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João Carlos Lopes dos Santos
As
grandes metrópoles brasileiras devem muito à força de trabalho dos nordestinos. Do
início dos anos 50 a meados da década de 80, época do boom da construção
civil, eles foram os grandes pilares da atividade. Não raro, os encontramos ainda nos
edifícios que construíram, trabalhando como funcionários, executando os mais variados
serviços.
Meu pai era um advogado que tinha como hobby a
construção civil. A princípio reformava, depois passou a construir as suas
"gaiolas", para ele e para os amigos. Chamava de "gaiolas", os
apartamentos de sala, quarto, cozinha e uma pequena área de serviço, que fazia em
pequenas edificações de dois andares, dois por andar, objetivando renda de aluguel.
Ao contrário dele, nunca fui chegado à
construção civil, mas, em diversas oportunidades, fui o fiscal de suas obras. À tarde,
ele ia ver os seus processos no Fórum e me deixava plantado na construção, tomando
conta.
Os meus problemas
acabaram...
Foi quando, num belo dia, surgiu do nada
um nordestino, magro mas forte. Devia ter uns trinta e cinco anos de idade.
Ele chegou manso e me perguntou:
- Moço, tem vaga para servente de pedreiro?
Vivíamos o final dos anos 60, numa época de
pleno emprego, quando era comum até aliciar os empregados dos outros. A rotatividade dos
empregados era grande. Os já ocupados se demitiam, iam de emprego em emprego, procurando
ganhar um pouco mais... Arranjar um bom pedreiro era coisa muito rara. Com a sua fama de
bom patrão, meu pai não tinha dificuldades, mas a mão-de-obra era escassa.
- Meu pai já está chegando. Espera aí.
E ele ficou ali parado, sem falar nada,
esperando.
Meu pai tinha jeito para lidar com os
operários.
- Como é o seu nome? Disse ele, quando
chegou.
- Severino.
- De onde você é, Severino?
- Da Paraíba.
- De que cidade?
- Pilar.
- Fica perto de onde?
- De Campina Grande.
- Trabalha como servente há quanto tempo?
- Seis anos.
- E, ainda, não virou pedreiro?
- Não, senhor.
- Trouxe a carteira de trabalho?
- Sim, senhor.
- Está empregado. Quando pode de começar?
- Agora mesmo.
Para encurtar a história, Severino morava de
favor, sozinho e longe, não sei onde. Meu pai fez dele o seu homem de confiança,
ensinou-lhe o ofício de pedreiro.
Tinha mulher e filhos, todos na Paraíba.
Naquele mesmo dia, passou a morar num galpão nos fundos do quintal da nossa casa. Só
depois de alguns anos, alugou uma casa e trouxe a família para morar no Rio de Janeiro.
Quando meu pai não tinha obra, o dispensava
para trabalhar em outro lugar. Quando as retomava, chamava o Severino e ele voltava.
Construindo para
Saddam Hussein
Ali pelo início dos anos 80, tive a notícia
de que ele tinha ido ao Iraque, contratado por uma grande empreiteira, construir estradas
e pontes para o governo do Saddam Hussein, aquelas mesmas que vimos pela televisão, nos
noticiários da Guerra do Iraque de 2003.
Quando ele voltou, meu pai estava doente e já
tinha parado de fazer obras. Severino morava com a sua família e trabalhava não sei
onde, mas todos os domingos, às oito da manhã, como sempre fez a partir do dia que
conheceu o meu pai, chegava lá em casa e ficava até de tarde. Conversava com meu pai,
contando como tinha sido a sua semana de trabalho ou consertando alguma coisa lá em casa,
virou uma espécie de filho do meu pai.
«A Impecável Maré Mansa»
Não me lembro da voz do Severino, pois
falava muito pouco, o necessário, mas me recordo da sua fisionomia de homem de bem,
confiável.
Andava limpo e bem composto. Comprava suas
roupas na «A Impecável Maré Mansa», uma loja popular que tinha o seguinte
esquema de venda a crédito: os trabalhadores, que tivessem a carteira de trabalho
assinada, tinham crédito automático. Bastava apresentar a carteira de trabalho, que, se
quisesse, saia da loja de fatiota, sapato e demais acessórios novos. Dizia a propaganda
no rádio: "Na Impecável - Maré Mansa, você não precisa de avalista e de mais
nada, basta a sua carteira assinada".
Há uns dez anos, tive a felicidade de ouvir o
depoimento de um dos sócios da empresa. Perguntado se, à época, havia muita
inadimplência no crediário da "A Impecável", respondeu:
- O percentual de inadimplência era
desprezível... Os trabalhadores, mormente os nordestinos, são muito corretos. O único
patrimônio que eles têm é o nome limpo. Quando não podiam pagar, quase sempre por
dispensa no emprego, iam à loja para se justificar e, novamente empregados, retomavam os
seus pagamentos. Quando algum deles não honrava o seu compromisso, procurávamos saber
junto aos empregadores e, invariavelmente, tomávamos conhecimento de uma história triste
de queda de andaime e de outros tipos de acidentes letais.
Voltando ao Severino
Era de uma generosidade espantosa, que nem
cabe aqui me alongar. Tinha caráter e lealdade, que é raro de se encontrar.
Ali por meados de 1985, meu pai caiu de cama
por força de longa enfermidade, para morrer em 20 de maio de 1987.
Mesmo assim, com meu pai já inconsciente,
Severino não deixava de chegar às 8 horas da manhã de domingo para a tradicional
visita. Ficava ali parado, junto à cama, velando por ele, ou arrumando o que fazer na
casa, para ser útil.
Lembro da figura do Severino, forte e rijo, no
dia do enterro do meu pai. O rosto dele, como sempre, tranqüilo. Severino não era dado a
nenhum tipo de demonstração de emoções.
Foi construir "gaiolas"
No dia 21 de junho de 1987, com um pouco mais
de 50 anos de idade, exatamente, um mês após a morte do meu pai, chegou-me a notícia da
morte do Severino, vítima de um câncer galopante.
Decerto, só posso concluir que meu pai o
chamou para fazer umas "gaiolas" lá no céu; e ele, como sempre, foi...
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