João Carlos Lopes dos Santos
Nós éramos felizes
e não sabíamos
Mais uma
conversa ocorrida no Carnaval de 2002, na varanda lá de casa, com o Brumel Delano
o meu alter ego virtual, aquele que mora no meu computador e chegamos à
conclusão de que éramos muito felizes e não sabíamos...
Férias em Icaraí
Como as coisas mudaram. Hoje, se um carioca disser que vai passar as
férias em Icaraí, Niterói, na antiga capital do Estado do Rio de Janeiro, ninguém vai
entender... Mas já houve época, até a construção da ponte Rio-Niterói, no final dos
anos 1960, que passar férias em Icaraí era, no mínimo, chique.
Um lugar mágico
A Praia de Icaraí era
muito longe... De carro, levava quase duas horas. Sem a ponte, tínhamos que dar a volta
em toda a Baía de Guanabara, passando por Magé. Ou, então, umas três horas ou mais,
quando enfrentávamos uma fila quilométrica na Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro,
para colocar o automóvel dentro de uma barcaça que atravessava a Baía da Guanabara.
Aí, com o carro embarcado, se chegava rapidamente à Niterói.
De transporte coletivo
também era uma epopeia: ia-se de lotação até a Praça XV. Lá, pegava-se a Cantareira
até a terra de Arariboia e, depois, um trólebus até Icaraí. Traduzindo-se: pegava-se
um micro-ônibus de 18 lugares, que literariamente voava até as Barcas S.A. Lá, na
Praça XV, pegava-se uma das ditas cujas até Niterói e, depois, um ônibus elétrico
até Icaraí.
Tenho uma declarada paixão
por Icaraí. Niterói nomeadamente Icaraí e a região oceânica é uma
cidade muito bonita. Logicamente, não estou me referindo só à vista fantástica do Rio
de Janeiro, tomada de Icaraí. Isso, também, faz de Niterói uma cidade maravilhosa.
Por um acaso, comecei a
namorar a minha mulher em Niterói. E não foi por acaso que o meu time de coração, sem
tirar um pé da tradição de General Severiano, em Botafogo, andou colocando o outro no
Estádio Caio Martins, em Niterói, cidade com excelente poder aquisitivo.
Aconselho àqueles que não
conhecem ou não têm ido a Icaraí e à região oceânica de Niterói , que
façam o circuito turístico que fazia quando tinha uns 17 anos. Garanto que vão gostar.
Niterói é uma cidade
organizada, limpa e, me parece, relativamente segura. Estou falando de uma das melhores
cidades do país em qualidade de vida e com um dos menores índices de analfabetismo.
A Família Madeira
Anualmente, em janeiro ou
fevereiro, a família Madeira passava as férias de verão em Icaraí. Quase um mês
tomando banho de mar, hospedados no Icaraí Palace Hotel, na Praça do Ingá, hotel
construído com muita madeira e pouca alvenaria, à beira mar. Há muito tempo, ele foi
demolido e no seu lugar vemos hoje edifícios de altíssimo nível.
Às sextas-feiras, eu era
convocado pelo meu amigo Maurício Madeira, para passar o final de semana com eles,
voltando à minha casa no domingo à tarde. Eram finais de semana memoráveis: o mar era
azul, os dias dourados e a fome...
A fome era negra
Imagine uma turma de
garotos e garotas, para cima e para baixo, pegando praia o dia todo e, chegando na hora do
almoço e do jantar, encarando um cardápio francês fantástico, mas minguado...
Lembro-me do inigualável
arroz singelo do hotel, realmente imperdível, mas numa quantidade de irritar. Em todas as
refeições o Seu Abel, diga-se de passagem, uma boníssima alma, chefe do clã Madeira,
como todo bom português, habituado à fartura, "morria" num extra para saciar a
fome da garotada: arroz singelo com ovos estrelados. Até o extra era minguado...
Caça ao siri
O jeito era voltar para a
praia à noite, em frente ao hotel, apetrechado de puçá e uma lata de banha vazia, para
pegar uns siris. Simples: fazia-se uma fogueira, enchia-se a lata originalmente
usada para enlatar 20 quilos de banha de porco com a água do mar, que ficava
fervendo na fogueira. O puçá sempre cheio de siris, que entravam cinzentos na água
fervente e saiam vermelhos para os buchos famintos da moçada e dos passantes, que traziam
cerveja em troca de siris cozidos.
Hoje, a
Praia de Icaraí continua arrumada, com um povo bom, mulheres bonitas, restaurantes
agradabilíssimos, mas lhe falta os amigos de então, o lotação, a barca da Cantareira,
o trólebus, o Icaraí Palace Hotel, a Baía da Guanabara com a água limpa, a fogueira na
praia, a lata de banha, os siris cozidos, a permuta com as cervejas e, ia me esquecendo,
do minguado e fantástico arroz singelo...
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