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João Carlos Lopes dos Santos
O número da sorte
Quando se
fala da camisa do Botafogo, vem logo à lembrança o número sete. De fato, todos se
lembram da camisa sete do Garrincha, Jairzinho, Rogério, Zequinha e, mais para perto, das
de Gil, Maurício, e, ainda mais recentemente, embora nem fossem extremas, das de Túlio e
Donizete. Tudo isso em ordem cronológica. Conforme se depreende da lista acima, a camisa
sete não nos remete só aos pontas-direitas ortodoxos, fala-se aqui, grosso modo, de
atacantes que, pelo lado direito, brilharam no time do Botafogo.
Então, qual o número da
camisa abençoada do Botafogo? Ainda misturando um pouco o número de camisa com um
pedaço do campo - até porque as camisas mudam, volta e meia, de função -, diria que a
camisa abençoada do Botafogo é a de número quatro.
Quando Euclides da
Cunha foi morto
Em 1909, ainda não estava
por aqui, mas a literatura policial e esportiva fala de um fantástico fullback
pela esquerda, que se chamava Dinorah de Assis. Foi Dinorah - nome comum aos dois gêneros
- quem deu início a uma série fantástica de jogadores que por ali passaram, quase
sempre vestindo a camisa quatro do Botafogo e que brilharam no futebol brasileiro e
mundial.
Dinorah era irmão de
Dilermando de Assis, um dos protagonistas da tragédia que se abateu sobre a família
Assis e a de Euclides da Cunha. O infausto acontecimento teve como pivô a mulher de
Euclides, Anna da Cunha que, na condição de viúva, casou-se com Dilermando, o matador
de seu marido e de um dos seus filhos ambos os episódios em legítima defesa
e passou a se chamar Anna de Assis.
Os contemporâneos do
triste episódio dizem que a maior vítima da tragédia foi Dinorah de Assis, aspirante a
oficial da Marinha de Guerra e fantástico craque de futebol do Botafogo, que levou quatro
tiros pelas costas, sem nada ter a ver com o rumoroso confronto passional de 15 de agosto
de 1909.
Essa tragédia, da qual
participou sem culpa nenhuma, mudou totalmente o rumo da vida de Dinorah. Euclides da
Cunha, grande nome da literatura brasileira, autor de Os Sertões, foi também o autor dos
disparos. Mas não saiu ileso da tragédia, de vez que nela perdeu a vida, na troca de
tiros com Dilermando de Assis.
Muito além dos
verdes campos
Dinorah - no tempo em que
se chutava bola com o coração - fez questão de entrar em campo, sete dias após ter
sido baleado, para jogar contra o Fluminense Football Club. E não foi só. Jogou
todo o campeonato de 1910, ano em que o Botafogo se sagrou campeão carioca, com uma das
balas alojada na coluna vertebral, junto aos pulmões. A quarta bala disparada, que
atingiu Dinorah junto à nuca, foi minando aos poucos a sua saúde e, quatro anos depois
do episódio, em 1913, o deixou hemiplégico para o resto da vida. Dinorah não só foi
obrigado interromper a sua carreira na Marinha, como também - o que mais lamentava -,
não pode mais jogar futebol pelo Botafogo, sua maior paixão.
Depois de sete anos de
abandono, doenças e bebedeiras, Dinorah de Assis deu cabo à vida em 1921, afogando-se no
cais do porto da cidade Porto Alegre (RS). Morria deste modo a vítima esquecida e
inocente do episódio conhecido como A Tragédia da Piedade, por ter o último
ato acontecido naquele bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro.
E a camisa passou
a fazer milagres
Acredito que foi esse o
início da mística da camisa quatro do Botafogo, dos fullbacks canhotos, dos
beques esquerdos, quartos zagueiros, zagueiros pela esquerda ou qualquer outro nome que se
dê aos defensores que fazem em última instância a marcação dos pontas-direitas ou
atacantes pela direita, que, ironicamente, quase sempre têm o sete às costas.
Já notaram a incidência e
paralelismo, neste texto, dos números quatro e sete?
Depois de Dinorah, tivemos
o argentino Basso, que diz a lenda, inspirou o futebol de Nilton Santos, que o sucedeu
ficando conhecido como a enciclopédia do futebol. Nilton Santos, ninguém contesta, foi o
maior lateral esquerdo de todos os tempos do futebol mundial. O mais interessante é que
Nilton Santos jogou na seleção brasileira até os 38 anos de idade, quando foi
bicampeão mundial no Chile, jogando sempre na lateral esquerda, posição que nunca o vi
jogar no Botafogo: no glorioso, jogava de quarto-zagueiro, mas era sempre convocado para a
lateral-esquerda da seleção brasileira. Curioso, não?
Leônidas, se
lembra dele?
Depois do grande Nilton,
veio Sebastião Leônidas, que foi cortado da seleção campeã do mundial de 1970, por
contusão, dias antes do embarque para o México. Leônidas, sem a menor dúvida, teria
sido o titular da posição inicialmente ocupada por Joel, quarto-zagueiro do Santos, e,
depois, por Wilson Piazza, volante do Cruzeiro, ali improvisado.
Leônidas foi o autor da
mais bela matada de bola que vi no futebol. Numa vitória de 4x1 do
Brasil sobre a Argentina em 1968, com 8 jogadores do Botafogo em campo, sendo técnico o
botafoguense Zagallo, depois de um olé brasileiro de quase 60 passes, um zagueiro
argentino deu um chutão para cima, caindo a bola verticalmente na intermediária
brasileira. Leônidas amorteceu a bola fazendo-a deslizar pelo seu corpo inteiro até
deixá-la dormindo na grama. Conversando com o humorista Chico Anysio, anos depois, ele me
disse que estava no Maracanã e que também se lembrava da jogada com todos os detalhes.
Explicação transcendental
Mais tarde, chegou
Mauro Galvão. Como era bonito vê-lo com a camisa quatro do Botafogo. Depois, passaram
pela posição vários atletas, como Gonçalves, que jogaram com a camisa 4 com muito
destaque. Será que é o Dinorah quem sempre veste a camisa quatro do Botafogo, através
das explicações do Sobrenatural de Almeida do eterno Nelson Rodrigues? Não!
O Sobrenatural de Almeida é tricolor. Estamos tratando de algo em branco e
preto, intercalados em listras verticais e com uma estrela solitária em cima do
coração, preto no branco, como uma verdade absoluta.
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