultor judeu-russo Markus Matveïevitch Antokolski (21.10.1843-14.07.1902), importante mestre da escola russa, que lhe deu os primeiros ensinamentos de escultura e gravura, aconselhando-o a mudar-se a Paris, se pretendesse, mesmo, dedicar-se à arte.

     Foi seguindo os conselhos de seu professor que, ainda na adolescência, seguiu para a França, via Alemanha, mas de tal forma ficou fascinado com o desenvolvimento das artes germânicas que por aí mesmo ficou, matriculando-se, em 1906, na Academia de Belas Artes de Berlim.

     Três anos depois, participou de um movimento dissidente, conhecido como Secessão, e foi expulso da escola, tendo de mudar-se para Dresden onde fez nova matrícula, desta vez na Escola de Belas-Artes da cidade, onde, pelos conhecimentos que já possuía, foi aceito como assistente-aluno.

     Assim, ao mesmo tempo em que se aperfeiçoava, também transmitia conhecimentos a outros alunos menos avançados e, pela primeira vez, teve o privilégio de manter um ateliê próprio e independente dentro da escola.

     Foi nesse mesmo ano que realizou, na Galeria Gurlitt, sua primeira individual, ainda com quadros de tendência impressionista, seguindo os ensinamento de seus primeiros mestres na Alemanha.

Buscando uma nova pátria

     Se em 1912, na juventude de seus 21 anos, Lasar Segall não sabia exatamente o que queria, sabia ao menos, de forma bem clara, o que não desejava. A pintura estática não lhe satisfazia o espírito criativo. Para expor a vida com efetividade, era preciso distorcê-la, ressaltar cada momento e cada detalhe, traduzir explicitamente a realidade que conseguia ver, mas que a pintura acadêmica não permitia mostrar.  Esse propósito levou-o, pois, a uma aproximação natural ao Expressionismo, a que se ligaria para o resto de sua vida.

     Depois de uma ligeira estada na Holanda, ainda em 1912, partiu para o Brasil e, no ano seguinte, organizou duas individuais com quadros expressionistas, uma em São Paulo e outra em Campinas.

     Lasar colocava muitas esperanças em nosso país, mas o Brasil não se achava maduro o suficiente para aceitar o Expressionismo como forma de arte. Conquanto não tenha suscitado a reação irada dos visitantes, como viria acontecer com Anita Malfatti anos após, a recepção do público se revelou fria e apática; não lhe foi hostil mas indiferente, de uma indiferença que machucava mais que as críticas. Não despertou, também, o interesse de mecenas que, como bons investidores, não arriscariam um centavo de seu capital naqueles quadros.

     Descrente das possibilidades do desenvolvimento do Expressionismo no Brasil, ao menos naquele momento,  voltou à Europa, vivendo então, inesperadamente, as situações criadas pela conflagração mundial, episódio que narramos na abertura deste texto.

De volta, para sempre

     O Brasil, onde estivera por tão pouco tempo, não lhe saia da mente e, dez anos depois de o ter deixado, estava de volta, encontrando agora um ambiente artístico totalmente modificado. Em 1917, tinha havido a exposição de Anita; em 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna que, a despeito das reações negativas que suscitou, deixou patente que o país já estava preparado para uma renovação cultural.

     Ao desembarcar, pois, em 1923, aos 32 anos de idade, confiava em que o Brasil poderia tornar-se a pátria que vinha procurando pela vida afora. Instalou seu ateliê em São Paulo e passou a alternar as atividades entre esta cidade e o Rio de Janeiro. Vencidos os trâmites legais, naturalizou-se, assumindo em definitivo a cidadania brasileira.

     Já em 1924, realiza uma individual em São Paulo, desta vez, com grande sucesso. Recebe no ateliê suas primeiras alunas de pintura expressionista. Em 1925, casa-se com uma delas, a pintora Jenny Klabin, da qual só a própria morte viria a separá-lo, 32 anos depois.

