João Carlos Lopes dos Santos
Tobe, o que é isso?
Tobe é o nome do cachorro que apareceu lá em casa. Casa, é como a maioria - até
aqueles que moram em apartamento, como eu - se refere à própria moradia.
O
cachorro aparece nas nossas vidas sempre com uma historinha já pronta, mas aparece e é
fato consumado. Lá está o Tobe, que já veio com nome, presumo que tenha sido dado pelo
Brunel Delano, um ser imaginário que também habita a nossa casa e é usado nas minhas
baboseiras literárias, mas com a grande vantagem de não fazer xixi no tapete ou
aromatizar o elevador, tampouco trazer incômodos aos vizinhos.
O pretenso dono do cão
Quem
chega com o cachorro é sempre o pretenso dono dele, cheio de histórias e amor para
dar... Depois, passa a incumbência de lavá-lo, alimentá-lo, vaciná-lo e a levá-lo ao
veterinário, assim como aos diversos passeios fisiológicos, para alguém que quase
sempre é contra, ou melhor, é a favor do cachorro.
É a
favor, por que acredita que lugar de cachorro é no habitat dele, ou seja, num
quintal, com uma parceira de sua espécie, para que tenha um vida normal. A maioria que
gosta de cachorro não vê o lado do animal.
Já vi que esse cara
não gosta de cães...
Pelo
contrário, ninguém gosta mais de cães do que eu. Em toda a minha vida, tive
tão-somente um: chamava-se Tarzan, um policial de pelo duro, muito forte, que deixou seus
genes por toda a nossa rua e adjacências.
Morávamos no Méier, numa casa com um quintal enorme, todo arborizado com pés de
carambola, sapoti, tamarindo, manga espada; que saudades... Além desse paraíso, o Tarzan
era o dono da rua. Cachorro, naquela época, tinha vida social, vivia impunemente na rua,
sem coleira ou mordaça. Os cães de todo mundo viviam na rua. Se você não acredita,
azar seu; aliás, duplo azar, já que não viveu naquela época, tampouco onde vivi a
minha infância.
E a carrocinha?
A
carrocinha pegou três cachorros de uma vez, a carrocinha pegou três cachorros de uma
vez, tralalá que gente é essa, tralalá que gente má. Lembram dessa cantiga de
roda?
Durante toda a minha infância e adolescência, jamais tive notícia de que um cachorro
tivesse mordido alguém na nossa rua. Cachorro ia para rua pegar cachorra e brigar com os
machos concorrentes, depois voltava para casa, que era onde estava o angu com bofe, maná
tradicional dos cães naquela época. Ração? Ninguém sabia o que era isso...
Um dia
pintou a carrocinha de cachorro e a rua ficou em pé de guerra, todo mundo de
barra-de-ferro na mão. Os caras foram embora e voltaram com os «meganhas» fardados de
cáqui, montados em cavalos. A turma encarou e o pau quebrou. Resultado, todo mundo foi
parar na delegacia do Jardim do Méier. Apareceu um vereador, que conversou com o
Delegado, e ficou tudo bem. Esse negócio do «jeitinho» vem de longe...
Essa
passagem me marcou tanto que, quando via os «meganhas» em cima dos seus enormes cavalos,
do alto dos meus nove anos de idade, dedo em riste, dizia-lhes em tom ameaçador:
- Vou chamar o
vereador, hein...
Obviamente, que os policiais não entendiam nada e iam em frente.
De
fato, no antigo Distrito Federal, nos anos 50, os vereadores tinham muita autoridade,
«prendiam e mandavam soltar...»
A importância dos cães
Nessas histórias e, decerto, outras tantas que vocês têm para contar, é que se vê a
importância dos cães na vida das pessoas.
Sei de
fatos reais em que a vida das pessoas giram em torno dos seus cães: escolha de
residência, recusa de viagens ao exterior, separações de casais, quando a mulher opta
pelo cachorro ou vice-versa, e coisas que tais.
