|
João Carlos Lopes dos Santos
O
TURISTA ACIDENTAL
O grande Nelson Rodrigues detestava se afastar do Rio de Janeiro. Sabendo disso, para
provocá-lo, os amigos perguntavam: «Como é, Nelson, vais à São Paulo ver o Fluminense
jogar?» E ele, com sua voz inconfundível, respondia: «depois do Méier, começo a
sentir saudades do Brasil». Para quem não sabe, o Méier é um tradicional bairro da
zona norte, que dista cerca de 15 km do Centro do Rio de Janeiro.
Vou defender a tese do Nelson, mesmo discordando dela, afinal, sobre alguma coisa tenho
que discordar do gênio, até para conferir razão a ele, quando dizia que "toda
unanimidade é burra".
Ao contrário do Nelson, se pudesse, viveria viajando, até porque - não tenho dúvidas -
o meu carma é administrar as dificuldades que me são impostas pelas circunstâncias que,
por isso ou por aquilo, sempre me impedem de viajar. Mas uma coisa é certa, não morro
sem conhecer Portugal, Itália, França e Espanha.
ABRINDO OS OLHOS
PARA A GUANABARA
Sonhos à parte, vamos ao programa legal.
Há cerca de uns dezenove anos, fiz uma fantástica programação de férias de meio de
ano. Comecei a imaginar quantos estrangeiros se deslocam para conhecer os pontos
turísticos do Rio de Janeiro: Corcovado; Pão de Açúcar; Corredor Cultural; Barra da
Tijuca (hoje tão completa em entretenimentos) e Recreio dos Bandeirantes, com seus quase
vinte quilômetros impolutos de praia e muito mais.
Deduzi que, se era bom para os turistas, deveria também o ser para a minha família. Foi
o que fizemos, um dia em cada ponto turístico do Rio. E lá estávamos nós, misturados
aos japoneses, franceses, italianos, norte-americanos, espanhóis, ouvindo de tudo, menos
o português. No que concerne ao passeio ao Corcovado, Pão de Açúcar e os demais pontos
turísticos, não há porque aqui me alongar, todos conhecem ou imaginam a grandiosidade
do passeio.
O ESPELHO DA ARTE
NO RIO DE JANEIRO
Gostaria de falar do Corredor Cultural do Rio de Janeiro, um programa que, já naquela
época, foi inesquecível. Poucos conhecem o Corredor Cultural. Localiza-se no Centro da
cidade, onde se concentram os museus, vários centros culturais, a Biblioteca Nacional, o
Arquivo Nacional, o Teatro Municipal, sem se falar do Clube Naval e do Clube Militar - que
valem a pena ser visitados, tendo-se em vista não só o patrimônio arquitetônico como
também artístico.
Há também as igrejas que, independentemente da religião de cada um, devem ser vistas
por todos que gostam de arte. Todo esse circuito pode ser feito a pé durante os dias da
semana, no horário comercial, quando o Centro do Rio de Janeiro é relativamente seguro.
É um corredor cultural democrático, pois o Centro é um lugar sem status social; todos
que por ali transitam, de operários e estudantes a empresários e intelectuais, podem
dele usufruir.
INFRAESTRUTURA
SEMPRE AJUDA
Sempre que posso, curto o "pedaço". Morando ou vindo ao Rio de Janeiro, não
deixem fazer o circuito cultural completo, pois creio que também vocês farão um passeio
inesquecível. Há um serviço eficiente e barato: o Tour Cultural. Trata-se do transporte
coletivo especial - microônibus com 30 lugares e ar condicionado - que faz a ligação
entre os principais museus e espaços culturais do Centro da cidade.
Procure o Centro de Atendimento ao Turista da Riotur (Alô, Rio-Turistas), localizado na
Av. Princesa Isabel, 183-térreo, CEP 22011-010, no bairro do Leme, telefone (21)
2542-8080, que este lhe fornecerá, graciosamente, uma publicação atualizada.
A propósito, em todas as cidades - do Brasil ou do exterior - por menor que sejam,
encontra-se tesouros culturais e artísticos que merecem a sua atenção; é só procurar
os órgãos municipais que cuidam do turismo das cidades por vocês visitadas, pois eles
sempre têm à disposição informações sobre o roteiro cultural.
SANTO DE CASA NÃO
FAZ MILAGRE
E você, já fez o circuito cultural da sua cidade? A realidade, nua e crua, é que os
"bichos da terra", de todas as partes do mundo, não curtem o turismo de suas
próprias cidades.
Achei os programas inesquecíveis, porém, nunca mais voltei ao Corcovado e ao Pão de
Açúcar. Com toda certeza, a maioria dos parisienses, também, não curtem as belezas da
Cidade Luz, do alto dos 300 metros da Torre Eiffel. Quase ninguém dá valor ao que
possui.
Conheço vários cariocas que gostam de curtir os feriadões no Rio de Janeiro. Dizem que
o Rio, nessas épocas, com a debandada geral, volta ter a tranqüilidade dos anos 60/70, a
cidade fica vazia e a locomoção, estacionamento, cinemas, teatros, restaurantes da moda,
tudo fica mais fácil.
O MUNDO BEM ALI
NA ESQUINA
De fato, também não vejo muita graça nos deslocamentos dos feriadões, quando muitos se
aventuram em viagens de gosto duvidoso - aquelas quando se vai para um "perto bem
longe", ou seja, quando, para se percorrer uns cento e poucos quilômetros, é
preciso enfrentar um engarrafamento de seis horas de estrada - na ida e, depois, na volta.
É um autêntico "programa de índio": tomar banho de mar pela manhã e banhos
de repelente para mosquito o resto do dia, já que, para água doce, em muitos lugares,
não há adutora que comporte o inchaço dos grandes feriados.
Quem sabe não seria melhor, nessas oportunidades, ficar na sua cidade, seja qual for,
curtindo o que ela tem de bom? Mas o que ela têm de bom? Nós quando vamos aí na sua
cidade - São Paulo, por exemplo - achamos um monte de coisas gostosas para fazer.
.
|
|