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Tomie aos 90 anos - Foto: Reprodução
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A força do destino
Ela veio para o Brasil com 23 anos de idade, só para visitar um irmão. Ficaria um ano ou
dois, se tanto, para em seguida voltar ao Japão, sua terra natal, o único lugar que
conhecia, e onde pretendia ficar por toda vida.
Durante
sua estada aqui, a situação do outro lado do oceano começou ficar incerta, com nuvens
negras toldando a paz mal costurada com tratados secretos entre as potências, os quais se
transformaram em bombas de efeito retardado que, a qualquer momento poderiam explodir.
Seu
irmão impediu o quanto pode o retorno dela à pátria, esperando que os céus da Europa e
da Ásia se desanuviassem. Mas, ao contrário, o furor da guerra se desencadeou com toda
sua força, primeiro num pacto entre a Alemanha e a Itália, depois, - aquilo que mais se
temia - com a aliança do Japão com esses dois países, formando o eixo
Berlim-Roma-Tóquio.
Foi
assim, que Tomie Ohtake, aquela frágil nipônica, pouco mais que uma adolescente, se viu
forçada a prolongar sua permanência no Brasil. A guerra acabou, Tomie casou-se aqui
mesmo com um engenheiro agrônomo e, a partir de então, tomou o Brasil por sua segunda
pátria, caindo, gostosamente, na cilada que o destino lhe aprontou.
Se
predestinação existe, Tomie, mais do que ninguém, sentiu-a em si mesma, dirigida que
foi, pela vida afora, por uma força externa que lhe encaminharia os passos, abrindo as
portas à sua frente e fixando-lhe os rumos.
O encontro
com a pintura
Tomie
Ohtake nasceu em 1913 em Quioto (Japão). Desde criança, como acontece em sua terra,
tomou contato com a arte da caligrafia, indispensável para se expressar com clareza
usando caracteres e ideogramas orientais.
Da
caligrafia ao desenho, foi um passo. Sem nada que a reprimisse, mas também sem ninguém
que a incentivasse, rabiscava a todo instante, procurando figurar tudo o que estivesse ao
seu redor.
Se no
Japão, nunca teve à sua frente um professor de pintura, no Brasil pior ainda. Casada em
tenra idade, tornou-se uma dona de casa, em uma sociedade fechada, de costumes milenares,
onde a mulher era submissa e limitada a um círculo restrito de amizades e de
participação.
Assim,
sua índole artística ficou hibernando até os 31 anos, quando o acaso pôs à sua frente
o professor de arte e pintor Keisuke Sugano, recém chegado do Japão, e que se achava
apenas de passagem por São Paulo. Auxiliada por ele, Tomie fez seus primeiros quadros,
simples pinturas figurativas, depois, algumas paisagens com inclinação para o fauvismo e
outras experiências já com a presença do cubismo.
A maior
parte dos quadros pintados nessa primeira fase artística perdeu-se numa das enchentes,
tão comuns em certas regiões de São Paulo, e que destruiu quase tudo que possuía.
O primeiro
brilho de uma estrela
Se o
aprendizado com o pintor Keisuke Sugano, elementar e de curta duração, não lhe rendeu
maiores dividendos, pelo menos, trouxe a vantagem de tirar Tomie do isolamento em que se
encontrava. Ninguém mais lhe negava o mérito, ninguém lhe obstava os passos, podendo
seguir, com relativa liberdade, o destino que lhe estava traçado.
O
encontro com o professor deu-se em 1951 e, desse ano, datam seus primeiros quadros, ainda
tímidos e vacilantes. Dois anos depois, lá está ela participando de uma exposição do
Grupo Seibi (Seibikai, em japonês), uma associação de japoneses na zona sul de São
Paulo, com existência legal desde o ano de 1935 e bastante prestigiada pela colônia.
O
Seibikai trazia uma restrição, que era a de aceitar única e tão somente obras de
artistas japoneses ou descendentes. Mas trazia, também, uma amplitude não comum em
exposições, pois, ao mesmo tempo que expunha quadros de pintores já consagrados,
aceitava também obras de iniciantes. Os primeiros atraiam o público para a exposição,
os outros beneficiavam-se dessa presença credenciada de visitantes, entre eles
jornalistas e críticos de arte japoneses, radicados no Brasil.
Sua
primeira aparição, pôde ser suficientemente notada, recebendo do juri menção honrosa.
Sua presença também foi marcante nas mostras dos anos seguintes, chegando a receber, em
duas ocasiões, medalhas de ouro.
Desenvolvimento
ordenado
O
desabrochar da arte de Tomie, em 1951, se deu com a fase figurativista, o que é
perfeitamente compreensível, pela influência de seu primeiro e único professor,
crítico severo de seu trabalho, condicionando-lhe, de certa maneira a fluidez do estilo.
Não
tardou em seguir seu caminho próprio, fazendo experiências fauvistas, cubistas e
enveredando, depois, para o concretismo, e mergulhando por inteiro no abstrato, onde
permaneceria definitivamente, mas sempre fiel à forma, ao desenho bem caracterizado, à
aplicação das cores de uma maneira racional e organizada.
Resulta
dessa preocupação uma pintura agradável de se ver, podendo ser apreciada e reconhecida
mesmo por aqueles que torcem o nariz para o abstracionismo. Há, pois, uma fácil e
completa interação entre o observador e a obra, independentemente de seus conhecimentos
técnicos ou de sua familiaridade com o estilo.
A técnica
assimilada com naturalidade
A
naturalidade com que Tomie se aproximava da técnica, assimilando-a sem esforço nem
afetação, fez dela uma artista singular, em breve notada e reverenciada nos Salões de
que participou, dentro e fora do país.
Em 1957,
seis anos depois de começar a pintar, já realizava sua primeira individual no Museu de
Arte Moderna de São Paulo. Foi presença constante de exposições anuais dentro e fora
do país. Em 1986, o Museu de Arte de São Paulo realizou uma retrospectiva de sua obra.
Igual feito foi repetido em 1996 pela Bienal de São Paulo.
Contribuiu para isso, entre outros atributos, a naturalidade e simplicidade com que sempre
encarou a arte, transferindo para a tela o que lhe ia pela alma, sem concessões a
modismos de curta duração e sem se curvar a imposições do mercado.
A permanência indelével
entre os mais bem sucedidos artístas, nessa segunda metade do Século 20, já encerrado,
demonstra que sua fidelidade aos próprios conceitos, sua honestidade para consigo mesma,
renderam-lhe justos dividendos.
Texto de Paulo Victorino
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