Em 1950, Tarsila do Amaral (1886-1973)
atravessava um grande momento de sua carreira: a primeira retrospectiva depois de 21 anos,
em São Paulo, começava a recolocar sua obra em evidência.
Ela parecia não acreditar: descobriu-se
"famosa", a ponto de a entrevistarem no rádio. Tarsila do Amaral, no início
dos anos 1950, assinava - nos envelopes enviados a Paris e ao Rio - T.A.M. ou T.A.
Martins, o sobrenome do cronista e crítico de arte Luís Martins (1907-1981), com quem
viveu por 18 anos, depois de dois outros casamentos, um deles com o escritor e líder dos
modernistas Oswald de Andrade.
Essas são algumas das histórias pouco
conhecidas da vida da artista, narradas em duas dezenas de cartas que escreveu para
Martins - e que permanecem inéditas e desconhecidas, até mesmo por especialistas na obra
da pintora.
Escritas entre 1950 e 1952, elas tratam
especialmente dos sentimentos da pintora nesses primeiros passos de sua entrada no
"cânone" da pintura brasileira no século 20 e também do complicado fim de
relacionamento com o cronista.
Até a compreensão do papel fundamental de
Tarsila no movimento modernista, suas telas do movimento antropofágico tinham pouco
valor, enquanto ela ganhava algum dinheiro produzindo retratos acadêmicos destinados ao
Museu Republicano de Itu, dirigido por Afonso de Taunay.
Em 1951, ela participa da Bienal de São
Paulo, que apenas na década de 1960 lhe dedicaria uma sala especial.
O relacionamento entre Tarsila e o jovem
jornalista Luís Martins começa num jantar em homenagem aos escritores Jorge Amado, Dante
Costa e Peregrino Júnior "em fins de 1933 ou começo de 1934", segundo a
autobiografia de Martins, Um Bom Sujeito, publicada em 1983.
"Sentei-me ao lado de Tarsila. E
dissipando minha timidez com o vinho, foi nessa noite que tudo começou."
Quando a união acaba, ela tem 64 anos, e ele,
43. Luís, então, se casa com a escritora Anna Maria, de 27 anos, cuja mãe era
prima-irmã da pintora (um dos avós de Tarsila, José Estanislau do Amaral, conhecido por
"o milionário", era bisavô de Anna Maria).
As cartas de Tarsila devem integrar um livro
organizado por Ana Luisa, filha de Luís Martins com Anna Maria. Depois de muita
insistência - e apoio do recluso escritor Rubem Fonseca -, ela convenceu a mãe da
importância dos documentos para complementar a biografia da primeira mulher de seu pai,
Tarsila, especialmente depois da efervescência modernista dos anos 20 e 30.
O volume (ainda sem editora) deve incluir
também cartas de Anna Maria para Luís Martins, trechos da autobiografia do crítico e
crônicas publicadas por ele, algumas assinadas com as iniciais L.M., que tratam, com
poucos rodeios, das dificuldades da separação e do novo casamento - que enfrentava
oposição aberta dos tradicionais Amarais.
"Sou muito ciosa de minha
privacidade", diz Anna Maria, em seu apartamento em São Paulo. Nas paredes, várias
pinturas de Luís Martins feitas por Tarsila.
"Achei que era chegado o momento de
revelar esses fatos, de maneira delicada, sem prejudicar ninguém", continua ela -
que, em 1952, recomendou ao futuro marido, em suas cartas, que elas fossem rasgadas assim
que lidas.
Guardião profissional de documentos
importantes (foi diretor do arquivo do Estado por anos, sua biblioteca foi vendida para a
Universidade Federal de São Carlos, as caixas de cartas e documentos que mantinha em casa
se dividem hoje entre o Museu de Arte Moderna de São Paulo e a Fundação Casa de Rui
Barbosa, no Rio), Luís Martins preservou-as.
Como a correspondência de A Carta Roubada,
de Edgard Allan Poe, as mensagens de Tarsila estavam em local de fácil acesso. Pouco
depois de aprender a ler, Ana Luisa abriu uma das gavetas da escrivaninha do pai, em busca
de um barbante, encontrou uma foto da pintora, com uma dedicatória instigante.
Dias depois, seguiu sua procura e encontrou as
cartas. As cartas de Anna Maria, Ana Luisa só foi encontrar quando organizava o material
que, no início de 2000, foi doado ao MAM para a formação do Centro de Estudos Luís
Martins. Estavam um pouco mais bem escondidas.
"Preciso aproximar-me de meus
amigos", escreve Tarsila em 4 de dezembro de 1950. "Tenho encontrado tanto
carinho por parte deles que estou perdendo meu complexo de inferioridade que dura mais de
dez anos. Os jornais têm anunciado minha exposição até em Santos. E mesmo o rádio,
conforme me disse minha costureira.
"Não sei quem está fazendo isso.
Noticiou-se na Difusora e Bandeirante. Todos estão prometendo ir ao vernissage. Se for a
metade, já está ótimo. Estou sentindo que vou trabalhar muito em pintura, mesmo durante
a exposição. Tomei gosto."
Alguns dias depois, a 20 de dezembro, ela
completaria, referindo-se à retrospectiva Tarsila - 1918-1950:
"Ontem foi um dia triunfal para mim. O
imenso salão do museu estava repleto, apesar da pouca publicidade. Muitas vendas. Muitos
autógrafos nos catálogos que ficaram lindos assim como os convites com desenhos meus.
Apresentei-me bem vestida e de chapéu. Motivo pelo qual o nosso querido Luis Coelho disse
que eu não era ´dereita´ porque esperei você ir-se embora para me embelezar."
O rádio, então, voltaria a se
interessar pela exposição. Em carta datada de 31 de dezembro, ela conta a Luís Martins
que concedeu uma entrevista à Rádio Record:
"Saiu muito boa, com muita naturalidade,
foi gravada e irradiada à noite. Fiquei surpreendida ouvindo minha própria voz."
As cartas de Tarsila também indicam quem
fazia parte do círculo de amizades do casal. Entre os mais próximos, nessa época,
estavam Sérgio e Lourdes Milliet e Rubem Braga (há também uma menção a Tônia
Carrero).