     E os temas brasileiros, que tanto o apaixonaram, passam a povoar suas obras, juntamente com as tragédias que presenciara em sua terra natal e na Alemanha.

     Surgem cenas familiares, destacando o interior pobre das casas, os rostos sofridos de seus moradores. Cenas que  retratavam simplesmente o conformismo de uma rotina imutável, jamais o desespero de quem deseja, mas não pode, mudar as circunstâncias.

     No desenvolvimento de seu trabalho, utiliza-se não apenas de óleo sobre tela, mas também de processos de gravura que aprendera ainda na Rússia de sua adolescência, como a litogravura e a zincografia, desenvolvendo, pois, uma obra de grande versatilidade.

     Um breve parêntesis para as cenas bucólicas de Campos do Jordão e ei-lo de retorno à temática que o acompanhou pela vida: o registro da pobreza, da miséria, da prostituição, da indigência e a força brutal aplicada pelos mais fortes contra os desvalidos da sorte.

Pintor ou sociólogo?

     A atração obsessiva pelos seres humanos, interagindo e formando conjuntos ordenados de vidas, de dramas e de tramas, torna Lasar Segall, mais que pintor, um sociólogo, usando pincéis e tintas para descrever os problemas do Brasil ou do universo. Criando séries temáticas, em cada uma delas sintetiza um problema, disseca-o, expõe-no à opinião pública, ainda que sem apontar-lhe soluções, o que iria além do trabalho de um artista.

     Mas ali esta, em sua obra, o Brasil verdadeiro, exposto nas casas pobres das favelas, ou no submundo do Mangue, ou no olhar cansado e decepcionado dos imigrantes, ou no ambiente depressivo de uma casa onde a penúria se constituíra em padrão de vida, ou ainda no olhar perdido do marinheiro e da prostituta, os dois tão juntos e, ao mesmo tempo, tão distantes, perdidos no espaço de suas vidas, tão diferentes entre si mas, igualmente, tão iguais, nivelados pela miséria que os rodeia.

Iluminando o futuro

   Segall era um homem profundamente imerso no mundo em que vivia. Não lhe impunha quaisquer limitações, mas o aceitava por inteiro.

     Amava a casa, de estilo modernista, em Vila Mariana, São Paulo, onde morava com a família. Seu quintal era uma mistura de jardim botânico com jardim zoológico. Convivia com plantas de todas espécies e se entretinha com pequenos animais que acolhia sob seu abrigo e depois não tinha coragem de mandá-los embora.

     Vestia-se com apuro e não descuidava da indumentária nem mesmo quando saía pelas circunvizinhanças. Gostava de andar a pé, caminhar pelas calçadas, contemplar a paisagem e os transeuntes, como se todo esse conjunto fizesse parte de sua vida. E fazia.

     Seu casamento com Jenny Klabin foi um idílio que durou 32 anos. Com freqüencia, saiam a dar uma volta, na penumbra da noite, pelos quarteirões mal iluminados, trocando as juras de eternos namorados.

     Na volta à casa, Segall tirava dos bolsos alguns biscoitos, jogando-os ao cachorro que guardava o imóvel, distraindo-o  enquanto o casal conseguia entrar para a residência. Quando o animal não se deixava levar pelo afago, então, o jeito era chamar pelo filho mais velho, Maurício Segall, o único que o cão reconhecia como legítimo dono, e de quem aceitava ordens.

     A madrugada de 2 de agosto de 1957 marcou o fim do velho guerreiro. Atingido por um ataque fulminante, não teve tempo de ser assistido pelos médicos e veio a falecer. Foi o fim do corpo, porque sua alma se acha presente na mesma casa em que viveu, transformada em museu, com um acervo de 2.500 obras, e onde funciona ainda uma Biblioteca, organizada por sua mulher, que era escritora e tradutora.

Texto de Paulo Victorino

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