Fonte: Jornal do Brasil - 15 de janeiro de 2001.

Vivendo à margem da crise na Argentina

MÁRCIA CARMO

O empresário Constantini com uma de suas aquisições, o Abaporu, de Tarsila do Amaral

O empresário Constantini com uma de suas aquisições, o Abaporu, de Tarsila do Amaral

BUENOS AIRES - No inverno, Eduardo Constantini joga tênis três vezes por semana. No verão, tênis, golfe e surfe. Há cerca de quatro anos, ele ficou conhecido no Brasil como o empresário que comprou o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral. Agora, aqui, ele é famoso por ser o dono do que será, a partir de setembro, um dos principais museus da América Latina, o Malva. Juntas, suas duzentas e vinte obras - incluindo a de Tarsila, outras de Frida Khalo e tantas outras - valem US$ 50 milhões.

Milionário, ele é apenas o exemplo dos que aqui vivem à margem da crise argentina. Talvez não tão à margem assim. Mas que não precisaram mudar de hábitos ou deixar de sair de casa por temer as seqüelas do caos financeiro e econômico. Constantini vai inaugurar este ano um condomínio de 1.600 hectares - um lugar que terá dez bairros. Ali, na localidade do Tigre, Norte da cidade de Buenos Aires, onde foi inaugurado, na semana passada, o clube de tênis, de remo e de outros esportes. Os preços dos terrenos vão de US$ 50 mil a US$ 1 milhão. E não falta comprador. Orgulhoso da própria ousadia, em tempos de raros investimentos no país, ele disse ao JB: ''Acho que a gente não tem que se abater pelo baixo astral. Mas é claro que se a crise continuar neste nível, acabará nos afetando''.

O direito a manter o padrão de vida, nesta cidade, apesar das mazelas da crise, não é um privilégio dos milionários ou bem apessoados ou bem nascidos. Na classe média, para muitos a vida continua. A jornalista Sílvia Mercado, que tem uma consultora que leva seu nome, não conseguiu passagem para viajar nestas férias com o filho Facundo a Miami. ''Consegui para Nova Iorque, mas só a ida. Para a volta nem lista de espera'', disse. Para Sílvia, a Argentina é feita de dois países. Um paralisado pela recessão, que entra no seu quarto ano de estancamento econômico, desemprego de mais de 16% e falta de perspectivas. O outro lota os salões de tango pelo menos, como ela, duas vezes por semana. Faz ginástica e sauna outras tantas vezes, tem hora marcada, semanalmente, no salão de beleza e não alterou sua rotina. Ao contrário. ''Mas na hora de sentar num café ou num restaurante com um amigo, a gente lamenta. Lamenta a crise depois de ter feito a ginástica, depois de ter bailado o tango e enquanto toma um bom copo de vinho'', reconhece. E a crise? Para Sílvia, talvez alguns lugares muito caros estejam sofrendo mais que outros, que oferecem preços mais acessíveis para este público. ''Os lugares que freqüento estão sempre cheios. Vou a um restaurante que cobra US$ 10 pelo almoço e como aqui os vinhos, dos mais baratos aos mais caros, melhoraram de qualidade, me divirto sem gastar muito'', diz. ''Para aprender tango, por exemplo, pago US$ 5 pela aula. Na semana passada, fui a uma apresentação de teatro e paguei US$ 1''. Talvez os novos tempos estejam ampliando ainda mais a lista de opções nesta terra que tem títulos como de possuir a ''melhor carne do mundo'', o ''melhor escritor latino'', Jorge Luís Borges, e as exuberantes imagens das baleias na província de Chubut, e as geleiras em Perito Moreno, no extremo sul, na Patagônia.

É neste país onde vivem Eduardo Constantini e Sílvia Mercado e tantos outros que a livraria Cúspide, no Village Recoleta, na capital, oferece um livro de fotos por US$ 2,6 mil. Nos últimos sete dias, a livraria vendeu três deste exemplares do livro de fotos de Helmut Newton. Na sexta-feira, restava apenas um. A poucas quadras dali, num supermercado da cidade, os preços do champanhe podem chegar a até US$ 5 mil a garrafa. Ou mais. À noite, é possível caminhar ou se sentar num dos restaurantes, sempre lotados, do bairro Lãs Cañitas, em Belgrano, a vinte minutos do centro da cidade. Buenos Aires, apesar da angústia de muitos, ainda é um cartão postal para os brasileiros que freqüentam lugares turísticos como a feira de San Telmo, os parques verdes do bairro de Palermo ou os cinemas de última geração do complexo Village Recoleta. Esse turista não deve entender por que aqui se fala tanto em crise. E por que esse mesmo país que é a ameaça de uma crise financeira mundial - só fica atrás da Nigéria - é o primeiro em qualidade de vida na América Latina. Na quarta-feira, quando aqui, no Brasil e em outras partes do mundo só se comentava o risco da Argentina mergulhar no calote, a ONU divulgou o resultado anual do Programa de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (PNUD). Nele, a Argentina aparece como o país com melhores condições de vida da América Latina. Entre os 160 países pesquisados, o país presidido por Fernando de la Rúa está no 34° lugar. A Argentina, das raízes européias, que não sabe bem como enfrentar os males da pobreza, está à frente do Uruguai (posto 37°), do Chile (posto 39°) e do Brasil (posto 69°). ''Aqui podemos dizer que temos uma boa vida'', diz o publicitário Charly Fiorentino. Para ele, a crise o afeta. Mas não paralisa seus desejos. Em março, ele passou um mês com a namorada Paula Perez na Índia e no Nepal. Eles se casam em outubro. E, diferente de muitos argentinos, fazem planos. Estão em dúvida entre passar a lua de mel na Polinésia, na Praia Del Carmem, no México, ou em Fernando de Noronha, no Brasil. Talvez Eduardo Constantini, Sílvia Mercado e Charly Fiorentino vivam mesmo à margem da crise. Talvez não. Talvez, guardadas as diferenças entre eles, aprenderam a lidar com a crise, deixando de lado o amargo e paralisante sentimento de frustração que afeta muitos. E com direito a fazer planos. O que aqui não é tão comum como no Brasil.

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