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O que é Talento ?
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João Carlos Lopes dos Santos


Duas histórias

     Talento não se define, não se explica, testifica-se, detecta-se. Contudo, não podemos fugir dos ditames da teoria: talento é aptidão natural ou habilidade adquirida. Talento me sugere inteligência e cultura excepcionais. Vou lhes contar duas histórias que definem talento.

 

Tinha tudo para dar errado

     O talento em questão nasceu e morreu em Nova York – EUA (1925-1990). Durante o maior tempo de sua vida, conviveu com uma segregação racial absurda e cruel, quando em todos os lugares públicos dos Estados Unidos da América se liam avisos que ali, aqui e acolá era proibida a entrada de negros.

     Esse talento nasceu pobre, feio, esmirrado e, depois, ficou caolho - perdeu o olho esquerdo num desastre de automóvel. Mesmo com esses atributos, foi considerado por muito tempo o ‘Rei do Show Business Mundial’. Foi amigo de presidentes, de governadores e de outras autoridades. Idolatrado pelo público e por colegas de profissão, entre eles Frank Sinatra, que era seu fã de carteirinha. Foi reconhecido mundialmente, apenas, pelo seu TALENTO.

     Cantor, ator, sapateador, humorista, imitador, músico, um showman na verdadeira expressão da palavra. Trabalhou com sucesso em todos os palcos: rádio, teatro, cinema e televisão. Como cantor, vendeu milhões de discos nos quatro cantos do mundo. Costumava iniciar os seus shows – cada dia, um diferente – imitando um personagem qualquer da vida pública norte-americana ou internacional que, naquele dia, estivesse em evidência nas páginas dos jornais. Não se repetia. Como músico, era comum durante o show tocar todos os instrumentos da banda. Era a personificação do talento.

     Era o Sammy Davis Jr. É lógico, você já tinha matado a charada...

Uma orquestra diferente

     Já de Zaquia Jorge, acredito que você nunca tenha ouvido falar. São poucos aqueles que a conheceram. Vamos, então, à segunda história: a de Zaquia. Durante os dias de carnaval de 2001, estava assistindo na TV uma apresentação de uma fantástica orquestra. Não sabia nada sobre ela, tampouco de seu regente. Agora, sei e lhes darei uma dica lá no final da crônica.

     Chamou-me à atenção o fato de que a orquestra era composta de um número inusual de mulheres, tocando de tudo, de trompete à gaita de fole... O público extasiado – não sabia de que nacionalidade era –, de pé, aplaudia demoradamente a cada música. O teatro era enorme, coisa de primeiro mundo. O público totalmente descontraído, casais dançavam nos corredores e junto ao palco. Desfilavam músicas mundialmente conhecidas.

     Indefectivelmente, a orquestra ia de um país para outro. Tudo milimetricamente perfeito. Naquela orquestra, quem tocava apito, pandeiro, cuíca ou qualquer outro instrumento exótico, com certeza deveria ser pós-graduado no local de sua origem. A respeito disso, mais adiante, conto a história de uma "austríaca" e seu apito.

A hora e a vez do Brasil

     E a orquestra ia passeando pelo mundo, ao som das melhores valsas vienenses, clássicos de filmes norte-americanos, música escocesa, francesa, inglesa, tangos, rumbas, só sucessos internacionais. Até que, como não poderia deixar de ser, foi anunciada na telinha uma ‘sinfonia brasileira’. Lenita – para quem não a conhece, minha mulher – e eu ficamos na expectativa das músicas brasileiras que eles iriam tocar.

     Primeira e única mancada da tal orquestra: começou a ‘sinfonia brasileira’ com ‘La Bamba’ que, com absoluta certeza, brasileira não é. Como sabemos, ‘La Bamba’ é do cancioneiro popular mexicano e de domínio público. Mas, tudo bem...

     Depois, veio a ‘Aquarela do Brasil’, de Ary Barroso, o que era de se esperar. Lenita já falava de ‘Garota de Ipanema’, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e outros hits tupiniquins. E eu jurando que a orquestra iria terminar a apresentação, apoteoticamente, com ‘Cidade Maravilhosa’, de André Filho. Aí, veio a primeira surpresa: a terceira música do pot-pourri foi ‘Tico-tico no fubá’, de Zequinha de Abreu.

     A quarta e última, outra surpresa, foi ‘Madureira Chorou’, da autoria da dupla Carvalhinho e Júlio Monteiro, acompanhada de um apito de escola de samba, tocado por uma mulher com pinta de austríaca, mas com um talento para nenhum mestre de bateria do grupo especial da Marquês de Sapucaí botar defeito. Isso mesmo, ‘Madureira Chorou’, com a "austríaca" arrebentando no apito, lembrando-me até do falecido Mestre André, da ‘Bateria Nota Dez’ de Padre Miguel.

