A idéia se
cristalizou por ocasião do convite que recebi para fazer uma palestra sobre mercado de
arte, no IV Encontro com as Artes Plásticas, promovido pela Associação dos Artistas
Plásticos de Santa Maria, da hospitaleira cidade que lhe empresta o nome a cidade
universitária do Rio Grande do Sul. Na época, em 1995, ao receber o convite da minha
amiga Marília Chartune, então presidente daquela atuante associação, percebi que não
tínhamos sequer um livro que proporcionasse orientação direta sobre mercado de arte.
Lá, encontrei uma platéia culta de
diplomados em belas-artes, muitos pós-graduados, profundos conhecedores de arte, e uma
grande quantidade de artistas com invejável talento, podendo, sem nenhum favor, fazer
sucesso em qualquer lugar. Contudo, como estavam a 290 quilômetros de Porto Alegre e a
cerca de 1.800 quilômetros do eixo Rio-São Paulo, os artistas que lá encontrei tinham
pouco conhecimento das regras de mercado e uma relativa dificuldade de colocação de suas
obras. Mesmo assim, a distância em questão não impediu que Iberê Camargo (1914-1994),
nascido em Restinga Seca, cidade gaúcha bem próxima a Santa Maria, onde residiu por
muito tempo, aparecesse no cenário artístico nacional. Porém, é bom que se diga, só
consolidou mercado depois de se radicar em Porto Alegre, mantendo também residência no
Rio de Janeiro.
Fiquei imaginando as dificuldades dos artistas
das cidades do interior do país. Se para os novos valores das capitais, que têm estreito
contato com o mercado de arte, as dificuldades já são grandes, imaginem as daqueles que
estão em uma cidade típica do interior, longe do mercado e sem sequer um livro que lhes
fale a respeito. Assim, comecei a rabiscar os planos para escrever o Manual do Mercado de
Arte, hoje com edição definitivamente esgotada, agora que foi substituído pelo MMA2,
reunindo normas de procedimentos profissionais que, seguidas à risca, poderão - a médio
e longo prazo - ajudar a resolver o principal problema dos que se iniciam na árdua e
difícil empreitada de produzir arte: a dificuldade de comercializar suas obras.
Durante a elaboração do MMA, percebi que
outros profissionais do mercado de arte e os colecionadores - mormente os iniciantes -
também se interessavam pela matéria. Então, decidi tornar a abordagem mais ampla,
contemplando o mercado como um todo. Minha intenção com o MMA foi mostrar o mercado de
arte de forma abrangente, objetiva, completa, mas de nenhuma forma hermética; pelo
contrário, passei uma visão prática, sem tecnicismo de qualquer ordem o mesmo
ocorre com o MMA2.
Quando o leitor tiver a facilidade de
consultar bibliografia pertinente ao assunto que se estiver tratando, procurarei ser
rápido e direto; de vez que, se ele mostrar um maior interesse, terá como se aprofundar
no tema. Entretanto, nos assuntos em que não se dispõe de literatura, ou aqueles que
demandaram um maior tempo de pesquisa, procurei ser o mais informativo possível. Àqueles
assuntos que, até por sua natureza, são dinâmicos, darei apenas os caminhos a serem
percorridos. É o caso do balizamento jurídico, que sempre vai exigir uma consulta a seu
advogado, que, diante do fato concreto e das leis atualizadas pertinentes, sempre terão
como dar o melhor encaminhamento jurídico ao seu problema.
Como no MMA, também no MMA2 o leitor não
encontrará fotos de obras de arte - como gostaria. Por uma questão de princípios, não
seria justo o MMA2 dar mídia a alguns artistas plásticos em atividade, em detrimento dos
demais. Essa filosofia será notada em todo o manual, abrindo-se raras exceções de
contexto. Os artistas falecidos, infelizmente, também não terão as suas obras
reproduzidas, tendo-se em vista os rigores da Lei 9.610 de 19/2/98. É que fica muito
trabalhoso se saber, com segurança, quem são os detentores dos direitos patrimoniais
sobre as diversas obras. Já no que toca às obras dos artistas falecidos há mais de 70
anos, que são de domínio público, não são adequadas, a meu ver, ao contexto deste
manual.
Aconselho a leitura seqüencial deste manual;
porém, como aconteceu no MMA, tenho a pretensão de que ele também venha a se tornar o
novo vade-mécum do mercado de arte, uma fonte de consulta diária, por assuntos. Assim, a
função dele não se exaure com a sua primeira leitura, pois, tenham a certeza de que
continuará a ser útil no dia-a-dia dos profissionais do mercado e colecionadores. A
proposta é que este manual se constitua em uma bússola, que indique o caminho das
pedras; é deixar os interessados por dentro das regras do jogo, sem lhes sonegar o pulo
do gato; é deixar o mercado de arte, realmente, ao alcance de todos.