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A boca do lobo
Foi
um ato de temeridade, para não dizer, de insânia total, a decisão de Lasar Segall de
retornar à Alemanha naquele ano de 1913, quando os países da Europa, reunidos em torno
de alianças espúrias e acordos secretos, faziam seus preparativos para um confronto que
a qualquer momento deveria estourar, de cujas extensão e graves conseqüências o mundo
só viria a saber nos anos seguintes.
A Europa era um barril de pólvora e bastaria um incidente, um simples incidente, para
atear fogo a ele, causando um incêndio incontrolável e criando uma situação
irreversível. O incidente veio com o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando de
Habsburgo, herdeiro do trono austro-hungaro, por um nacionalista sérvio, em 28 de junho
de 1914. Dias depois, o mundo estava envolvido em uma conflagração mundial que duraria
quatro anos, na qual se envolveram 32 nações, colocando em lados opostos a Alemanha,
país em que Segall se achava naquele momento, e a Rússia, que lhe dera o passaporte.
Segall
tinha tudo contra ele e nada a seu favor. Era lituano de nascimento e a Lituânia
achava-se ocupada pela Rússia csarista. Querendo ou não, seu passaporte dava-lhe o
qualificativo de cidadão russo e, portanto, inimigo da Alemanha, que se juntara à
Austria, Turquia e Bulgária, na luta contra os outros 28 países aliados, dentre os quais
a Rússia.
E, para
complicar as coisas, ele era ainda judeu, uma raça que, em tempo de paz, contava apenas
com tolerância na Alemanha, mas, em tempo de guerra, tornava-se o primeiro alvo do ódio,
da perseguição e da morte. Somando-se a tudo isso, era um artista, o que, para o comando
do exército imperial, valia como sinônimo de desocupado.
O campo de
concentração
Não havia mais como fugir, não havia lugar seguro para se esconder, não havia a quem
apelar, dado que seus ex-professores e seus amigos, embora alemães, também pertenciam à
raça judaica. Assim, o inevitável acabou acontecendo. Um dia, foi localizado pelo
serviço de repressão a estrangeiros, preso e levado a um campo de concentração de
Meissen, às margens do rio Elba.
O pintor
tinha razões para temer. Em sua cidade natal, Vilna, na distante e agora ocupada
Lituânia, já tivera contato com campos de concentração, naquela época montados pela
repressão da Rússia csarista. Agora, vivia na própria carne a experiência dos campos
malditos, presenciando do lado de dentro, o resultado satânico da loucura desvairada,
associada ao poder sem o controle da lei.
Foi uma
experiência que durou dois anos, até que alguma autoridade, de maior peso e com o juízo
ainda no lugar, percebeu que aquele jovem de vinte e poucos anos, revolucionário das
tintas e dos pincéis, com um passado limpo e dedicado apenas à pintura, não
representava ameaça ao país, sendo então expedido um salvo-conduto que lhe permitiu
voltar a Dresden, não longe dali, e retomar suas atividades artísticas.
Rebelde, mas
estudioso
Lasar Segal nasceu em 21 de julho de 1891 em Vilna, capital da Lituânia, na época sob
ocupação da Rússia. Morreu em São Paulo, Brasil, em 2 de agosto de 1957, como cidadão
brasileiro, deixando um vasto acervo que focaliza não apenas a beleza mas, sobretudo, a
miséria que presenciara em sua jornada pela vida.
Ainda em
sua terra, teve uma breve aproximação com o escultor judeu-russo Markus Matveïevitch
Antokolski (21.10.1843-14.07.1902), importante mestre da escola russa, que lhe deu os
primeiros ensinamentos de escultura e gravura, aconselhando-o a mudar-se a Paris, se
pretendesse, mesmo, dedicar-se à arte.
Foi
seguindo os conselhos de seu professor que, ainda na adolescência, seguiu para a França,
via Alemanha, mas de tal forma ficou fascinado com o desenvolvimento das artes germânicas
que por aí mesmo ficou, matriculando-se, em 1906, na Academia de Belas Artes de Berlim.
Três anos
depois, participou de um movimento dissidente, conhecido como Secessão, e foi expulso da
escola, tendo de mudar-se para Dresden onde fez nova matrícula, desta vez na Escola de
Belas-Artes da cidade, onde, pelos conhecimentos que já possuía, foi aceito como
assistente-aluno.
Assim, ao
mesmo tempo em que se aperfeiçoava, também transmitia conhecimentos a outros alunos
menos avançados e, pela primeira vez, teve o privilégio de manter um ateliê próprio e
independente dentro da escola.
Foi nesse
mesmo ano que realizou, na Galeria Gurlitt, sua primeira individual, ainda com quadros de
tendência impressionista, seguindo os ensinamento de seus primeiros mestres na Alemanha.
Buscando uma
nova pátria
Se em 1912, na juventude de seus 21 anos, Lasar Segall não sabia exatamente o que queria,
sabia ao menos, de forma bem clara, o que não desejava. A pintura estática não lhe
satisfazia o espírito criativo. Para expor a vida com efetividade, era preciso
distorcê-la, ressaltar cada momento e cada detalhe, traduzir explicitamente a realidade
que conseguia ver, mas que a pintura acadêmica não permitia mostrar. Esse
propósito levou-o, pois, a uma aproximação natural ao Expressionismo, a que se ligaria
para o resto de sua vida.
Depois de
uma ligeira estada na Holanda, ainda em 1912, partiu para o Brasil e, no ano seguinte,
organizou duas individuais com quadros expressionistas, uma em São Paulo e outra em
Campinas.
