João Carlos Lopes dos Santos
Nós
éramos felizes
e não sabíamos
Continuando a comparar o
passado com o presente, ponderações ocorridas durante no Carnaval de 2002, eu e o Brumel
Delano o meu amigo e alter ego virtual , com certeza,
concluímos que éramos felizes e não sabíamos.
Transportes e restaurantes
nos anos dourados
Já tinha uns 18 anos. No Rio de
Janeiro, à noite, não havia transportes coletivos e restaurantes. A cidade praticamente
parava para dormir. Um ou outro automóvel noctívago era o que nos impedia de dormir nos
trilhos dos bondes.
Onde comer à noite, após
as 22 horas? Havia, apenas, duas opções. Em uma leiteria da Lapa, onde se sentava à
mesa para tomar café com leite, pão e manteiga, ou o imperdível "Angu do
Gomes", na Praça XV. A companhia dos famigerados malandros da época, em ambos os
lugares, era inevitável.
Saíamos dos bailes do
Hotel Glória, dos clubes Sírio e Libanês, Hebraica ou do
Fluminense F.C., às 4 da madrugada, e de roupa a rigor , íamos
a pé até à Praça XV, muitas vezes atravessando a "perigosa" Lapa com seus
famosos "meliantes", sem jamais encontrar um carro da polícia...
Se a fome apertava na Lapa,
o bando de moças e rapazes entrava numa leiteria ou, se ainda não estivesse aberta,
administrávamos a fome até a carrocinha do Angu do Gomes, que estava sempre
lá, junto às Barcas da Cantareira. Já tive algumas intoxicações, mas nunca nas
carrocinhas do Angu do Gomes....
Esperávamos o primeiro lotação um micro-ônibus de 18 lugares
montado em chassis de caminhão , batendo papo com os trabalhadores da noite,
músicos e cantores, entre eles o saudoso Pedrinho Rodrigues, o crooner do
"Conjunto do Ed Lincoln", até as cinco da matina, quando chegava o lotação e
dormíamos a viagem toda, jiboiando o angu, até o motorista nos acordar no local
previamente indicado.
O estranho é que nunca
fomos assaltados e, às vezes, esperando o lotação, ficávamos batendo papos com os
"bandidos" da época, e ainda filávamos deles um cigarro.
O perigoso inseto
da época
Havia um minúsculo inseto que incomodava a população: o lacerdinha. A
praga foi introduzida no Brasil em 1961, originário da Ásia Oriental, que se propagava
no fícus, um arbusto que hoje quase não se vê mais. O nome, verbete do dicionário
Aurélio, "homenageava" o então Governador do Estado da Guanabara, o udenista
Carlos Lacerda, decerto, por inspiração de seus inimigos políticos do PTB getulista.
Todos reclamavam, pedindo a
erradicação dos tais lacerdinhas, que nos levavam ao auge do desconforto quando caiam
nos nossos olhos. Os lacerdinhas sumiram e o fícus quase não é visto na cidade. Hoje,
temos muitas bromélias, muito descaso com o assunto e, por via de consequência, o
mosquito da dengue...
Como em
toda regra há exceção, os restaurantes cariocas hoje abundantes
melhoraram da água para o vinho, mas que saudade dos lacerdinhas e dos
"bandidos" daquela época...
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