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Tarsila do Amaral
(1886-1973) |
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O professor
e a aluna
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Estamos em São Paulo, no longínquo ano de 1917, no bem
instalado ateliê do pintor Pedro Alexandrino Borges, outrora paisagista, mas que, neste
instante, se dedica a pintar quase que tão somente naturezas-mortas.
Foi seu professor, Almeida Júnior, que lhe desviou os passos, quando, ao ver um quadro
com frutas e flores, que o aluno acabara de pintar, disse-lhe impressionado: «Não pinta
senão isso. É a tua arte.»
Não se
sabe se o conselho foi ajuizado, mas o certo é que, desde então, esse passou a ser o
gênero preferido do pintor, que agora encontramos, em 1917, já sexagenário. E não só
pintava naturezas-mortas, como também era o que ensinava aos alunos, com rédea curta,
dentro dos cânones da arte acadêmica, sem permitir-lhes qualquer desvio ou experiência
com os novos estilos que faziam furor na Europa e, de maneira ainda incipiente, começavam
a chegar ao Brasil.
Ao seu lado se acha a mais nova aluna, nova nas artes, pois iniciava seu aprendizado já
com 31 anos, idade em que muitos outros já tinham galgado o patamar da fama. Mas Tarsila
pois é dela que estamos falando era uma aluna aplicada e mostrava bastante
aptidão, animando o mestre, que esperava fazê-la uma artista razoável no gênero.
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Encontro com
o destino
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A porta se abre e entra outra jovem, aparentemente da mesma idade
mas, pelo diálogo que mantêm com o mestre, percebe-se que a recém-chegada tem um
apreciável desenvolvimento, demonstrando bastante familiaridade com a arte. Não buscava
as primeiras noções, nem um aperfeiçoamento artístico: Ferida com recentes
experiências, punha de lado a arte que sabia fazer, para, no mais velho estilo, aprender
a pintar também, naturezas-mortas.
As duas
jovens se apresentam, uma à outra, e desenvolvem animada conversação, tão à
vontade que, quem as visse, pensaria tratar-se de amigas da infância. Inicia-se naquele
momento uma longa, dedicada e proveitosa amizade entre Tarsila do Amaral e Anita Malfatti,
uma amizade em que as duas se apoiam, uma à outra, e se complementam.
Tarsila, três anos mais velha e segura de si, foi o esteio de Anita, que era tímida e se
achava numa fase de total desorientação, após as críticas que recebera em sua
exposição modernista. Anita, por sua vez, artista experiente, deu a Tarsila o impulso de
que necessitava. A partir daquele instante, uma e outra, cada uma por seu estilo próprio,
se preparavam para alçar vôo e conquistar uma fama longa e duradoura.
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Em busca de
novos rumos
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Tarsila do Amaral nasceu em 1886 em Capivari-SP, e faleceu na cidade de São Paulo em
1973. A arte entrou em sua vida acidentalmente, em 1916, quando começou a aprender
modelagem com Zadig e Mantovani.
Transferindo seu interesse para a pintura, no ano seguinte começou a ter aulas com Pedro
Alexandrino e, em 1920, já estava viajando para Paris, onde matriculou-se na Academia
Julian, voltando a São Paulo em fins de 1922, em tempo de sentir um ambiente
efervescente, após a Semana da Arte Moderna, que acabara de se realizar.
No seu
reencontro com Anita, ambas juntaram-se a Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti
del Picchia, remanescentes da «Semana» e fundaram o Grupo dos Cinco, procurando manter
viva a polêmica instaurada com esse movimento artístico.
Em 1923, o
grupo se desintegra e Tarsila volta a Paris, para uma nova rodada de estudos, ocasião em
que conhece a arte dos novos pintores, músicos e escritores, entre eles Pablo Picasso e
Manuel de Falla.
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O fascínio de
Minas Gerais
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Ainda na França, Tarsila pinta A Negra, denotando uma completa mudança de
estilo, desvinculada já da tutela de seu primeiro professor, e livre para tentar coisas
novas.
Mas foi no
ano seguinte que, retornando ao Brasil e fazendo um passeio por Minas Gerais, ela descobre
novos rumos para sua arte. As cidades históricas de Minas, desde os velhos tempos, sempre
despertaram fascínio nos pintores que por lá passaram, brasileiros ou não. Alguns, como
Guignard, por lá ficaram até o fim da vida.
Nas
montanhas alterosas, Tarsila descobre temas brasileiros que vão se constituir na alma de
sua pintura e inicia uma fase conhecida como do «Pau Brasil», que vai durar em torno de
três anos. São as velhas cidades, o homem rude das matas, as flores silvestres e o forte
colorido da natureza que se transportam para suas telas, com toda vivacidade.
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Tarsila, Oswald
e Abaporu
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Desde algum tempo, Tarsila e Oswald de Andrade vinham entretendo
um romance, que acabou em casamento no ano de 1926, verificando-se uma junção de
propósitos com o início do Movimento Antropofágico.
Foi
então que surgiu o seu mais famoso quadro, o Abaporu, famoso e valioso, pois em um
leilão realizado em 1995, nos Estados Unidos, foi arrematado por cerca de um milhão e
meio de dólares!
