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João Carlos Lopes dos Santos
Os fatos são absolutamente
verdadeiros
O título não é enganoso
e - quem me conhece sabe -, não sou chegado a propalar mentiras. Portanto, o que vou lhes
contar é real, mas tem que passar, obrigatoriamente, por algumas explicações.
Não sou o que se pode
chamar de um árabe, mas já fui muitas vezes confundido em restaurantes típicos, algumas
vezes sendo abordado - em árabe - pelos donos dos restaurantes.
Minha linha de sangue
Meus avós maternos eram
açorianos, naturais da Ilha Terceira, e vieram para o Brasil no último quartel do
Século XIX. Meu pai, do continente português, chegou aqui em 1920.
Como se sabe, a Península
Ibérica onde se localizam Portugal e Espanha foi invadida pelos mouros que,
por sete séculos, dominaram a região. Por volta do Século VIII, começou a chamada
Reconquista, um movimento importante da História Ibérica, nome dado ao avanço dos
cristãos sobre as terras anteriormente invadidas na Península pelos árabes.
A Reconquista vai até o
Século XV, quando os árabes deixaram "definitivamente" a Península Ibérica.
As aspas são importantes, porque a presença deles se faz sentir até hoje nos usos e
costumes, na arquitetura e na língua e, mormente, na formação étnica dos lusitanos e
espanhóis.
Muitos desses mouros e seus
descendentes deixaram a Península Ibérica pelo mar e se localizaram no Arquipélago dos
Açores. Foi o caso dos ancestrais dos meus avós maternos, que tinham - eles sim - sangue
puro árabe, preservado por séculos, por conta do confinamento de muitas gerações nas
ilhas açorianas. Lembro-me do meu avô João da Rocha Ferreira - de quem herdei o prenome
e as características físicas: era um mouro, um típico tuaregue.
Acrescentando, meu lado
paterno é também português, nomeadamente transmontano de Vila Real, ali bem próximo da
Espanha, o que não deixa de ser axiomático, já que os portugueses lançando mão
de uma hipérbole , se correrem uma maratona de mau jeito, têm grande chance de
adentrarem pela Espanha ou se afogarem no Atlântico...
Resumindo, meu pai, como
todos os portugueses e espanhóis, também tinha sangue árabe. Vocês já notaram que os
espanhóis, quando cantam, parecem ter um quibe atravessado na garganta?
Onde entra o terrorismo internacional
nessa história
Um casal de amigos, ali pelo
final dos anos 1970, nos deu dois convites para que os representassem numa festa da
comunidade judaica num clube de Copacabana. Tiveram um problema de saúde qualquer, que
impossibilitou o casal de comparecer à festa.
Como todo bom brasileiro,
não julgo ninguém pela nacionalidade, religião, cor, idade, condição cultural ou
social. Tenho grandes amigos representantes de todos esses predicados. Não sou de fazer
julgamentos, no entanto, se for obrigado a fazê-los, só o caráter das pessoas me
interessa.
E lá fui eu, com minha
mulher, para a tal festa judaica, sem sequer me tocar que ainda ecoavam os tiros da Guerra
do Yom Kippur, em 1973, a quarta travada entre árabes e israelenses desde a
proclamação do Estado de Israel em 1947.
Chegamos à festa com os
convites na mão. Na época, tinha o cabelo negro, com a pele queimada pelo sol de Nova
Ipanema sou do tipo que, pegando sol, não descasca e vai ficando negro...
Três casais daquela
comunidade judaica, simpaticamente, nos recepcionaram na entrada do salão, com a
pergunta: vocês são convidados de quem? Expliquei que estávamos ali representando o tal
casal amigo, que todos identificaram de pronto.
Fomos, a princípio,
diplomaticamente monitorados, para depois recebermos um fraterno tratamento, mormente,
depois de dançarmos Hava Naguila, entre outras músicas judaicas. E
cá entre nós, que festa animada...
Obviamente, acabaram por
concluir que eu não era nenhum terrorista internacional.
A outra foi em São Paulo
Anos depois, em setembro de
1996, fui à São Paulo, para assistir a um leilão da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro,
realizado em um clube da comunidade judaica paulistana, no Jardim Paulista.
Aguardando o início do
evento, lembrei-me de telefonar para um amigo. Dirigi-me ao jardim, procurando um melhor
posicionamento para o sinal do telefone celular. Naquela época, a transmissão através
de aparelhos celulares ainda estava engatinhando... Notei que três seguranças
israelenses estavam, ostensivamente, me monitorando dizem que são os mais bem
treinados do mundo.
Só aí me lembrei do
episódio anterior e de que a comunidade judaica andava muito estressada, com os inúmeros
atentados terroristas perpetrados contra sinagogas, consulados, embaixadas e clubes
judaicos, mormente, na América Latina. Pouco antes, em 1994, tinha havido um ataque à
Associação Mutual Israelita Argentina, o que ocasionou a morte de 89 pessoas, além de
outros incidentes de igual gravidade.
Preferi interromper a
ligação e voltar ao salão. Daí em diante, eu fiquei debaixo dos olhares atentos dos
três israelenses, até que, por sorte, adentra ao salão um internacionalmente conhecido
técnico de futebol carioca, que, à época, treinava um clube paulista. Ele veio em minha
direção, me deu um fraternal abraço e sentou-se ao meu lado para assistir ao leilão.
Ainda pude ver os três israelenses se entreolhando, como que dizendo: "está tudo
limpo com esse cara". As aparências enganam...
À paz absoluta e duradoura
Esta crônica é dedicada
à paz absoluta e duradoura em todo o mundo, desejando que todos os povos se entendam. Que
os homens concluam que nacionalidade, religião, cor da pele, condição cultural ou
social não podem impedir de nos darmos as mãos.
Afinal, neste mundo,
estamos todos no mesmo barco ou, se preferirem, debaixo da mesma tenda.
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