João Carlos Lopes dos Santos
Curso
para formação
de marchands
Outro dia, recebi um e-mail com o seguinte teor: Entrei no seu website e naveguei nos seus escritos. Com o direito que me cabe de
discordar, me parece absurda a sua ideia de uma "escola para marchands". Bons ou
maus, eles o são por sua sensibilidade. E sensibilidade não se ensina.
Apreciei a intervenção. Acho que todas as pessoas deveriam
interagir em meus websites, mormente para discordar do que eu digo. Gostaria
que todos fossem francos assim.
Bem intencionada, a maioria dos que interagem formula elogios,
agradecimentos e discursos laudatórios, que me levam a creditá-los apenas como
simpáticos registros. Por isso é que dou muito mais importância às críticas mais
amargas.
Há quem se ofenda com críticas. No meu caso, elas têm efeito
contrário, gosto delas porque me levam à reflexão. Críticas acres - e a em questão
não foi - nunca me abatem, até porque só respondo à minha consciência.
A
verdade de
cada um
No que tange à futura «Escola de Marchands» - usando as
palavras do autor do feedback -, não concordo com os argumentos apresentados
e fico com a integridade dos meus textos, nos quais abordo o assunto com insistência.
Desde que lancei o Manual do Mercado de Arte, tenho sido instado
por diversos marchands novos de todo o pais a ministrar um curso de formação de
profissionais do mercado de arte. Aqueles que me perguntaram pelo curso só não deram
número para formar uma turma porque são de diferentes cidades espalhadas pelo país.
Sensibilidade
é só
o começo
Obviamente que, para o bom exercício da profissão de marchand,
é necessário se ter sensibilidade, diria também que é o requesito fundamental.
Contudo, sensibilidade apenas será insuficiente. O marchand precisa ter ainda outros
pré-requisitos para abraçar com sucesso a carreira: vocação, vivência no mercado de
arte, conhecimento sobre arte, cultura eclética, bom relacionamento com o mercado de uma
forma geral, bom relacionamento social, relativa capacidade financeira e conhecimentos de
propaganda e marketing.
Parece
simples,
mas não é
Atualmente, para a prática da atividade, não há exigências
legais específicas ou de formação profissional. Para se tornar ou se arvorar em
marchand, basta abrir uma galeria de arte ou - se conseguir - sair comprando e vendendo
obras de arte.
Ser marchand, evidentemente, não é só isso. Há outras
atribuições além de comprar e vender. O marchand deve ser um agente, um promotor do
mercado, na acepção mais ampla da palavra, e, principalmente, tem que estar preparado
para o mister.
Embora não haja exigência formal, sem alguns dos
pré-requisitos já mencionados, acho muito improvável que a empreitada venha a ser
coroada de êxito.
Aplainando
o caminho
Trata-se de uma profissão atípica, uma atividade mista, que
envolve comércio e prestação de serviço, para a qual, infelizmente, ainda hoje não se
oferece qualquer tipo de formação acadêmica específica, desconhecendo-se qualquer
notícia sobre cursos intensivos ou algo parecido.
O que se encontra são cursos de história da arte
normalmente dirigidos aos interessados em artes plásticas de uma forma geral - que muito
ajudam, mas que não são específicos para formação de marchands.
A profissão de marchand também não tem qualquer tipo de
regulamentação profissional, tais como sindicato, conselho ou entidades afins, que
congregue os profissionais do ramo.
Conhecimento
técnico
é valioso
Há marchands oriundos de vários segmentos profissionais, com
formações as mais variadas: engenheiros, médicos, advogados, jornalistas e militares
reformados, entre outros. Uma parte deles divide o tempo entre as duas atividades, a outra
abandonou de vez a anterior, por força de aposentadoria ou, como no meu caso, por
opção.
E é por isso que, com o meu projeto, objetivo dar um apoio
específico àqueles que têm vocação. Não se trata de entregar um mero diploma de
marchand, mas sim dar ao interessado um conhecimento técnico sólido.
Estudo, cultura e formação profissional nunca atrapalham, só
podem acrescentar. Isso é axiomático.
Valores
intrínsecos
dão o respaldo
É claro que, em tudo isso que foi dito aqui, estão implícitos
os valores pessoais básicos que todos os profissionais devem ter. Falo de honestidade,
ética, transparência e caráter, ainda mais pelo fato de se tratar de uma profissão
atípica, não regulamentada, sem um órgão direto que a fiscalize.
Tenho certeza de que um dia o Curso para Marchands
será realidade. Só depende de um reitor inteligente com vocação para mecenas que
dirija uma das universidades deste país.
Mecenas, porque o lucro não será imediato, inteligente, porque o Século XXI, decerto,
será das artes e da cultura, até porque os incontáveis artistas plásticos em atividade
no país necessitam urgentemente de marchands.