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João Carlos Lopes dos Santos
De pronto, tenho a dizer que sou contra o confinamento de animais de estimação em
apartamentos ou gaiolas. Comungo da opinião daqueles que defendem a tese de que os
animais devem viver em seu habitat, com parceiros de sua espécie, enfim, que
tenham uma existência natural.
Mas vamos a história do Fujão. Há uns quatro anos, o meu filho mais velho apareceu com
um periquito dentro de uma gaiola, dizendo que o bicho ficaria lá por uns dias...
E o bicho
que não era um periquito, mas sim um agapornis fischeris, uma espécie de
periquito africano, originário da Tanzânia, detentor de um trinado agradável, longo e
forte foi ficando por lá...
Tratava-se de um pássaro lindo, bico vermelho, de um verde inenarrável contrastando com
um amarelo manga. Parecia que tinha saído de um quadro de Baptista da Costa, importante
pintor acadêmico, famoso pelos seus verdes.
E lá estava o engaiolado, já há algum tempo, arrebentando o peito de cantar, até que
concluí que ele tinha vindo para ficar.
Apurei que tinha vindo do Méier, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, e que de lá já
tinha fugido e voltado na companhia de umas rolinhas.
E o bicho fugiu
de novo
O Fujão, que tinha uma habilidade fantástica,
conseguiu abrir a porta da gaiola e fugiu, ao que se saiba, pela segunda vez.
Todos os dedos da família, em riste, apontavam para o único responsável pela fuga.
Afinal, quem tinha feito discurso contra a presença do pobre bichinho... Como costumo
dizer, só respondo à minha consciência e deixei as acusações para que fossem
desmentidas pela verdade.
Concluí ainda que, se tinha fugido, só poderia ter sido porque estava achando
desconfortável a prisão a que tinha sido, injustamente e à revelia, condenado. Além
disso, era uma tremenda maldade deixá-lo sem uma parceira dentro de uma gaiola.
Não posso negar que fiquei feliz com a fuga, embora tenha me sentido injuriado com as
acusações de que a teria facilitado.
Contudo, o Fujão estava por perto. Tentou fazer pouso nas árvores do nosso edifício e
nos próximos, mas os outros passarinhos lhe davam passa-foras, agindo de forma bem
diferente das rolinhas solidárias e companheiras do Méier. E o Fujão ficou de lá para
cá, durante 24 horas, sob os olhos torcedores de toda a família, até que, faminto,
voltou à gaiola, mantida, inteligentemente, por meu filho de porta aberta. Ouvi barulho
na gaiola e lá estava o Fujão, vesgo de fome, traçando vorazmente a sua ração. Sequer
se assustou quando fechei a porta da gaiola.
Aí decretei: o bicho só fica se encontrarmos uma fêmea para ele.
Tenho testemunhas
oculares
No dia em que a fêmea chegou, a primeira coisa que o Fujão fez, amável como sempre,
cheio de salamaleques, foi pegar comida e colocá-la na boca da parceira.
Tempos depois, a parceira do Fujão se envolveu com a tigela dágua e ficou debaixo
dela, se debatendo sem conseguir de lá sair. Eu e demais circunstantes, às gargalhadas,
assistíamos ao desespero do Fujão, que queria livrar a companheira da aflição. Até
que conseguiu. O ser humano, decerto, é muito cruel...
O Fujão era um bicho vaidoso. Invariavelmente, às 10 horas da manhã, por conta
própria, tomava o seu banho e ficava parecendo um pinto molhado. Depois, com o bico,
"penteava" todas as suas penas. Quando secava, ficando lindo, novo em folha.
Não entendo de passarinhos, mas o comportamento do Fujão era incomum. Tinha atitudes que
denotavam inteligência, poder de dedução e coerência.
Se a gaiola ficasse à noite no banheiro de empregada, pela manhã procurava chamar a
atenção de quem chegasse à cozinha, para que a gaiola, depois de reabastecida, fosse
colocada na varanda. Quando dormíamos até tarde e só tirávamos a gaiola de lá por
volta do meio-dia, ficava de cara emburrada, não cantava e ficava olhando para quem o
tirasse de lá, sério, como que reclamando a falta de consideração.
Provavelmente, por ter sido assistido pelas rolinhas do Méier em sua primeira fuga, tinha
um carinho especial por todas as rolinhas que, à época, faziam ponto em nossa varanda. E
não é que o Fujão se debatia na caçamba da ração, espalhando a comida pelo chão da
varanda, para que as rolinhas se alimentassem? Depois, ficava no fundo da gaiola, olhando
para baixo, observando as rolinhas catando o alpiste pelo chão. Tenho várias
testemunhas...
Quando o carcará dava um rasante na área, uma ave de rapina que andou atacando várias
gaiolas no nosso bairro e que acabou morto a golpes de vassoura por uma empregada
doméstica enfurecida, o Fujão se encolhia no fundo da gaiola, pretendendo ficar
invisível...
O Fujão era solidário, gentil, tinha um enorme espírito de gratidão, simpático,
inteligente, coerente, habilidoso, bom cantor e, quando a fome não o apertava, tinha um
enorme amor à liberdade.
E ele fugiu pela
derradeira vez...
No dia 30 de novembro de 2002, traído pelo seu bom coração, o Fujão caiu fulminado por
um violento enfarte, para a tristeza geral da família, pois, dessa vez, todos sabemos que
ele não vai voltar.
As rolinhas
também têm certeza disso: nunca mais apareceram na varanda lá de casa...
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