| |
Não vale um
pé-de-moleque
«Estávamos eu, Milton da Costa e o Sylvio Pinto na Ilha do Governador, quando chegou um
garoto vendendo pés-de-moleque. O Pinto dirige-se ao guri e pergunta se ele quer trocar
seis doces pelo quadro que estava no seu cavalete e o garoto se afastou, assustado:
"Tá besta?!"
«O
pintor balançou a cabeça, pensou um pouco, olhou uma vez mais o quadro no cavalete e
saiu-se com essa: "Isso é que é: não vale um pé-de-moleque..."»
Quem
relembra esta passagem é Bustamante Sá (1907-1988) que, juntamente com José Pancetti
(1902-1958), foi um dos grandes amigos de Sylvio Pinto, formando os três uma parceria
indissolúvel, chegando mesmo a montar juntos um ateliê de trabalho.
Uma família de
artistas
Sylvio
Pinto nasceu no Rio de Janeiro em 17 de março de 1918 e faleceu na mesma cidade em 3 de
abril de 1997. Sua personalidade se confunde com a própria alma carioca e sua obra é o
retrato, em corpo inteiro, da Cidade Maravilhosa. No Rio de Janeiro, ele foi decorador de
carroças e charretes, presidente de escola de samba, vibrou com os desfiles da Mangueira
e viveu como poucos a boemia.
Não
vinha de família abastada, mas também não passou uma vida de privações. Igualmente,
não precisou ganhar a vida em serviços alheios à arte. Seu pai era o pintor Bernardo
Pinto da Silva, português de nascimento e proprietário de uma oficina de pinturas no Rio
de Janeiro com vários empregados.
Tinha
oito irmãos, alguns dos quais trabalhavam nessa oficina e foi lá que ele começou a vida
de artista, pintando carroçarias, decorando paredes de bares ou restaurantes e até
executando serviços em carros funerários, caixões e velórios. Isso era perfeitamente
natural e compreensível, numa época em que tudo, inclusive a morte, era tratado com
pompa e requinte e não se enquadrava a pintura nos estreitos limites de uma tela.
Os grupos de
pintura
Logo na
adolescência, passou a dedicar-se com interesse à pintura em tela, incentivado que foi
por Armando Vianna. Mais tarde, fez amizade com o grande marinhista José Pancetti, uma
das grandes amizades que conservou pela vida inteira e de quem sofreu forte influência,
visível em muitas de suas obras.
Ao
contrário de hoje, os artistas gostavam de se reunir, trocando idéias e formulando
projetos. Sylvio Pinto, extrovertido que era, muito aproveitou desses ambientes seletos.
No início os anos 30, juntou-se ao Grupo Bernardelli, com Pancetti, Bustamante Sá,
Malagoli, Milton da Costa e outros, valendo-se todos da preciosa orientação do mestre
Manuel Santiago.
Por volta
de 1938, passou a freqüentar também os ambientes artísticos da rua São José,
especialmente o Café Gaúcho e a Casa Cavalier. Na falta de galerias e pela escassez de
exposições, era ali que os pintores expunham suas obras e era para lá que os
interessados se dirigiam a fim de comprar obras de arte.
A primeira chance:
Europa
Mas seu
trabalho somente começou a ser notado a partir de 1951, quando participou da 1ª Bienal
de São Paulo e especialmente em 1952, quando, expondo no Salão Nacional de Belas Artes o
quadro Ladeira em Santa Teresa, ganhou o cobiçado prêmio de viagem à Europa.
Esse ano
lhe trouxe dois acontecimentos marcantes: o prêmio que recebera e, no reverso da medalha,
a morte de seu pai, esteio financeiro e moral da família e incentivador da arte, não só
de Sylvio como dos demais irmãos. Foi uma perda irreparável, que o prêmio, nem de
longe, poderia substituir.
Em 1953,
Sylvio Pinto reúne sua mulher Esperança e seus quatro filhos e viaja para Portugal, onde
conhece o poeta Olegário Mariano, embaixador brasileiro naquele país. Depois, atravessa
as fronteiras, vai a Madri e Toledo, corta os Alpes e chega até Roma, visitando ainda
outras cidades italianas notáveis.
Pelo
Norte da Itália, entra na França e segue para Paris, onde se encontra com Inimá de
Paula (1918-1999) que, como ele, aproveitava um prêmio de viagem. Conhece também o
pintor Yoshiya Takaoka (1909-1978), radicado em São Paulo, mas que, na época, estava
residindo na capital francesa.
A segunda chance:
Brasil
No ano
seguinte, está de volta ao Brasil, com um apreciável acervo de quadros pintados na
Europa, e com o nome já em evidência no Rio de Janeiro, onde reinstalou seu ateliê.
Não era
tudo o que ambicionava. Queria conhecer as belezas naturais do Brasil e, em 1955, já
conquistava o prêmio de viagem ao país, o qual lhe deu oportunidade de conhecer e
retratar as paisagens das cidades históricas de Minas Gerais, visitar a Bahia e percorrer
outros Estados nordestinos, voltando com mais uma série de quadros, desta vez só com a
temática brasileira, que preferia pintar de preferência a qualquer outra.
Fiel às
suas origens na oficina do pai, dedicou-se muito ao trabalho de decoração, sobretudo de
salões de danças, de clubes carnavalescos e de escolas de samba. Sambista que era,
ajudou a fundar a Escola de Samba Unidos do Jacarezinho e, mais tarde, integrou-se à
Estação Primeira de Mangueira.
Sylvio e Pancetti:
influência mútua
Marinhista de primeira mão, Sylvio Pinto foi acusado por alguns críticos de nunca haver
se desvinculado da tutela de Pancetti, seu amigo e sócio de ateliê. Com efeito, é
expressiva a semelhança de estilo entre os dois pintores, o que se deve principalmente ao
fato de os dois trabalharem juntos, assimilando um e outro os macetes e detalhes
pictóricos do sócio.
Há,
entretanto, um afastamento notório na concepção e no estilo, quando Sylvio Pinto se
dedica a outros gêneros, momento em que sua pintura se torna marcadamente pessoal. Nesse
ponto, aliás, ele foi além de Pancetti, experimentando todos os gêneros e algumas
escolas diametralmente opostas, como o Impressionismo e o Abstracionismo, sem contudo
incluir esses estilos no seu dia-a-dia.
Desde seus primeiros
quadros, na década de 30, até sua morte em 1997, Sylvio Pinto registrou uma trajetória
de mais de meio século em atividades artísticas, passando a ser um referencial
importante e imprescindível da pintura no Brasil.
(Texto de Paulo Victorino)
.
|
|