     E o show da orquestra terminando, a plateia em delírio aplaudindo de pé, feliz da vida, e os créditos passando rapidamente pelo vídeo ao som do pranto de saudade em homenagem à vedete de Madureira. O maestro se chama André Rieu, que vocês, com certeza, conhecem...

Por quem chorou Madureira

     É aqui que entra Zaquia Jorge. No final dos anos de 1950, eu tinha uns 15 anos. Sempre que passava pelo bairro de Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro, um local de comércio forte, espichava os olhos para a fachada do ‘Teatro de Revista Madureira’, que ficava em frente à estação ferroviária do bairro. Na fachada, eram exibidas várias fotos das vedetes em trajes ditos, então, sumários. Além de bela e talentosa atriz, Zaquia era a dona do teatro e vedete do então chamado teatro rebolado. Usava uns maiôs inteiros cavados, um verdadeiro escândalo na época, mas que, se hoje usássemos o mesmo pano, daria para fazer uns quatro biquínis para as senhoras mais distintas da nossa sociedade.

     No dia 22 de abril de 1957, uma fatídica segunda-feira, tradicional dia de folga dos artistas de teatro, Zaquia foi à praia da Barra da Tijuca, então selvagem e deserta, para um banho de mar. Nesse dia, aos 32 anos, Zaquia Jorge, uma belíssima e talentosa morena de sangue árabe, morreu afogada. Mudaram o nome do teatro para ‘Teatro Zaquia Jorge’, que tempos depois fechou as portas, decerto, sentindo a falta da grande estrela.

     Era Joel de Almeida quem cantava ‘Madureira Chorou’, batucando em seu chapéu de palha dura esse samba exaltação, esse panegírico post-mortem de Carvalhinho e Júlio Monteiro, lançado para o carnaval de 1958, homenageando a bela Zaquia.

     Não me lembrava de Joel de Almeida, tampouco da dupla de compositores. Foram os meus amigos Hamiltom Couto – com ‘m’ mesmo – e José Luiz Aromatis, ambos de Nova Ipanema (Barra da Tijuca – Rio), que gostam e entendem muito da verdadeira música popular brasileira, que encontraram os nomes deles em seus alfarrábios.

O talento faz a diferença

     Estas histórias têm tudo a ver com a força irresistível do talento para quebrar barreiras tidas como intransponíveis. Você, por certo, se lembrará de outras, tão inspiradoras quanto estas que lhes contei.

     Fechando a matéria, para mim, têm talento aqueles que conseguem, pela força de suas obras, serem eternamente lembrados mundo afora. Os que foram aqui citados acreditaram no próprio talento e conseguiram.

     Embora tenhamos muitos talentos para exemplificar, como indiscutivelmente o do maestro André Rieu ou de outros que já são saudade, como Zaquia Jorge, não se pode deixar de relembrar do talento de Sammy Davis Jr., que tinha tudo para dar errado e deu muitíssimo certo. Assim como da dupla Carvalhinho/Júlio Monteiro, que compôs um despretensioso "sambinha", que encanta a todos mesmo a nos lembrar da morte de uma bela atriz. E que, até hoje, consegue encher de lágrimas nossos olhos e de alegria os nossos corações.


"Madureira chorou...

Madureira chorou / Madureira chorou de dor / Quando a voz do destino / Obedecendo ao Divino / A sua estrela chamou / Gente modesta / Gente boa do subúrbio / Que só comete distúrbio / Se alguém os menosprezar / Aquela gente que mora na Zona Norte / Até hoje chora a morte da estrela do lugar / Só eu não posso chorar / Madureira chorou."


POST SCRIPTUM

     Esta crônica me tem rendido dividendos emocionais que jamais poderei esquecer. O primeiro ocorreu logo que a crônica foi para o ar, ali pelo mês de março de 2001. Veio de um artista plástico brasileiro, radicado em Portugal há muitos anos, que de lá me telefonou, dizendo que foi levado literalmente às lágrimas ao ler a crônica. Disse-me que morava num bairro próximo à Madureira e que teve uma infância muito pobre. Quando era menino, vendia balas e amendoim torrado nas ruas, ajudando no orçamento doméstico e fazia ponto em frente ao Teatro de Revista Madureira, depois Zaquia Jorge. Isso, lido na Europa, tão longe de Madureira, no mínimo, dá nó na garganta. A emoção dele, diante de um texto meu, externada em uma ligação internacional, por si só, já justifica a existência dos meus websites.

     O outro retorno foi em janeiro de 2002. Recebi uma mensagem eletrônica de uma parenta de Zaquia, que me falou da sua surpresa ao ver que a atriz ainda era lembrada, depois de tantos anos do seu falecimento.

 


Ficou faltando, agora, apenas a dica que eu prometi dar sobre a orquestra. Simples. Apenas clique aqui e terá uma agradável surpresa musical.


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