João Carlos Lopes dos Santos
Os mineiros sabem das
coisas... Volta e meia, ouve-se alguém zombando dos mineiros, só porque eles usam a
palavra trem como sinônimo de bagagem, de objetos diversos. No passado,
diziam que os mineiros vinham para o Rio de Janeiro para comprar bonde. Pura lenda, a
realidade é bem diferente.
Movido pela
curiosidade, resolvi consultar um dicionário brasileiro da língua portuguesa,
nomeadamente o Aurélio, e outro, de Portugal, o Dicionário Priberam da
Língua Portuguesa, e vejam o resultado:
O que diz o Aurélio
Segundo o Dicionário Aurélio, trem
quer dizer:
1. Conjunto de objetos que formam a bagagem de um viajante.
2. Comitiva, séquito.
3. Mobiliário de uma casa.
4. Conjunto de objetos apropriados para certos serviços.
5. Carruagem.
6. Vestuário, traje.
7. Na Marinha de Guerra Brasileira, grupamento de navios auxiliares destinados aos
serviços (reparos, abastecimentos, etc.) de uma esquadra.
8. Comboio ferroviário; trem de ferro (brasileirismo).
9. Bateria de cozinha (brasileirismo).
10. Em Minas Gerais, na linguagem popular, qualquer objeto ou coisa; coisa, negócio,
treco, troço (brasileirismo).
11. Em Minas Gerais, indivíduo sem préstimo, ou de mau caráter; traste
(brasileirismo).
12. Em Minas Gerais, na linguagem popular, diz-se de pessoa ou coisa ruim, ordinária,
imprestável; trenheiro (brasileirismo).
E vai por aí. Não deixe de
conferir no seu dicionário, posto que as definições não estejam transcritas ipsis
litteris.
E lá, em Portugal?
O Dicionário Priberam
da Língua Portuguesa, editado em Portugal, nos dá as seguintes definições da palavra
trem:
1. Bagagem e criados ou comitiva que alguém leva em viagem.
2. Fig. Modo de se apresentar.
3. Vestuário.
4. Veículo de tracçãotração animal = carruagem, sege.
5. Conjunto dos utensílios de cozinha.
6. Conjunto dos móveis e arranjos de uma casa.
7. Conjunto de aparelhos ou utensílios destinados a certo fim.
8. Bras. O mesmo que comboio.
9. Bras. Infrm. Qualquer objecto!objeto, coisa,
bagagem, etc.
10. Bras. Infrm. Pessoa ou coisa com qualidades
negativas.
adj. 2 gén. 2 núm.
11. Bras. Infrm. Que tem pouco valor ou
utilidade. = inútil
Veja que a primeira
acepção da palavra nos dois dicionários se refere à bagagem, assim como a oitava
acepção, também em ambos, fala de comboio e como sendo um brasileirismo. Daí,
concluímos que os mineiros têm razão: na bagagem de um viajante tem de tudo, então,
esse tudo é composto de vários trens. Quando ele usa trens como
sinônimo de objetos, em se considerando o vernáculo, os mineiros estão
certíssimos.
Segundo nos conta a
sabedoria popular, o comboio ferroviário recebeu, no Brasil, o nome de trem, justamente
porque o comboio ferroviário transportava os trens, as bagagens das pessoas. Elas diziam:
vou esperar os meus trens, no que acabou em vou esperar o trem,
e assim o comboio virou trem.
A história do bonde
Outra maldade,
decerto, é dizer que os mineiros vinham antigamente ao Rio de Janeiro para comprar
bondes. É verdade, os mineiros compravam bondes. Eles e todas as demais pessoas compravam
bondes, inclusive os cariocas... Trato disso mais adiante.
Na verdade, o bonde
deveria ser chamado também por aqui de carro elétrico ou
elétrico. Aliás, como é chamado em Portugal, país que inventou a
língua...
Como se sabe, nos
Estados Unidos da América, entre outros significados, bond é o
título de dívida emitido por uma empresa criando obrigações de fazer alguma coisa ou
pagar certa quantia. Outra definição é: título da dívida pública, pagável ao
portador. Contudo, a palavra inglesa bond tem vários significados:
laço, vínculo, elo, obrigação moral, ligadura, amarra, contrato, acordo, título,
apólice, debênture, obrigação, bônus, entre outros.
Por isso, há quem
diga que o nosso bonde é originário da forma de financiamento do empreendimento, bonds
obrigações , já que todo empreendimento, à época, era precedido de uma
chamada de capital no mercado aberto, para custear a implantação do sistema, e os
empreendedores emitiram os seus bonds no lançamento dos carros
elétricos, em questão.
Outros explicam que,
quando os carros elétricos apareceram em Nova York, em não havendo moedas disponíveis
para que os passageiros pudessem pagar pelo transporte ou receber o troco em espécie,
tiveram a ideia de emitir bonds bônus e vendê-los aos
usuários do serviço, nos moldes dos bilhetes múltiplos que são atualmente vendidos
pelo Metrô, resolvendo-se, também dessa forma, o problema do troco.
Assim, esse
bilhete (em inglês, ticket), passagem ou passe chegou ao Brasil com o
nome de bond e seu significado, logo depois, foi estendido ao próprio
veículo, que monopolizou a denominação.
Se você tem como me
provar qual das duas teses é a correta, entre em contato comigo.
Destarte, de uma forma
ou de outra, não só os mineiros, mas todos os mortais compravam os seus bondes que,
depois que o nome se popularizou como sendo o veículo, passaram a serem chamados de
passes, passagens, tickets ou bilhetes.
Daí à piada
ou a alguma tentativa de se enganar um incauto qualquer foi um pulo. Pura lenda! E
os mineiros acabaram pagando o pato...
Concluí-se, então,
que o povo mineiro conhece muito bem o vernáculo e, como vimos, não é trouxa, como quer
a lenda. Contudo, é humilde, já que aceita passivamente as gozações, mesmo
sabendo que está pleno de razão.
Para seu governo, o autor desta
crônica é carioca.