Tarsila
pintou o Abaporu para impressionar Oswald. A intenção era criar um ser antropófago e o
nome saiu mesmo de um dicionário de tupi-guarani. Não esperava, porém, tamanho impacto.
Chamado por Tarsila, Oswald vai ao ateliê nos Campos Elísios e, ao ver o quadro,
exclama: «Mas o que é isso ?!» De imediato, telefonou ao amigo Raul Bopp, pedindo-lhe
que viesse sem mais demora. É ela que conta:
«Bopp foi
lá no meu ateliê, na rua Barão de Piracicaba, assustou-se também. Oswald disse:
"Isso é como se fosse um selvagem, uma coisa do mato" e Bopp concordou. Eu quis
dar um nome selvagem também ao quadro e dei Abaporu, palavras que encontrei no
dicionário de Montóia, da língua dos índios. Quer dizer antropófago.»
O casamento dos dois também foi devorado, pouco tempo depois. Em 1930, Tarsila e Oswald
se separaram, seguindo cada um seu próprio destino.
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Perseguida
pela História
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Ninguém, nem
o cidadão mais simples, está livre de sofrer em sua vida as conseqüências da
conjuntura histórica e Tarsila foi alvo dela por alguns anos.
Até 1929,
sua situação financeira era confortável, permitindo-lhe manter um bom padrão de vida.
Nesse ano, porém, ocorreu a « Quinta-Feira
Negra» na Bolsa de Nova York, fazendo despencar o valor das ações a níveis aviltantes
e abrindo uma crise sem precedentes na economia dos Estados Unidos, que em breve se
espalharia por todo o mundo.
O Brasil
foi dos primeiros a sofrer as conseqüências. Com a cultura voltada quase que
exclusivamente para o café, que era praticamente o único produto para exportação, o
país viu devorados rapidamente todos os seus mercados, primeiro na América do Norte e
depois na Europa.
O efeito imediato foi a quebra de empresas ligadas ao ramo, que arrastaram para o fundo
toda a economia do país e, ainda em 1929, Tarsila conheceu o caminho da riqueza para a
pobreza.
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A História,
outra vez, em
seu caminho
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Procurando dar-lhe um apoio, a Pinacoteca, órgão do Governo do
Estado, oferece-lhe o cargo de diretora-conservadora, mas o emprego acaba sendo de curta
duração, pois, em 1930, cai a 1ª República e o novo Presidente, Getúlio Vargas,
nomeia um interventor, para substituir o governador deposto. Muda, assim, a política, e
saem aqueles que ocupavam cargos de confiança, inclusive ela.
Em 1931,
Tarsila viaja para a União Soviética, expõe no Museu de Arte Ocidental de Moscou e
consegue vender o quadro O Pescador, que passou a integrar o acervo daquela instituição.
Estávamos
há 14 anos da revolução comunista e a nova face do regime, criando uma atmosfera de
ascensão do proletariado, impressionou a artista que, de volta ao Brasil, iniciou a
série Operários, focalizando o homem simples, rude, sofrido, na busca do pão de cada
dia.
Não era sua praia. Muito pouco politizada, não a encantava a pregação contra
injustiças sociais e, em breve, voltou à temática do Pau Brasil, iniciada em Minas, só
que agora em nova versão e tomando formas mais delicadas, com as arestas aparadas pela
experiência dos últimos anos.
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Muito além do
céu azul
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A década de
40 veio encontrar uma Tarsila no auge de sua arte, com um mercado duramente conquistado,
mas agora sólido e definido. Sucederam-se exposições individuais e participações e
mostras coletivas. De tempos em tempos, surgiam retrospectivas de sua obra.
Em 1953, o Parque do Ibirapuera foi completamente remodelado para as comemorações dos
400 anos de São Paulo, a se realizarem no ano seguinte, e Tarsila participou com um
mural. No mais, seu trabalho passou a ser apreciado e considerado em exposições de arte
moderna no Brasil e no exterior.
Sobre sua
arte e a liberdade de expressão, a melhor definição, vem dela mesma: «Pintura limpa,
sobretudo, sem medo dos cânones convencionais. Liberdade e sinceridade, uma certa
estilização que a adaptava à época moderna.»
Estando
entre os pioneiros na introdução do modernismo no Brasil, Tarsila enfrentou a mesma
oposição e, por vezes, o achincalhe dos conservadores, mas recebeu também referências
consagradoras, como a de José Severiano de Resende:
«O fato é
que uma moça saída da Paulicéia, Tarsila o que não a impede de ser uma perfeita
parisiense pôs num chinelo mestres e aprendizes. É uma discípula entusiasta de
si mesma, uma autodidata, desiludida das pálidas formas e dos mundos amorfos.
«E com que
certeza de sua arte, com que orgulho de sua íntima ingenuidade, com que compreensão de
seu forte temperamento! Tarsila não se perde em quatro caminhos, não recorta fios de
cabelo, nem procura meio-dia às quatorze horas. Sua matemática é muito simples e sua
álgebra não é abstrusa. Ela pinta um Brasil radioso.»
Texto de Paulo Victorino.
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