Lasar
colocava muitas esperanças em nosso país, mas o Brasil não se achava maduro o
suficiente para aceitar o Expressionismo como forma de arte. Conquanto não tenha
suscitado a reação irada dos visitantes, como viria acontecer com Anita Malfatti anos
após, a recepção do público se revelou fria e apática; não lhe foi hostil mas
indiferente, de uma indiferença que machucava mais que as críticas. Não despertou,
também, o interesse de mecenas que, como bons investidores, não arriscariam um centavo
de seu capital naqueles quadros.
Descrente
das possibilidades do desenvolvimento do Expressionismo no Brasil, ao menos naquele
momento, voltou à Europa, vivendo então, inesperadamente, as situações criadas
pela conflagração mundial, episódio que narramos na abertura deste texto.
De volta,
para sempre
O Brasil, onde estivera por tão pouco tempo, não lhe saia da mente e, dez anos depois de
o ter deixado, estava de volta, encontrando agora um ambiente artístico totalmente
modificado. Em 1917, tinha havido a exposição de Anita; em 1922, aconteceu a Semana de
Arte Moderna que, a despeito das reações negativas que suscitou, deixou patente que o
país já estava preparado para uma renovação cultural.
Ao
desembarcar, pois, em 1923, aos 32 anos de idade, confiava em que o Brasil poderia
tornar-se a pátria que vinha procurando pela vida afora. Instalou seu ateliê em São
Paulo e passou a alternar as atividades entre esta cidade e o Rio de Janeiro. Vencidos os
trâmites legais, naturalizou-se, assumindo em definitivo a cidadania brasileira.
Já em
1924, realiza uma individual em São Paulo, desta vez, com grande sucesso. Recebe no
ateliê suas primeiras alunas de pintura expressionista. Em 1925, casa-se com uma delas, a
pintora Jenny Klabin, da qual só a própria morte viria a separá-lo, 32 anos depois.
E os temas
brasileiros, que tanto o apaixonaram, passam a povoar suas obras, juntamente com as
tragédias que presenciara em sua terra natal e na Alemanha.
Surgem
cenas familiares, destacando o interior pobre das casas, os rostos sofridos de seus
moradores. Cenas que retratavam simplestente o conformismo de uma rotina imutável,
jamais o desespero de quem deseja, mas não pode, mudar as circunstâncias.
No
desenvolvimento de seu trabalho, utiliza-se não apenas de óleo sobre tela, mas também
de processos de gravura que aprendera ainda na Rússia de sua adolescência, como a
litogravura e a zincografia, desenvolvendo, pois, uma obra de grande versatilidade.
Um breve
parêntesis para as cenas bucólicas de Campos do Jordão e ei-lo de retorno à temática
que o acompanhou pela vida: o registro da pobreza, da miséria, da prostituição, da
indigência e a força brutal aplicada pelos mais fortes contra os desvalidos da sorte.
Pintor ou
sociólogo?
A atração obsessiva pelos seres humanos, interagindo e formando conjuntos ordenados de
vidas, de dramas e de tramas, torna Lasar Segall, mais que pintor, um sociólogo, usando
pincéis e tintas para descrever os problemas do Brasil ou do universo. Criando séries
temáticas, em cada uma delas sintetiza um problema, disseca-o, expõe-no à opinião
pública, ainda que sem apontar-lhe soluções, o que iria além do trabalho de um
artista.
Mas ali
esta, em sua obra, o Brasil verdadeiro, exposto nas casas pobres das favelas, ou no
submundo do Mangue, ou no olhar cansado e decepcionado dos imigrantes, ou no ambiente
depressivo de uma casa onde a penúria se constituíra em padrão de vida, ou ainda no
olhar perdido do marinheiro e da prostituta, os dois tão juntos e, ao mesmo tempo, tão
distantes, perdidos no espaço de suas vidas, tão diferentes entre si mas, igualmente,
tão iguais, nivelados pela miséria que os rodeia.
Iluminando
o futuro
Segall
era um homem profundamente imerso no mundo em que vivia. Não lhe impunha quaisquer
limitações, mas o aceitava por inteiro.
Amava a
casa, de estilo modernista, em Vila Mariana, São Paulo, onde morava com a família. Seu
quintal era uma mistura de jardim botânico com jardim zoológico. Convivia com plantas de
todas espécies e se entretinha com pequenos animais que acolhia sob seu abrigo e depois
não tinha coragem de mandá-los embora.
Vestia-se
com apuro e não descuidava da indumentária nem mesmo quando saía pelas
circunvizinhanças. Gostava de andar a pé, caminhar pelas calçadas, contemplar a
paisagem e os transeuntes, como se todo esse conjunto fizesse parte de sua vida. E fazia.
Seu
casamento com Jenny Klabin foi um idílio que durou 32 anos. Com freqüencia, saiam a dar
uma volta, na penumbra da noite, pelos quarteirões mal iluminados, trocando as juras de
eternos namorados.
Na volta à
casa, Segall tirava dos bolsos alguns biscoitos, jogando-os ao cachorro que guardava o
imóvel, distraindo-o enquanto o casal conseguia entrar para a residência. Quando o
animal não se deixava levar pelo afago, então, o jeito era chamar pelo filho mais velho,
Maurício Segall, o único que o cão reconhecia como legítimo dono, e de quem aceitava
ordens.
A madrugada de 2 de agosto
de 1957 marcou o fim do velho guerreiro. Atingido por um ataque fulminante, não teve
tempo de ser assistido pelos médicos e veio a falecer. Foi o fim do corpo, porque sua
alma se acha presente na mesma casa em que viveu, transformada em museu, com um acervo de
2.500 obras, e onde funciona ainda uma Biblioteca, organizada por sua mulher, que era
escritora e tradutora.
Texto de Paulo Victorino
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