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João Carlos Lopes dos Santos
Nós
éramos felizes
e não sabíamos
Continuando
as minhas elucubrações no Carnaval de 2002, dizia que conversava com o Brumel Delano
o meu alter ego virtual , na varanda lá de casa, e chegamos à
conclusão de que éramos muito felizes e não sabíamos...
Esses
nomes estranhos
Os mais jovens devem estancar diante da palavra
leiteiro, assim como para outras palavras como carvoaria, venda, quitanda, leiteria,
peixaria, todos estabelecimentos comerciais do passado que foram engolidos pela voracidade
do supermercado.
O açougue, ao que me parece, está agonizando. A padaria, o botequim, o armarinho e a
farmácia resistem bravamente, mas não se sabe até quando.
O leite «batizado»
O leite era vendido nas ruas, de manhã, e o leiteiro aparecia junto com o sol, muitas
vezes antes dele.
O leiteiro chegava numa carroça-pipa puxada por um cavalo e, depois, evoluiu para uma
caminhonete-pipa. Vendia um leite puro e saboroso. Leite integral que dava uma nata para
ninguém botar defeito.
Um dia, prenderam o leiteiro. Fiscais da "Economia Popular" chegaram num carro
preto, fizeram uma análise do leite, ali mesmo na rua, com uns instrumentos de precisão
discutível e deram voz de prisão ao pobre do leiteiro, pelo odioso crime de ter
adicionado 5% de água ao leite...
O leiteiro, chorando, alegava que era obrigado a colocar uma barra de gelo na pipa do
leite, para que o mesmo não fermentasse com o sol da manhã. Tudo em vão, o leiteiro foi
levado preso e nunca mais se soube dele. Juro que aquele leiteiro era inocente, não tinha
perfil para o delito e, além do mais, o leite era i-m-p-e-r-d-í-v-e-l...
Tudo industrializado
A partir daí, o leite passou a ser vendido na padaria dos irmãos João e Luiz, dois
portugueses de meia-idade muito bacanas, nos tradicionais litros de vidro.
Todo o dia, lá ia eu comprar duas bisnagas de pão, 100 gramas de manteiga, 200 gramas de
café moído na hora e um litro de leite que vinha gelado. Lembro-me de ter feito,
certa vez, um comentário:
- Cuidado, Seu Luiz, o leiteiro foi preso porque estava vendendo leite gelado...
E ele me respondeu, rindo, com a frase de sempre:
- João, João, pilhaste-me um tostão...
Só muitos anos depois, é que eu fui saber o que queria dizer aquela frase recorrente do
Seu Luiz.
Como
os tempos mudam; hoje, o leite desnatado o mais procurado nem se compara ao
leite que era vendido na caminhonete-pipa da minha infância e ninguém vai preso...
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