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Thomas Ender nasceu em
Viena, Austria, em 4 de novembro de 1793 e faleceu na mesma cidade em 28 de setembro de
1875.
Junto com Debret e Rugendas,
ele fecha a trilogia de desenhistas/pintores que passaram pelo Brasil no primeiro quarto
do Século 19 e registraram imagens de nosso país, recém saído de sua condição de
colônia, e experimentando uma nova vida, primeiro como Reino Unido a Portugal e Algarves,
depois, como país independente, mas de independência ainda incerta e indefinida.
Debret viera em 1916 com a
missão francesa incumbida por D. João 6º de estruturar a Academia Real de Belas Artes.
Permaneceu no Brasil até 1831, quando, já desgostoso com a nova direção da Academia,
regressou a sua terra natal. Rugendas por aqui passou em 1821 com a expedição
científica do barão de Langsdorff à América do Sul e sua missão específica era
registrar paisagens, casarios, usos e costumes dos povos do Novo Mundo. Sua presença foi
episódica, mas não menos importante.
Thomas Ender, por sua vez,
chegou à nossa terra em 1917, um ano após os franceses, e fazia parte da comitiva da
princesa Leopoldina, prometida em casamento ao príncipe D. Pedro. Embora tenha sido autor
de uma obra bem mais intensa, retratando a vida brasileira, tornou-se menos conhecido
que os outros dois.
Somente agora, na entrada do
Século 21 é que três instituições brasileiras (Petrobrás, BBA e Prefeitura do Rio de
Janeiro) resolveram editar e divulgar suas aquarelas (perto de 800 trabalhos), como conta
o jornal O Estado de São Paulo, em sua edição de 01/01/2001:
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O Brasil das
aquarelas de
Thomas Ender
Chega ao
País, em três volumes, a importante
coleção de imagens brasileiras do século 19
BEATRIZ COELHO SILVA
RIO -
Uma das principais coleções de imagens brasileiras do início do século 19 acaba de
chegar ao público brasileiro nos três volumes de Viagens ao Brasil nas Aquarelas de
Thomas Ender. São 796 imagens - entre paisagens rurais e urbanas, cenas do cotidiano e
retratos de pessoas e objetos de uso caseiro - pintadas entre 1817 e 1818 e guardadas,
desde a década seguinte, no Gabinete de Gravura da Academia de Belas-Artes de Viena. O
autor era então um jovem artista plástico vienense, que veio ao Brasil na comitiva
científica que acompanhava a arquiduquesa Leopoldina, filha do imperador Francisco I,
casada com o príncipe herdeiro de Portugal, dom Pedro.
Thomas Ender era e é até hoje mais falado do que
conhecido no Brasil. Há relatos de sua passagem pelo País, mas toda a sua obra,
aquarelas sobre papel, voltou para a Áustria. Daí a importância da coleção, que
reúne todos os seus trabalhos pela primeira vez. Por causa da fragilidade do suporte,
mesmo em Viena, os quadros são pouco mostrados, mas sua obra é comparada, em
importância, à do francês Jean-Baptiste Debret, que veio para o Brasil na mesma época,
com a Missão Francesa. Visitas de comitivas artísticas e científicas ao Brasil na
primeira metade do século 19 eram comuns. Com a vinda da família real portuguesa, o
País se abrira ao mundo e despertava curiosidade. Apesar de mais curta e com objetivo
diferente, a missão austríaca foi tão importante quanto a francesa.
"A diferença é
que, enquanto Debret era um homem maduro, desiludido e sem muitas perspectivas, Ender era
um jovem e promissor artista e a viagem ao Brasil foi seu primeiro trabalho
profissional", diz Júlio Bandeira, autor de parte dos textos dos livros e curador
dos Museus Castro Maya, não por acaso guardião da maior coleção pública de Debret.
"No caso de Ender, ele veio reproduzir as paisagens, a fauna e a flora brasileiras e
seu trabalho era mais descritivo que artístico. Naquela época, era comum artistas
acompanharem essas missões, já que não havia ainda a fotografia para esse tipo de
registro."
Etapas - Em sua viagem, Ender preocupou-se
em documentar minuciosamente cada etapa da viagem, desde a saída do Porto de Trieste,
hoje na Itália e então parte do Sacro Império Romano-Germânico, até sua chegada ao
Rio, além de uma viagem à Serra da Estrela, no interior de São Paulo.
Essas aquarelas são mais raras ainda pois há
poucos registros da paisagem paulista no período colonial. "Viajantes estrangeiros,
como Ender, foram os primeiros a nos revelar nossa face, pois até a chegada deles, no
início do século 19, quase não havia imagens do Brasil", ensina Bandeira.
"Hoje, essa iconografia está popularizada e valorizada no mercado. As grandes casas
de leilão a classificam como topografia e não como obras de arte. No entanto, essa
diferenciação não era corrente naquele período."
O projeto da coleção
de três livros em encadernação de luxo vem de 1997, quando o editor José Paulo Soares
entrou com a proposta na Lei Rouanet. De lá para cá, foram quatro viagens à Áustria
para fotografar as 796 aquarelas, com o cuidado de reproduzir as cores com exatidão. Os
textos explicativos foram encomendados a Júlio Bandeira e ao diretor da Biblioteca e do
Gabinete de Gravura da Academia de Belas-Artes de Viena, Robert Wagner. Eles relatam a
viagem acrescida de uma pequena biografia de Ender, apresentam um painel da sociedade
brasileira no início do século 19 e reavaliam a importância da princesa Leopoldina na
história. Casada por procuração, adorava o Brasil, mas não foi bem recebida na corte e
morreu aos 26 anos, vítima de uma gravidez interrompida.
Povoados rurais - Pelos quadros de Thomas
Ender, o Rio era pouco mais do que uma vila cercada de densa mata e bairros como o Catete
(na zona sul) e Riachuelo (zona norte) eram povoados rurais. Os escravos circulavam
seminus pelas ruas do centro, onde a população branca fazia raros passeios. São Paulo
não era muito diferente, como mostram as inúmeras paisagem de Guaratinguetá, cidade
localizada na Via Dutra, às margens do Rio Paraíba. A capital ainda podia ser vista
inteira do alto da Serra da Estrela. Os livros são organizados em ordem cronológica. O
primeiro traz imagens da viagem, o segundo atem-se às aquarelas feitas no Rio e o
terceiro mistura reproduções de flora brasileira e paisagens paulistas.
Viagens ao Brasil nas Aquarelas de Thomas Ender
tem tiragem de 4 mil exemplares, metade destinada os patrocinadores (Petrobrás, Banco BBA
e Prefeitura do Rio de Janeiro), bibliotecas e instituições públicas. O restante será
vendido em livrarias por R$ 295, a partir deste ano (2001).
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