Por que tanta fidelidade
aos cães?
Não é sempre que nossos familiares abanam o rabinho para gente... Estou mentindo?
Todo mendigo
tem um cachorro. Você já viu um cachorro mudar de dono? O do mendigo não troca o dele
nem por um açougueiro milionário. Aceita a carne e os ossos, mas volta para o mendigo.
Em
pequenos povoados de todo o mundo, é comum o cachorro acompanhar o caixão de seu dono ao
cemitério, se recusar a abandonar a campa, passando a viver lá, como que esperando que
ele saia dali um dia...
E a história do seu
cachorro?
- Meu cachorro?!
Que cachorro?!
- O Tarzan, o
único que você teve!
Vocês
já notaram que esse cara que está dialogando comigo, é o Brumel Delano, o meu alter
ego.
Mas,
como eu ia dizendo, nossa casa tinha um terreno muito grande. A casa começava com uma
escadaria que passava por um jardim e chegava à varanda. Nesse plano ficava a casa
propriamente dita, bem no centro do terreno. À direita, mais uma escadaria que dava para
o quintal onde havia as tais árvores frutíferas.
O
Tarzan transitava por todo o terreno, mas sempre estancava nas diversas soleiras das
portas. Dentro de casa, jamais. Era o meu companheiro para tudo. Não tinha a menor
intimidade com o Zezinho, meu único irmão, sete anos mais velho do que eu. Dona Amália,
minha mãe, é quem lhe servia o angu com bofe. Meu pai, me parecia, não dava a menor
bola para ele. Obviamente, o Tarzan era meu.
A idade chega para todos
Os
anos se passaram, eu e Tarzan estávamos com cerca de 15 anos. Eu em pleno vigor e o
Tarzan, aos poucos, ia ficando cada vez mais cego e paralítico. Primeiro de um olho,
depois das patas traseiras, depois o outro olho atacado por catarata e ia o bicho
definhando... Mesmo assim, subia e descia a escadaria que dava para o quintal
arrastando-se pela parede, o que era denunciado pela mancha do encardido que seu corpo
formava, do quintal à varanda, sua monotrajetória de final de vida.
Um
dia, às 10 horas da noite, como de praxe, depois de um programa do Ibrahim Sued na
televisão, onde ele lia - gaguejando sem parar - as notícias mais importantes daquele
dia, meu pai disse à minha mãe que iria estender o pano para o Tarzan.
Esqueci de lhes dizer que meu pai, sistematicamente, ao longo dos possíveis 15 anos de
vida do Tarzan, às 22 horas, estendia-lhe um pano de chão, na varanda, e o bicho ficava
ali olhando para o portão principal, que não tinha cadeado nem fechadura. De vez em
quando, ele dava uma volta em torno da casa e seus passos eram ouvidos através das
janelas que, como era costume, só se fechava quando fazia frio. Bons tempos, aqueles...
Retornando: ao término do programa do Ibrahim Sued, minha mãe disse ao meu pai:
-
José, infelizmente, o Tarzan não está na varanda. Hoje, pela manhã, pedi ao Severino -
nosso caseiro -, que o levasse lá para o quintal. Agonizou o dia todo, por essas horas,
já deve ter morrido.
- Mas
o Tarzan está na varanda, estou ouvindo os passos dele - disse meu pai, levantado-se para
abrir a porta que dava para a varanda.
E,
creiam, lá estava o Tarzan de pé, firme nas quatro patas. Meu pai estendeu o pano, ele
se deitou e nos estertores de sua agonia esticou as quatro patas e, naquele momento,
morreu.
Nunca
tive um cachorro, Tarzan era do meu pai e eu não sabia.
E o Tobe?
O
Tobe não precisa de fêmea, tosa, banho, comida, vacina, veterinário e de passeios
fisiológicos. É o cachorro virtual do Brumel Delano, que, como o dono, é um ser
imaginário que também habita o nosso apartamento. Ambos dormem no meu computador, e são
usados nas minhas baboseiras literárias.
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